Arnaldo Jabor e a militância imaginária

Em um texto ao estilo classe-média de ser, Jabor classifica uma Militância Imaginária como uma militância presente no Brasil

em universidades, igrejas, conventos, jornais, bares. O militante imaginário é um revolucionário que não faz nada pelo bem do povo; ele se julga em ação, só que não se mexe. A revolução imaginária não tem armas, nem sangue, nem dificuldades estratégicas, nem soldados. Trata-se apenas de um desejo ou de ignorantes ou de pequenos burgueses que sonham com uma vitória sem lutas.

Em outras palavras, um ativista de sofá. Aquele que faz tudo conforme as leis – mas quer derrubar as leis. A primeiro momento a crítica de Arnaldo Jabor parecem ser completamente plausível, já que

O militante imaginário (MI) tem uma espécie de saudade. Saudade de um mundo que já foi bom. Só que ninguém sabe dizer quando o mundo foi bom. Quando o mundo foi bom? Durante a guerra de 14, no stalinismo, nos anos 40, quando? O MI tem saudade de um tempo quando se achava que o mundo “poderia” ser bom; é a saudade de uma saudade.

É um militante preso no sonho da revolução logo na entrada da ditadura no Brasil, mas que, diferente dos militantes de 64 à 68, não tira a bunda da cadeira. Isso parece completamente coerente – mas só parece coerente por que essa é a imagem do militante construída e disseminada pela mesma direita que detém os meios de comunicação e dominam o discurso. É uma construção que demanda aquilo que não pode ser feito.

Extremismo

Demanda uma luta que a própria direita ignora (que é a luta diretamente contra a ordem vigente). Uma luta estigmatizada como extremista, mas extremismo toma uma função de categoria de exclusão. Gramsci diz que a hegemonia é feita quando ainda há um pedaço de ativismo da oposição. Ela só se mantém por que a própria oposição, ao participar do jogo da ideologia dominante, ‘perde’ a luta política e não consegue expôr de forma completa seu próprio projeto.

Isso quer dizer que a hegemonia precisa necessariamente de um espaço para algum tipo de oposição. Esta oposição castrada que reafirma a hegemonia, que dá como prova a eficácia da ordem. Isso, tomando como base o terror do extremismo, pode ser delineado no espaço da direta e da esquerda. Direita e esquerda são posição dentro da ideologia: não podem quebrar a ordem vigente e lutam entre si pelas mesmas coisas, com projetos localizadamente diferentes.

O extremismo que é o problema. Por que é o problema? Porque o extremismo é o lugar onde os projetos que realmente podem derrubar a ordem (ou que foram derrubados por ela, mas que demandam atenção para um ressurgimento) estão localizados. São projetos nocivos à globalização, ao capitalismo liberal e etc e etc. É lá que o ‘verdadeiro militante’ do Jabor estaria – exatamente na zona excluída da participação social respeitável. Na zona do terrorismo, na zona dos fora-da-lei, na zona dos sonhadores idiotas ou dos fundamentalistas políticos.

Ao colocar o verdadeiro militante neste espaço, ele elimina qualquer ação possível de um militante, pois todas as ações possíveis são ações que se situam fora do debate político legítimo. São ações ‘extremistas’.

Jabor, como arauto da direita supostamente intelectual, reproduz a imagem do militante cagão, mas esquece que as manifestações públicas que brotam por todo o país são manifestações de militantes… Não são passeatas da paz, não são uma marcha pra Jesus. Os protestos contra aumento de passagem incendeiam as capitais e regiões metropolitanas…. E não são feitos pela vento, pelo nada, pela ‘ideia’. São feitos por militantes.

Este militante, que age e que é o militante ‘verdadeiro’, ele não funciona pras elites brasileiras. Não dá pra desmoralizar este militante. Fica mais fácil inventar um militante, espalhar sua imagem e suas características por toda a mídia e fazer do estudante, por exemplo, um rascunho de gente.