Medo, Coragem e Cinema

Violência como cotidiano é algo comum. Talvez uma prova que a violência tem um papel importante nas ações da polícia seja a canção de comemoração do BOPE, onde a morte por tiro na cabeça deve ser comemorada. Bandido bom é bandido morto.

Violência Sempre

Uma das análises a respeito do medo, em Medo Líquido, é que, na verdade, os meios de comunicação e as agências de governo acabam funcionando como propagadores do medo e que isso gera consequências políticas imediatas. O medo é um fator político, é controlado politicamente. É nesta lógica que a situação de risco, o Estado de emergência, se torna um Estado comum, vigente. A ordem oficial é o Estado de emergência, mas se mantém a terminologia da emergência para parecer que é temporário.

Filmes como o Justiceiro, Rambo, Demolidor ou Tropa de Elite, mantém os estereótipos daqueles que devem ser temidos e odiados. Constroem, personificam e, ao mesmo tempo, reproduzem o inimigo, lhe dando cara, personalidade e objetivos. Constroem o medo e o disseminam.

Indústria Cultural

Em Rambo, o inimigo é o vietnamita, o inimigo do Império, o maldito comunista, é o não-humano oriental do regime comunista que protege e se submete ao domínio de ditadores sanguinários. Rambo é um libertador e um patriota. Faz o que precisa ser feito para alcançar seus objetivos e, depois da guerra, não importa quantos foram mortos, o importante é que a paz democrática reinará daquele ponto em diante.

Justiceiro fica na esfera da vingança. O mal que não será vencido pela ordem, por isso, é necessário que haja alguém fora da ordem para vencê-lo (igual Stallone Cobra). Este sujeito fora da ordem é a demonstração de como a própria ordem pede ações fora de sua aprovação: essas ações são encobertas ou apoiadas pela moral, pela cultura e etc e etc, mas, o mais importante, não são nunca relacionadas aos aparelhos estatais. Precisam ser feitas sem qualquer ligação aparente com o Estado – precisa ser feita ‘pelas costas’ do Estado ou precisa ser encoberta, caso feita pelo próprio Estado.

Stallone Cobra mostra como é necessário ser um bocado fascista para manter a ordem democrática vigente e como este fascismo é colocado num pedestal de pragmatismo. “Na prática, tem que ser assim”.

Tropa de Elite e Demolidor tentam mostrar uma luta local contra um dano antigo: o tráfico ou a mafia – o traficante ou o Rei Do Crime. Autorizam a violência como arma de defesa preventiva, autorizam a caçada aos malfeitores e autorizam o extermínio aleatório. O medo, neste dois longas, é o medo de sair à rua, é o medo que o jornal popular reproduz ao dedicar metade de seu tempo às notícias sobre crime. É o medo que os programas de jornalismo policial reproduzem ao enunciarem que “mostram a realidade”.

Coragem Como Ação Política

É assim que a coragem se transforma em ato político, também. Por si só, a coragem é aquilo que leva o indivíduo a ir de frente para o medo e verificar se ele é legítimo. Se há algo para temer. O que se deve temer?

A probabilidade de encontrarmos o problema real naquilo que menos nos dá medo (nos grandes empresários, na igreja e etc e etc) aumenta cada vez que passamos a não perder tempo com medo da favela. O medo da favela já se mostra como um medo fabricado, um medo construído com a ideologia da elite, que afasta e marginaliza os grupos que não lhe agradam. Desta forma, a coragem se mostra como resposta ao medo; a coragem com ato político.

0 Comments

    1. Caro Ruda, você poderia argumentar com o seu intelecto ou citar algum texto interessante para contrapor a opinião do autor… pois mesmo o tal “maconheiro babaca pseudo-intelectual” está expondo algo consistente, até com referência bibliográfica, é crítica Construtiva!

  1. cara, pensando no Tropa de Elite 2, o filme não “denuncia” de uma certa forma o sistema corrupto brasileiro? ou você pensa que não presta um serviço construtivo a sociedade?

    1. Pode ser, no texto eu me refiro ao primeiro, mas pode ser, sim.

      O segundo eu nunca parei pra ter insight nenhum, mas eu sempre tive a ideia de que o José Padilha viu que queimou o filme com o primeiro e decidiu fazer um segundo mais crítico pra não ficar feio na foto.

  2. Rambo e Cobra são filmes que gosto abaixo de um saudosismo de infância. Mas, sim, as tuas colocações estão completamente corretas. No entanto, acho que vale lembrar que o primeiro filme do Rambo (baseado no romance), mostra o personagem como um ex-soldado abalado pela guerra. Tanto que ele confronta todo um aparato policial e faz um rico estrago. Mas nos outros ele passa bem a imagem do herói do imperialismo.

    Tropa de Elite nunca assisti e nem pretendo, o título já é suficiente para me afastar.

    Ótimo texto e, o pior de tudo, é que dá pra fazer mais listas com muitos outros filmes blockbusters.

    1. Cara, eu, ainda após escrever este tipo de coisa, não consigo não gostar de Cobra. Gosto é foda, eu sei que é uma merda, mas não posso negar que o filme me prende.

      Hoje um amigo me falou que lançaram um filme sobre a ROTA. Vou ver pra sentir o drama.

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