Cavalheirismo: Gentileza Às Avessas

Texto lindo no Escritos Feministas, fazendo aquilo que é de mais útil para qualquer movimento: denunciando um pedaço da reprodução do machismo que se passa por gentileza.

Basicamente, trata-se de dizer que o cavalheirismo não é algo positivo para as mulheres. Que é um braço do machismo. Para Kate Millett o patriarcado, enquanto socialização da opressão feminina, se expressa de três formas – 1) pelo temperamento (esfera psicológica); 2) Status (esfera política) e 3) Papel social (esfera sociológica). O cavalheirismo expressa e depende destas três formas de dominação.

De acordo com Karla T, em seu texto no Escritos,

[A]  idéia de fragilidade natural feminina é exatamente o que nos tornou cidadãs de segunda classe por tanto tempo. Devido a nossa fragilidade, havia a idéia de que o papel do homem é cuidar de nós – o que, na prática, nos tornou civilmente incapazes por muito tempo. E, como é dever do homem cuidar de seres mais frágeis, era também esperado que ele educasse as mulheres: era compreensível que um homem castigasse uma mulher fisicamente por algum comportamento inadequado. Resumindo, o cavalheirismo tem origem na mesma idéia que negou vários direitos civis às mulheres e que legitima até hoje comportamentos violentos.

E, completando com o caráter de complementaridade homem x mulher:

O cavalheirismo é apenas mais um papel de gênero que reforça a idéia de desigualdade, afinal, um homem que se sente no dever de ser cavalheiro não faz isso porque vê as mulheres como iguais. Caberia ao homem, mais forte, se esforçar para compensar nossa fragilidade natural e facilitar nossa vida.

É interessante pensar na gentileza de forma geral. Na caridade, na solidariedade (no sentido comum), na gentileza e etc e etc. Estas ações/sentimentos/ideias existiram em uma sociedade igualitária? Eu duvido. Qual função elas teriam em uma sociedade onde, simplesmente, a caridade, a solidariedade e a gentileza não são necessárias?

Voltando ao tema principal, ainda é fácil ver como que o machismo, enquanto parte da cultura, se protege e utiliza do escárnio como arma. Como a Aline do Mundo Desalienado pontuou, a ridicularização acaba sendo uma arma tão poderosa quanto um argumento. Chega a ser mais profunda, por que anula o argumento, retira sua autoridade.

São esses pedacinhos da vida cotidiana que cimentam as relações de dominação. Eles estão a mercê da cultura, precisam ser preenchidos por ela, e quando são significados, reforçam e fazem do machismo, uma prática.

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  1. A questão é, cabe ao cidadão normal atravessar o cego na rua por esse ser cego? É a fêmea fisicamente menos capaz do que o homem? Sempre odiei o cavalheirismo em si, como necessidade de mostrar-se mais forte e como necessidade de autocontemplação masculina. Sou gentil com as mulheres, tento não explorar sua emoção ou aproveitar-me da gentileza, embora que ego resista totalmente (ainda mais com tantas machistas que adoram o gesto cavalheiresco que me parece ridículo)?

  2. A resposta que dei lá, também dou aqui:

    Sempre que eu pegava ônibus para ir ao meu trabalho, tinha mulheres jovens e homens idosos no ponto, quando ele chegava eu me posicionava ao lado da porta e deixava as mulheres subirem primeiro em seguida os homens idosos, fazia isso porque não corria o risco de ser molestado por algum tarado ficando em pé, ou ter algum osso fraturado caso houvesse uma parada brusca, que sabemos que acontece, fazia isso por ter mulheres e idosos na minha família, e e esperar a mesma consideração com eles. Em outra ocasião, andando com uma amiga, ela disse que se sentia segura comigo porque ninguém mexia com ela na rua, tenho costume de deixar a mulher do lado da calçada, mas uma outra amiga dizia que não gostava disso, até aí tudo bem, mas ao subir uma ladeira ela ficou do lado da calçada, uma van passou a toda velocidade e me acertou no ombro com o espelho lateral, se fosse ela seria na cabeça e seria fatal. Outro dia, um vizinho veio á minha porta pedir ajuda com a mudança dele, e me disse: somos homens pequenos! Eu sou um fisiculturista gigante, não sou melhor que ninguém por isso, não ofereço ajuda á quem não precisa, independente do gênero/sexo, mas se precisa e posso ver que sim, então ajudo, isso eu chamo de cavalheirismo, não “machismo opressor” ou “misoginia” tão pouco superioridade masculina, apenas gentileza. No mais, o que seria isso “Caberia ao homem, mais forte, se esforçar para compensar nossa fragilidade natural e facilitar nossa vida.” senão cavalheirismo?

  3. “É interessante pensar na gentileza de forma geral. Na caridade, na solidariedade (no sentido comum), na gentileza e etc e etc. Estas ações/sentimentos/ideias existiram em uma sociedade igualitária?”
    Depende do que você chama de “igualitária” se for igualdade de direitos, sim, existiria tudo isso e muito mais. Igualdade de condições? Isso já é utopia.

  4. Essa discussão é bastante rica e ao mesmo tempo complexa. Entendo o objetivo do texto e sua argumentação no que se refere ao modo de pensar que engendrou determinado comportamento: o cavalheirismo. Contudo, também creio que as práticas ganham novos significados, são renovadas, reinventadas. Sendo assim, creio que hoje a ideia de cavalheirismo carrega sim, embutido, uma certa concepção machista, contudo acredito também que fixar significados eternos a certas práticas é um tanto reducionista e amputa grande parte do debate.

    Imaginemos uma feminista (que pensa como o texto) que seja “vítima” de uma ação interpretada como cavalheirismo. Imaginemos ainda que esta ação venha de seu namorado. Um belo dia, ele (muito apaixonado e convicto do seu amor) resolve mandar flores para sua amada, com bilhetinho e tudo. Ela, após o encantamento prematuro, imediatamente reflete e logo infere: cavalheirismo = machismo = desigualdade de sexo. Ora, de um outro ponto de vista podemos também pensar que, ao invés de haver uma valorização do gesto que visava demonstrar um amor que não podia se conter, optou-se por uma leitura bastante problemática que interpreta por todo mundo, que tem a palavra, a verdade.

    Isso só foi uma hipótese bastante tosca pra colocar um outro elemento e somar à discussão.

    obs: gosto muito do colunas, acompanho rotineiramente os textos que vocês publicam. É um bom material. Parabéns.

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