Snowden Abriu A Tampa Da Espionagem Dos EUA E O R7 Ainda Não Se Tocou

Edward Snowden revelou a espionagem americana em vários graus de invasão. Mesmo assim, ainda há aqueles que protegem a ação invasiva do governo americano: o portal R7, por meio de um de seus colunistas, publicou um texto interessante com um apoio no mínimo estranho.

Após o escândalo da vigilância americana (deflagrado por Edward Snowden) sob os e-mails, ligações e mensagens (inclusive no Brasil), a primeira coisa que aconteceu na internet foram imagens humorísticas de repúdio à estratégia de controle e segurança americana. Após descobrirem que no Brasil isto também acontecia, nossas autoridades forma questionadas e questionaram todos que poderiam questionar.

Entretanto, de repente, me aparece um texto no portal R7 que tenta justificar a espionagem dos EUA no Brasil. O título do texto já é comprometedor: “Quem não deve, não teme. Obama pode e deve espionar”. “Quem não deve não teme” é a típica frase que justifica as ações totalitárias de qualquer Estado. “Quem não deve não teme” é a frase que reproduz o panóptico e sorri.

snowden revela espionagem dos eua

R7, sempre R7

Esta é a frase dos conservadores, dos cidadãos-de-bem, daqueles que, do alto de sua imensa moralidade e de sua reverência às autoridades estatais (sempre mais maduras que a sociedade civil – quase como nossos pais), não tem nada a temer. O que eles não têm a temer? Eles são a massa de recheio da ordem, é claro que não têm nada a temer: quem teme algo é aquele que organiza as manifestações por todo o país e por todos os países que elas ocorrem, quem teme algo é aquele que organiza luta de classe, é aquele líder sindical, é o líder estudantil, é aquele que, de alguma maneira, ameaça a ordem.

O autor diz,

“Afinal, qual o problema? Podem até vasculhar minha conta bancária. Não tô nem aí. Honestos não precisam ter medo.  Não considero isso invasão de privacidade, mas logística de segurança. “.

No fim, não se trata de invasão de privacidade, mas sim de logística de segurança. Considere da forma que quiser, ainda será invasão de privacidade… Entretanto, classificar como logística de segurança envolve entender a que segurança se refere. Segurança do que? De quem? São perguntas em que as respostas afunilam para a própria hegemonia dos EUA no mundo. Não é para ‘nossa’ segurança (e mesmo se fosse, ainda sim seria inaceitável).

A ignorância do autor vai aumentado nos seguintes parágrafos:

“Os EUA são o país mais importante do mundo. São poderosos, possuem soldados competentes e armas eficientes. Invadem terras perigosas, acabam com ditadores e terroristas.

As pessoas deviam agradecer a Obama pela proteção, em vez de taxá-lo de invasivo. Ele não está invadindo nada, está criando uma rede mundial de defesa.“

É quase como dizer que os colonizadores estavam criando uma rede mundial de intercâmbio comercial e exploração de terras e esquecer dos massacres sanguinários aos povos nativos da América. É de imensa ingenuidade. No fim, até parece piada, parece que foi de propósito, pegadinha. Entretanto, infelizmente, não é.

obama espiona brasileiros

As terras perigosas que os soldados eficazes americanos invadem (e derrubam os malvados ditadores) são terras, sempre, de seu interesse – afinal, Mubarack não sofreu invasão nenhuma em mais ou menos 30 anos de ditadura. Outra questão importante é sobre a validade dessas invasões: até onde vale o princípio do Estado Soberano? É válido legitimar as intervenções estratégicas dos EUA (e dizer, no fim, que o mais forte tem sempre razão)?

Considerar legítimo as intervenções dos EUA (de todas as formas de intervenção, inclusive a espionagem) significa considerar legítimo a ditadura do mais forte. Um autoritarismo disfarçado de democracia.

Isso não é ideia nova, não há novidade no autoritarismo americana, empurrando goela a baixo todas as medidas democráticas (que sempre envolve a imposição de medidas neoliberais) nos países fora de seu eixo estratégico de influência e dominação. A resistência é vencida com o clamor público – Um ditador derrubado em nome da democracia é considerado sempre fato progressista e é com base nisso que a propaganda americana consegue a opinião pública ao seu lado.

Sinóptico Como Dispositivo de Controle

Mas uma outra coisa muito me interessou neste texto.

Foucault analisa a sociedade sob o modelo do Panóptico, a prisão ideal, individualizante, onde poucos vigiam muitos. Uma imposição vigilância, um dispositivo de controle que impede qualquer forma de organização e realiza de maneira cruel o sonho liberal da sociedade de indivíduos.

Bauman (citando Thomas Mathiesen) inverte a lógica do dispositivo e diz que, atualmente, o panóptico funciona juntamente com o sinóptico – um dispositivo de controle que acontece socialmente. O que isso significa? Que o controle é feito pelos próprios indivíduos controlados, ou melhor, que os indivíduos controlados são seduzidos pelo/para o controle.

No sinóptico, ao contrário da pequena camada especializada do panóptico, são muitos que observam poucos, mas esses muitos “aprendem”. Eles observam aquilo que devem ser/fazer/sentir. Um exemplo são os reality shows, onde poucos são vigiados dentro de uma casa, demonstrando e ensinando como a vida real deve ser vivida.

panóptico de bentham descrito por foucault

Um outro exemplo são os bancos de dados: são dados passados de maneira voluntária que servem como informações para controle e categorização dos indivíduos. É aqui que outra característica do sinóptico é identificada: ele, ao invés de incluir tudo e todos, tem como ações positiva excluir aqueles que não se adequam (que não tem potencialidade para participar ativamente da sociedade de consumo, por exemplo).

Os dois, panóptico e sinóptico, andam juntos e funcionam completamente, induzindo à normatização da subjetividade.

E é exatamente isso que o texto faz! Reproduz e legitima o sinóptico. O torna válido! Esta é a sedução do dispositivo de controle: sua legitimação. “É para nossa proteção” e “Quem não deve não teme” são frases que se tornam modelo do sujeito formado para e pelo sinóptico.

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