Airton Cordeiro E O Caso De Abuso Sexual Na Rádio CBN De Curitiba

O caso de abuso sexual na rádio CBN de Curitiba, com o então respeitável jornalista Airton Cordeiro, revela e demonstra um pouco do machismo que se encontra em nível inconsciente, que se inscreve na própria vítima e que retira o foco do abuso do culpado.

Em tempos onde a subida das críticas aos movimentos feministas e a sua anulação prática, como se o mundo não precisasse mais dele, cresce, um caso de assédio sexual se mostra um bom representante do patriarcado e do machismo. Não se trata de “só” um caso de estupro, único, individual, disperso, mas eu acredito que, até mesmo pela carta que a vítima expôs à público, é possível verificar um conjunto de práticas e culpabilizações que só podem existir da maneira como existiram num sistema de dominação-representação machista.

Airton Cordeiro E O Caso de Abuso na Rádio CBN de Curitiba

Airton Cordeiro, respeitado jornalista da Rádio CBN de Curitiba, foi acusado de assédio sexual por Mariana Ceccon, estagiária da rádio. Durante o desenrolar do caso, outras vítimas foram ouvidas. Secretárias, estagiárias e telefonistas também foram vítimas e comentaram sobre o caso durante uma investigação interna que, por conta da omissão da chefia em tomar providências com um caso claro e recheado de testemunhos,  levou três jornalistas de importância a pedirem demissão como protesto.

airton cordeiro Caso de abuso na radio cbn

Após o caso vazar para a esfera pública, inúmeras piadas e tirações de sarro foram destiladas. A estagiária que formalizou a denúncia foi colocada numa situação insustentável onde o abuso que sofreu e sua imagem como jornalista dentro do mercado de trabalho dos meios de comunicação estravam em contradição. Era necessário lançar uma carta pública e essa carta foi lançada.

O que podemos tirar da carta?

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Abuso Sexual e Hierarquia no Trabalho

“Neste meio tempo o Wille [diretor de jornalismo] recebeu relatos de outras funcionárias e ex-funcionárias da rádio ficando cada vez mais irritado. Inclusive casos que passavam do plano verbal. Passadas de mão, intimidações, ofertas de dinheiro para levar funcionárias a motéis. Todas em mulheres que ele provavelmente considera estarem em posições inferiores dentro da empresa e vulneráveis.”

Como eu já havia falado acima, secretárias, telefonistas e estagiárias também revelaram os abusos de Airton Cordeiro.  Fica então a relação direta entre posição hierárquica e exercício do poder. Airton ainda era amigo do cume da hierarquia:

“O Wille me procurou, pediu desculpas em nome da CBN e garantiu que ia levar o caso diretamente para o alto escalão. Isto porque o diretor-geral da rádio é amigo pessoal do Airton e o maior medo era que o caso fosse abafado ou contornado sem as devidas providências.”

Sua posição poderia ser, dentro da estrutura da empresa, dependente de tantas outras e subordinada a tantas outras, mas sua ligação direta com o alto escalão lhe blindava e, de fato, blindou, de início. O abuso não foi fruto, então, do descontrole de Airton, mas tem ligação direta com a posição que ele ocupava dentro da hierarquia da empresa e com a blindagem que ele receberia do alto escalão.

airton cordeiro acusado de abuso na cbn paraná

Em uma sociedade onde a agressividade sexual do homem, sua atividade, em detrimento da passividade da mulher, é colocada em primeiro plano e é um identificador e reafirmador do gênero, estar em posição privilegiada em meio às relações de poder libera um campo maior de ação para expressar essa agressividade e reafirmar o lugar que se ocupa no mundo.

Machismo é Inculcado

“Durante o programa ele se aproximou da minha mesa, como quem quer olhar alguma coisa no monitor do computador. Abaixou-se, tirou os cabelos do meu ombro e disse: “Eu estou morrendo de tesão em você e ainda vou te montar, você vai ver” […]Ele falou isso e eu não fiz nada. Não respondi nada. Por muito tempo eu fiquei me sentindo um lixo por causa disso. Quando tomei coragem de contar, todo mundo me dizia: “Nossa se fosse comigo eu tinha enfiado a mão na cara… Nossa e você não falou nada?”. Não, eu não falei nada.”

Isso é interessante, no meu ponto de vista. Não fazer nada não significa que nada poderia ser feito, ou pior, que após uma longa reflexão, ela decidiu não fazer nada. Não fazer nada é efeito da mesma hierarquia de poder [dita acima] inculcada e incorporada, que coloca não só funcionários de mais prestígio em lugar dominante, mas também que faz de suas práticas, práticas que precisam ser toleradas, pois o lado mais fraco da relação de força estabelecida não tem garantia e nem certezas.

Bauman já deixou isso explícito, já que (e em tempos líquidos fica mais explícito) a dominação envolve a manipulação das certezas, deixando a situação de incerteza tomar conta dos dominados. Incerteza evita a prática, evita a ação, evita o controle.

