Lucas Gazinhato: o fantástico mórbido do ABC paulista

Lucas Silva Gazinhato é um jovem artista do ABC paulista. O surrealismo, cinema e música ambiente dão as caras em suas obras.

A cidade é o espaço cinza em que diversas pessoas nascem, crescem, arranjam um emprego e morrem, é o lugar onde pessoas comuns tocam suas vidas sem muita perspectiva de encontrar o extraordinário a cada esquina, mas Lucas Silva Gazinhato desenvolveu sua própria maneira de retratar esta experiência diária. O artista mauaense realiza suas pinturas de influência surrealista imerso neste clima urbano, porém o retratando com traços e cores que tocam o limite entre o cotidiano cru e a imaginação desenfreada.

Sem nome, feita com caneta esferográfica

A coragem para experimentar outras formas artísticas marcou seu início, “eu gosto de desenhar desde criança, apesar de nunca saber muito bem, sempre tive idéias interessantes. Costumava fazer ilustrações com caneta, com preferência pela cor preta”, diz o artista, “um dia peguei um pincel e as minhas tintas pra pinturas de escultura e comecei a fazer uns rabiscos”.

O uso de cores fracas e escuras de H.R. Giger, artista suíço filiado à escola surrealista e da arte fantástica – chegou a ganhar o Óscar de Melhores Efeitos Especiais em seu trabalho com o primeiro filme da saga Alien -, conquistou a atenção de Lucas, que o considera como maior influência no mundo das artes plásticas.

“Além de Giger, gosto muito de Salvador Dali, Otto Dix, Francisco de Goya“, revela o artista, que não se limita à esfera da pintura, “fora das artes visuais, tenho muita influencia do cinema, especialmente diretores como Andrei Tarkovsky, Stanley Kubrick, que se focam bastante em tomadas longas de ambientes, mostrando perspectivas totalmente profundas de objetos.  Lucas também se coloca em uma tarefa de traduzir as músicas que escuta em visões, “especialmente musica ambiente e estilos bem recheados sonoramente, como Shoegaze e dream pop”.

Caneta, de 2012. Feito com caneta esferográfica.

Talvez, suas obras possam ser caracterizadas como sombrias e pessimistas. Ao contrário da exigência mercadológica em expressar a felicidade em cada produto (no caso, concebendo a arte enquanto um produto cultural), as linhas e os preenchimentos de Lucas Gazinhato se escoram na experiência profunda da frustração e da impotência perante à vida. A crueza de suas pinturas representa o mundo da solidão, do fracasso, da falta de esperança, mas não são meros reflexos – ainda há vida na arte sombria.

Segundo o artista, “gosto de retratar coisas que são de uma perspectiva geral vistas como negativas, mas as quais tento colocar alguma mensagem, um tipo de coisa escondida, que no fim se revela por positividade”. Algo como uma luz para os olhos atentos, ou um sabor particular para um paladar mais demorado. Sobre sua preferência por temáticas mais escuras, “gosto de retratar essas sensações [frustração, impotência e etc], pois todos as sentimos em algum momento de nossas vidas e sei que [a pintura] irá fazer alguém se identificar, independente de quem for”.

lucas gazinhato a utilidade
A utilidade (2014)
lucas gazinhato a inutilidade
A inutilidade (2014)

A escolha de materiais também contribui para seu objetivo, “Uso folha de sulfite e tinta artesanal, a qual gosto de diluir em água tingida com um pouco de tinta preta antes, para causar um sensação de sujeira”. O sujo, a desordem, o caos, a insuficiência, todos os objetos que fogem da normalidade, do higienismo social, da fantasia do mundo perfeito e da convivência perfeita, são exaltados em obras que têm sua força na representação daquilo que está oculto, que não é fotografado pelas lentes do mundo ideal que todos carregamos em nossa vida. A dupla “A utilidade” e “A inutilidade” mostram um pouco disso.

Em “A utilidade”, Gazinhato retrata um mundo que toma o papel de sujeito. Um mundo que é por si só ativo e que, de uma maneira completamente oposta ao esperado, faz da espécie humana o objeto passivo de transformações e manipulação, uma fantasia em que “o mundo achara um jeito de nos tornar útil de alguma forma para ele mesmo e às outras espécies”. Já “A inutilidade” tem como tema central o sentimento de superioridade – um sentimento experimentado individualmente e que, quando visto sob outras perspectivas (retratadas por uma espécie de alienígena, na pintura), não significa nada.

Fazer arte é fazer de si um alguém melhor, segundo Lucas. A arte, então, não é somente um objeto que causa identificação e se liga ao espectador, mas também é um produto da vida do artista, que não somente se expressa, mas descarrega sua impressão do mundo para a tela. Para o artista, ao fazer arte “colocamos uma parte nossa no trabalho, uma parte boa ou ruim, que é substituída e preenchida por algo bem melhor”. A arte recicla a alma.

Suas obras podem ser vistas em sua fanpage, onde as publica com regularidade. Abaixo mais um pouco de Lucas Gazinhato.

lucas gazinhato entre prostitutas, drogados
Entre prostitutas, drogados e amigos de fim de semana. (2013)
lucas gazinhato sem nome
Sem nome (2013)
lucas gazinhato experimento
Experimento com tinta (2013)
Corvinho (2014)
lucas gazinhato um hora de tanto se fechar
Uma hora, de tanto se fechar… essa vai ser a unica diversão na vida. (2014) (Modelo da foto : “A Most Peculiar Man” de Simon & Garfunkel).
lucas gazinhato tekeli-li
“Tekeli-Li! Tekeli-Li!” (Inspirado em “Nas montanhas da loucura” de H. P. Lovecraft) (2014)
lucas gazinhato obra soturna
Sem nome (2014)
lucas gazinhato pensamentos
Pensamentos fervem e não existe ninguém lá para desligar o fogão… (2014)
lucas gazinhato pós-modernidade
Sem nome (2014)
lucas gazinhato assistindo
Assistindo os outros se molharem enquanto eu continuo observando, sujo. (2014)
lucas gazinhato poças d'água
Já percebeu como as poças d’água das ruas refletem nossa alegria? (2014)
lucas gazinhato lodo e ferrugem
Lodo e ferrugem (2014)
lucas gazinhato arte do abc
Sem nome (2014)

 

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