Geraldo Luís humilha câmera, mas seu personagem é ainda mais humilhante

A cópia do Datena, Geraldo Luís, apresentador do Balanço Geral, humilhou o seu cinegrafista durante o início do programa. O Balanço Geral é um programa que tenta misturar um pouco de bizarrice non-sense e [talvez] algum humor com notícias alarmistas do cotidiano.

A cópia do Datena, Geraldo Luís, apresentador do Balanço Geral, humilhou o seu cinegrafista durante o início do programa. O Balanço Geral é um programa que tenta misturar um pouco de bizarrice non-sense e [talvez] algum humor com notícias alarmistas do cotidiano. É o típico programa que segue a rabeira do telejornais policiais e sensacionalistas que fazem da morte, do sangue e do assassinato, realidades cotidianas e insuperáveis.

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Geraldo Luís no início de seu programa

O programa é apresentado de maneira mais ou menos irreverente, com notícias bombásticas, mas com pausas para piadas e inserções sem sentido aparente, por parte do apresentador. A figura do apresentador, vale dizer, alí é importantíssima. Ele é o mediador dos acontecimentos. É um Dateninha. Geraldo, enquanto apresentador, julga os acontecimento e coloca a carga de revolta necessária para se interpretar da maneira que o programa pretende que cada notícia seja interpretada. O seu estilo não é somente parecido com o Brasil Urgente por ser o típico apresentador ~juiz moral~, mas é parecido por ser, também aquele que leva a realidade, o cotidiano para o programa.

O programa se legitima e se inscreve como um programa do cotidiano não só pelas notícias. É necessário algo mais. A figura do apresentador tem uma outra função. Ela leva o programa para realidade, o afastando do “controle de qualidade” minucioso de um programa de televisão comum, de auditório, por exemplo. Como isso? Eu posso começar dando um exemplo do Datena: em um dado programa, ele para seu discurso e começa a reclamar do mosquito que acabou de entrar no estúdio e está o incomodando. Esta ação foi um “gancho” para a realidade banal, para o ordinário. É dizer que o programa não tem o menor objetivo de ser “ideal”, mas sim, de ser “do cotidiano”.

Geraldo fez isso com o câmera. Percebeu que não era seu câmera comum e fez sua inserção: “Quem é você? Nunca vi na minha vida. Você é câmera? Desde quando? Nunca vi esse cara aqui na Record. Estou de olho em você, hein. Num erra senão você vai voltar a filmar casamento. Tá ligado? Cara de morto! O moleque tem cara de quem vende quentinha! E falou que é câmera (risos)”.

Pelo risinho e pelo contexto, eu não acredito que o objetivo de Geraldo era ser cruel ou ameaçador. Faz parte da “brincadeira”, faz parte de ser um programa de telejornalismo “próximo ao cotidiano” (e próximo ao povo). O problema é que, neste exemplo, fica claro o poder do apresentador neste tipo de programa.

Sendo aquele que demite, que faz o câmera voltar para um emprego menos prestigioso (filmar casamentos), o apresentador se situa numa posição onde pode decidir sobre a vida de um funcionário, da mesma forma que decide se um suspeito é um “criminosos desumano” ou só um suspeito.

Essa humilhação foi uma tentativa que saiu pela culatra de manter o programa “no ordinário”. É muito provável que daqui uma semana ninguém se lembre disso e é provável que nas próximas tentativas, o apresentador se dê bem. No fim, ele ocupa uma posição e precisa agir conforme as demandas que lhe são passadas. Faz parte do “estilo” de apresentador que ele precisa encarnar, realizar este “ganchos” com o ordinário.

Geraldo Luís humilha, mas precisa humilhar

O que eu acredito a respeito deste acontecimento é que não se deve crucificar Geraldo Luís. Ou melhor, não se deve focar em Geraldo Luís, mas sim no tipo de programa que ele apresenta. Um programa que dissemina o medo, o terror, o alarmismo e etc e etc e que, ainda por cima, tenta se passar como algo do cotidiano (e consegue). Pra mim, o mais duro de se ver é que a humilhação, sendo positiva ou não para a imagem de Geraldo, ainda cumpriu sua função enquanto “gancho para o ordinário”, para o cotidiano.

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O modelo famoso de apresentador que também exerce a função de juiz

O programa é porco, não só Geraldo Luis. Ou melhor, Geraldo Luís é o apresentador fabricado pela situação atual do telejornalismo policial. A busca pelo sensacional, a constante cobertura sangrenta e alarmista de casos que são noticiados como “horrendos”, como o fundo da maldade humana, além da concorrência com Datena e Marcelo Rezende, dois já consagrados neste modelo de programa, força o Balanço Geral a tentar seguir os mesmo passos. Não se trata de imitação, mas de coação. Se faz assim por que assim tem que ser feito. Tudo se passa como se esse fosse o modelo legítimo, justamente por ser o modelo economicamente mais rentável.

O Balanço Geral já não disputa a mesma concorrência, pois está em outra faixa de horário, mas segue as mesmas estratégias para conquistas o público no horário de almoço. Ao invés de ver desgraça no SPTV, por exemplo, é melhor ir ver desgraça e rir um pouco no Balanço Geral. O Jornal Hoje, o SPTV, acabam se passando por programas formais demais e, portanto, menos dignos da descontração do almoço e da atenção do “povo”.

Massa X Elite?

Talvez seja possível relacionar esta tendência de considerar o “povo” mais disposto a ver sangue e rir com anões com a oposição Selvagem X Civilizado. O povo é selvagem, não tem os interesses culturais legítimos da elite (a pequena fração dominante de uma dada sociedade), não está disposto a controlar suas pulsões para ver um jornalismo cultural ou para assistir um programa sobre música clássica. O povo quer sangue, que ver bizarrices, eventos com comidas típicas e ladrões apanhando em público.

Talvez por isso que aquele vídeo do ladrão baleado enquanto roubava uma moto foi foco deste mesmo Balanço Geral num dado dia. Talvez, também, a polícia do pão e circo seja tão usada como argumento para tentar explicar a “manipulação das massas”. Mas não se tenta explicar que o programa atende às massas da mesma forma que a massa constitui o programa. O programa é de massa por que a massa vive o que o programa diz. Não digo que vive materialmente, mas vive em discurso, pelo menos. E todo discurso é uma prática.

3 Comments

  1. Gostei da sua abordagem. “(…) não se deve focar em Geraldo Luís, mas sim no tipo de programa que ele apresenta.”. Existe um público que consome, que se identifica, então, ‘eles’ dão aquilo que os espectadores ‘acreditam’, e o povo ‘acredita no que vê’, no que ‘eles’ informam e está tudo certo.

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