O abuso sexual, que pode ser transfigurado por meio de todas as frases possíveis em ~somente uma cantada~ se transforma em algo que precisa ser tolerado, como ela mesma falou:

“Estou relatando exatamente as palavras que ele me disse não porque eu queira ou esteja confortável para falar sobre isto, mas sim porque não aguento mais ouvir coisas do tipo: “ahh o velho tá no fim da vida, foi lá fez um galanteio e todo mundo tá fazendo esse escândalo”, “Ah o cara passou uma cantada e já levam para o lado do assédio”. E para deixar bem claro de uma vez por todas que o Airton não me fez nenhum elogio. Ele me tratou como um animal.”

Essas transmutações que um enunciado pode passar são adequações para chegar ao limiar do inofensivo. São adequações que tentam retirar na aparência a relação de poder que o enunciado expressa ao ser praticado.

Culpar a Vítima

“[…] depois de toda a situação que eu havia passado, abrir o Twitter e ver coisas do tipo “na capa da playboy de julho, a estagiária que revelou Airton Cordeiro revela tudo pra você”, “Airton Cordeiro comendo muito as estagiárias da CBN Curitiba”, “Imagine as quengas que trabalham na rádio”. Isso foi pior do que o próprio Airton. Todo mundo que me conhece o mínimo sabe o quanto eu luto e me esforço pra fazer minha carreira eticamente. E isso é a pior coisa que pode acontecer com alguém que tenha esses princípios. É ser exposta publicamente, como se eu estivesse querendo “tirar uma grana, ter 5 minutos de fama” ou pior, como eu já vi, “dado motivos” para que ele agisse assim.”

“Com as coisas em níveis impraticáveis o José Wille levou a questão para a empresa. Eu não sei detalhes da reunião, a única coisa que me disseram foi que as gravações com os relatos de assédio foram mostradas. Com a omissão da chefia, o José Wille pediu demissão. Encarei meus colegas um a um com um sentimento de culpa. Apesar de não ter “cavado” a situação eu era a pivô.

Espero que esse texto também venha reparar a culpa que sinto por ter abalado todos os funcionários, sem exceção. Sei, e muitos já me falaram e deixam todos os dias claro que a culpa não é minha. Mas apesar de desejar, eu não consigo aquietar meus pensamentos com isso. Eu sei que esta história não só tirou o trabalho de 3 pessoas e prejudicou suas famílias, como eu sei também que os outros que ficaram foram igualmente prejudicados com a alta carga de trabalho, responsabilidade e estresse.”

culpa vítima no abuso sexual radio cbn

A vítima só se torna culpada quando a ordem é atingida. A mulher é considerada culpada de uma situação de abuso quando o abuso é levado à público e, como estratégia para retirar o foco do abusador, tenta-se diminuir o abuso e deixar como foco a vítima que “instigou” o abusador, ou os efeitos que a acusação trouxe (daqui a pouco veremos notícias onde dirão que a acusação de abuso desestabilizou a família de Airton). A demissão de funcionários, a alta carga de trabalho, os holofotes da mídia e etc e etc, nada disso tem validade maior que o abuso cometido. O abuso que foi o início de tudo, não a denúncia. A denúncia é sempre uma reação.

Essa inversão de sentir-se culpada por ter denunciado algo que vai de encontro com a ordem vigente também pode ser interpretada partido do pressuposto que qualquer um numa da sociedade incorpora as estruturas sociais, incorpora as relações de poder, inculca as maneiras de sentir, pensar e interpretar o mundo dominantes.

Em uma sociedade machista não é novidade que todos, homens ou mulheres, incorporem tais estruturas e as reproduzam. Sentir-se mal, sentir um mal-estar, sentir-se culpada é uma disposição que a própria ordem vigente passa para o sujeito. Não se trata só de enunciados que dizem que a mulher é culpada por se vestir de uma dada maneira, mas também de algo que é inculcado, que constitui cada sujeito e faz desse sentimento de culpa, um sentimento possível.

Considerações Finais

Valei dizer que nada que foi escrito aqui tem por objetivo analisar a estagiária ou o jornalista denunciado, mas tem como objetivo tentar observar um fenômeno social, que é o machismo, se expressando na prática cotidiana e nas expressões dos sujeitos. É uma tentativa de mostrar que o patriarcado não se limita à família e ao nome do Pai, mas perpassa todas as relações de poder, que é justamente ele que dá possibilidade para que um abuso seja possível de ser feito.

Este caso é, na minha opinião, didático, pois é possível enxergar alguns pontos que podem ser generalizados, como eu tentei comentar durante o texto. Não creio que machismo seja um prática particular ou um desvio moral, muito menos uma doença ou o resultado de uma predisposição genética. Machismo é aquilo que constitui os sujeitos e a sociedade, é, então, aquilo que pode ser visto em atos cotidianos, é aquilo que fica invisível, aceito como se fosse neutralidade. É aquilo que dá base para o caso comentado no presente texto.

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