A “ilusão” que nos prende ao sistema capitalista

A ilusão é parte cotidiana da vida de cada um, é ela que define a vida. Mas se ela define a vida, ela é uma ilusão?

“O mercado é um funil por onde entram os aptos para o trabalho e onde ficam colocados uns poucos em boas vagas e os demais nas vagas menos favorecidas. Esta a regra fria do capitalismo. O que os olhos não veem o coração não sente. Não adianta se iludir com promessas nem com números de melhores salários e benefícios. A máquina do sistema extrai o máximo dos trabalhadores de maneira diferenciada, tabelada. A tabela mostra rendas e grupos escalonados em forma de pirâmide. Até os dias atuais, de lá a pirâmide não sai, de lá ninguém a tira.”

Assim José Carlos Peliano começa seu texto na Carta Capital.

Nada mais verdadeiro. A pirâmide não sai, a estrutura social condena. Mas a ilusão também está além dos números de melhores salários e benefícios. A ilusão é parte cotidiana da vida de cada um, é ela que define a vida. Mas se ela define a vida, ela é uma ilusão?

Em entrevista no Provocações, com o Abujamra, Vladimir Safatle disse que a felicidade é “uma das estratégias mais brutais de tentativa de imposição de um estilo de vida“. Mas se é um estilo de vida imposto, então é uma maneira de experimentar o mundo imposta, uma maneira de se servir dos símbolos do mundo imposta. Felicidade, aqui, é vista como estratégia – é uma maneira de se chegar a um objetivo dado, este objetivo não é somente o estilo de vida que ela traduz, mas é também o próprio macrocosmo que sustenta esse estilo de vida. A globalização tenta homogeneizar os desejos e as formas de consegui-lo: os estilos de vida e a estrutura material que permite a vida neste estilo.

A felicidade como parte dessa “ilusão”, não é um véu, mas sim um forma de constituir um sujeito dócil, adestrado, focado na reprodução inconsciente da ordem sócio-econômica. Então não há ilusão para ser provada, como que num movimento rápido e agressivo de mostrar a verdade. A verdade, então, é uma forma de movimentar o mesmo poder que a felicidade movimenta (não exatamente o mesmo, mas estratégias unificadas, afinal, viver pela felicidade parece ser a verdade da vida).

Segundo Peliano, a desigualdade é uma forma de manter o próprio sistema capitalista. Os excluídos “assim foram produzidos e colocados na tabela da desigualdade pelo sistema econômico capitalista. Este vive das diferenças de mercado, naturais ou por ele mesmo aproveitadas ou provocadas”. Ainda termina avisando que o capitalismo faz isso para sobreviver, para não entrar em crise, para não entrar em colapso.

Pode-se dizer que não é somente o capitalismo que produz distinções e desigualdades, já que as pessoas se organizam de maneira mais ou menos autônomas fora do controle do Estado, já que a própria cultura estabelece algumas categorias de virtuosidade e outras que não adquirem qualquer legitimação. Tudo gera distinção e algum tipo de desigualdade e todas as estruturas sociais são palcos de luta e de tentativa do dominante manter-se em sua posição, seja lá como for.

Não se trata de um sujeito iludido.
Não se trata de um sujeito iludido.

Rousseau, no Discurso Sobre a Origem da Desigualdade, revela que, provavelmente, a desigualdade que ele chama de moral começou quando, nas associações de humanos mais primitivas (termo dele), em volta das fogueiras, em horas de diversão, alguns começaram a dançar melhor que outros, alguns começaram a cantar melhor que outros, e a inveja tomou conta da alma humana. pode-se ler metaforicamente: qualquer distinção pode ser hierarquizada e colocada em um sistema de valores, onde alguns serão, nestes aspectos, privilegiados.

Isso significa que, se a desigualdade da maneira que vemos atualmente é a base do sistema atual, nada garante que qualquer outra tome forma e seja tão feroz quanto ela num próximo tipo de sociedade. Mas também significa que a ilusão sobre um sistema econômico rígido não é só uma ilusão, mas uma construção social. Essas pequenas desigualdades (e as grandes também) são inculcadas e normatizadas, de maneira que se mostram como a realidade. Como aquilo que não se duvida.

Não há, de certa forma, uma ilusão sobre a cabeça dos operário que se sentem bem trabalhando em uma empresa multinacional que lhes paga bem. Não se trata da ilusão do consumo que o salário possibilita, mas a construção de um sujeito que tem como pilar em sua vida, o consumo. Não é uma ilusão, não é um véu, então não há como “retirar” este véu. É necessário agir, portanto, sem contar com a “realidade”, com a “verdade”, mas tentar utilizar estratégias que consigam movimentar poder de maneira eficiente.