Machismo e a Cultura do Estupro

Cultura do Estupro e Estrutura Social Machista estão completamente interligados. Uma depende da outra, uma legitima a outra, uma é base simbólica para a outra, que é sua base concreta. Qual a relação mais íntima entre as duas?

A Cultura do Estupro é essa cultura que permite aos homens abusarem do corpo de mulheres, as abusarem moralmente e não serem culpados por isso. No fim, não se trata de estupro, mas de “aproveitar o momento”. Ou a culpa é da vítima. Eu creio que a gente pode chamar de cultura do estupro essa possibilidade. Mas o machismo, implicado na estrutura da nossa sociedade, me parece que precisa de um detalhe a mais para definição.

Veja também:  O que é machismo?

Digo, é óbvio que a cultura do estupro é um desdobramento de uma sociedade machista, mas eu acredito que a cultura do estupro envolve essa possibilidade de se cometer um ato abusivo e não ser culpado – envolve mais a violência simbólica envolvida a priori nas relações de gênero -, enquanto o machismo é aquilo que te obriga a realizar este ato.

Machismo Cobre a Todos

A Ticiane em seu site Crítica Consciente colocou algo interessante: o machismo também cobre os homens, mas isso não significa que são cobertos da mesma maneira. Basicamente, o machismo que prescreve um conjunto de maneiras de agir, sentir e pensar para mulheres, o faz também para homens – mas os coloca em lados opostos. A oposição homem e mulher se completa porque as qualidades de dominante e dominado, superior e inferior, ativo e passivo e etc e etc, também se completam. São oposições que se significam exteriormente e que, por sua vez, definem como ambos devem ser.

Uma coisa é clara, dentro da hierarquia produzida pelo machismo, a posição da mulher é inferior em todos os pontos. É uma posição de subserviência, é uma posição onde qualquer atributo está ligado à incapacidade, está ligado à possibilidade permitida, deixada pelo homem.

Entretanto, o que me parece mais interessante, é que esta estrutura machista de posições e estas maneiras de ser, acabam sendo inculcadas em homens e mulheres. Todos reproduzem o machismo, só pelo fato de existir – o pressuposto de que um homem é hétero (ou que, se estiver de calça rosa, é gay), o pressuposto de que, sendo hétero, tem algum nojo a homossexuais, que trabalha para ser um cidadão com honra, que uma mulher tem impulso por compras e etc e etc, todos estes pressupostos, não nascem após conhecer as pessoas – eles estão lá classificam as pessoas antes mesmo de nós sabermos seus nomes.

Machismo é Incorporado

Quando inculcadas, elas instalam, também, injunções: é aí que vem o conceito de habitus, um sistema de disposições inculcado e incorporado durante toda a vida do sujeito. É a lei social incorporada. Se a cultura do estupro revela que há uma esfera de permissão para o estupro, o machismo instala no sujeito essa injunção. O habitus do homem médio envolve as considerações do “não=sim”, do “pediu para ser estuprada” e as ações subsequentes de realizar o feito. Quem pede para ser estuprada já o foi e só tendo sido que este enunciado costuma ser expressado.

O machismo, portanto, não só oprime mulheres, como obriga homens a determinadas maneiras de ser, mas, além disso, quando consegue se instalar plenamente, instala as injunções necessárias para que a cultura do estupro não seja (infelizmente) uma abstração, mas que esteja presente nas diversas ações “oportunistas” de cada homem.

É óbvio que muitos homens acabam não se adequando e são, por sua vez, marginalizados. Mas isso não anula o machismo e a possibilidade de, por sua posição na estrutura social, deste mesmo homem se revestir das maneiras de ser designadas por uma sociedade machista.

11 Comments

  1. Adorei o post, Vini! É muito importante darmos visibilidade a esse assunto. É sobretudo importante que as pessoas percebam o quanto os seus comportamentos machistas são culturais e aprendidos, isso sem falar que são tão sutis que tais pessoas não se percebem enquanto machistas ou perpetuadoras de tal comportamento!
    Beijos!

  2. Ora, a atuação do machismo sobre o homem vai além de meras “formas de agir” que atingem as mulheres. Se formos fazer um recorte de classe, implica num encarceramento em massa da população masculina pobre.

    Dos 600 mil pessoas presas, apenas 6,5% são mulheres.
    É verdade que o número de encarceradas – atualmente – cresce mais rápido (cresce a 32%, contra 15% do encarceramento masculino).

    No mais, acho importante o acréscimo desses dados tão sempre esquecidos, pois parece que a ideologia machista “prescreve uma maneira de agir” que prejudica “um pouquinho” os homens e “de montão” as mulheres.

  3. O nosso problema-mor de todos os dias e que deve ser discutido e não só discutido mas levado a sério é a nossa cultura da violência. Há um culto da violência que inicia-se dentro do Estado e se espraia pela sociedade. Nosso aparato estatal é o primeiro a desrespeitar a lei e incentivar a qualquer um a seguir seu exemplo.

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