#somostodosmacacos é o protesto pra gringo ver

#somostodosmacacos é o protesto que todo gringo deveria ver. Pelo menos este deve ser o pensamento das elites brasileiras, que adoraram a forma mais inofensiva que uma manifestação pode tomar.

No último domingo (27), Daniel Alves (lateral-direito do Barcelona) comeu uma banana que fora jogada no campo por torcedores. A atitude racista valeu o banimento do responsável pelo resto de sua vida das arquibancadas do Villarreal, no entanto, a atenção da mídia se voltou para a campanha publicitária protagonizada por Neymar após a reação do amigo. #somostodosmacacos foi a forma de “protesto” que se tornou viral com diversas adesões de famosos tirando fotos com bananas para se posicionarem contra o racismo.

Campanha publicitária 

Depois que o grande baque da reação de Daniel Alves passou e Neymar lançou a hashtag #somostodosmacacos como protesto, uma novidade apareceu: Luciano Huck começou a comercializar camisas da campanha em seu site e o sócio da agência de publicidade Loducca, responsável pela criação da campanha, deu uma entrevista à Veja, explicando que tudo era parte de uma estratégia de marketing.

#somostodosmacacos luciano huck
Imagem: Diário do centro do mundo

Neymar fora vítima de racismo alguns jogos antes e decidiu se posicionar contra o racismo. Segundo Guga Ketzer, “Há duas semanas, Neymar e seu pai me procuraram para dizer que precisavam se posicionar em relação às manifestações racistas. Queriam resolver isso de uma forma que colocasse a mensagem do Neymar de maneira forte. E decidimos trabalhar a ideia de que a melhor maneira de acabar com o preconceito é tirar a força dele e fazer com que a pessoa não repita o ato. É como um apelido. Quanto mais bravo você fica, mais ele pega. Foi aí que criamos #somostodosmacacos. A ideia era começar com o Neymar comendo a banana e isso se tornar um movimento”.

Se uma conclusão fácil pode ser tirada deste acontecimento é que Guy Debord estava certo. De repente, o espetáculo se mostrou mais uma vez como onipresente. Mas por quê? Qual o problema? É uma campanha publicitária que combate o racismo, não? Ainda nas palavras de Ketzer, “Tentar desmerecer o movimento pelo fato de ter uma agência por trás é tão preconceituoso quanto o torcedor que joga a banana. Por que não pode haver ajuda profissional? Por que não podemos ajudar com uma ideia? Não é uma campanha para vender nada. Fizemos conforme a necessidade do Neymar de mostrar que o racismo é uma situação completamente absurda. E deu certo”.

Então, a “ajuda profissional” seria somente uma ajuda. Nada demais.

#somostodosmacacos e o protesto em comer a banana

A primeiro momento, pode-se ficar tentado a estabelecer um paralelo entre “comer a banana” e a prática da apropriação. A apropriação é algo simples e eficiente, se trata de um grupo se apropriar de um dado produto cultural, de uma dada palavra, de um conceito ou de um ritual e adaptá-lo a sua própria microrrealidade. Ou seja, se trata de tomar para si – por exemplo – uma palavra que funcionava como xingamento, como agressão, e esvaziar seu significado até que ela fique inofensiva, depois ressignificá-la de maneira que sua função prática também seja refeita.

Existem exemplos palpáveis na história: a palavra gay e vadia são as duas mais populares, uma por já não ter o estigma anti-gay que carregava e a outra por estar em processo de modificação, em que o termo apropriado começa a ser reproduzido com seu novo significado e começa a mediar novas relações.

Desta forma, comer a banana seria uma forma de apropriação. Somos todos macacos = somos todas vadias. Entretanto, receio que vale a pena olhar de um jeitinho demorado para a questão. As palavras apropriadas costumam ter seu conteúdo preenchido com noções morais. O gay e a vadia são/eram estereótipos para a repressão de um certo tipo de pessoa que não podia se expressar, por que não era do tipo “normal”. Gay e vadias são “anormais sexuais”. Eles quebram as regras da sexualidade que todos estamos sujeitos e por isso merecem a exclusão.

#somostodosmacacos charge latuff
Imagem: Latuff, 2014

A apropriação, quando feita em termos e conceitos morais, impulsiona uma modificação/destruição da moral antiga. Isso significa que ao se apropriar do termo “vadia” ou “gay”, não se está somente modificando uma palavra, mas modificando todos os termos que se relacionam com ela. Modificando até mesmo a sua localização nos espaços sociais, ou seja, dando lugar para a existência do gay (ou do homossexual) e da vadia (ou da mulher que deseja). A apropriação do termo macaco não dá espaço para a existência do “macaco” (ou do negro), pois o termo não tem significação moral particular, não é uma repressão a um tipo de pessoa que quebra alguma regra.

Macaco é uma estigmatização que se refere a falta de civilidade. Se bolarmos pares de oposição pra tentar simbolizar, ficaria mais ou menos assim:

Humano X Macaco
Branco X Negro
Civilizado X Selvagem

O que estes pares de oposição justapostos querem dizer? Eles querem dizer que a lógica da significação pode ser reduzida até o ponto em que Humano é o Branco, que é o sujeito civilizado, já o Macaco é o negro, o sujeito selvagem. O Macaco é aquele que não atingiu o nível de desenvolvimento civilizatório que o Humano já alcançou. Não é uma questão darwiniana, é uma questão cultural-civilizatória. Dizer que “somos todos macacos” é como chorar pelo mendigo enquanto se está dentro do carro. É o tapinha nas costas que o patrão dá ao seus empregados.

É como quando Nietzsche, na Genealogia da Moral, ao tentar explicar o nascimento dos termos “bom” e “mau”, retrata a fala de uma ave de rapina, “nós nada temos contra essas boas ovelhas, pelo contrário, nós as amamos: nada mais delicioso do que uma tenra ovelhinha”.

Nós somos todos macacos, mas o auxiliar de limpeza ainda é negro. Nós somos todos macacos, mas a cozinheira ainda é negra.

Comer a banana, então, em uma campanha organizada, fazendo deste ato algo institucionalizado, é como retirar a possibilidade de luta contra o racismo. Não se esvazia seu significado moral e se constrói uma possibilidade de inclusão do termo na sociedade como algo “normal”, pelo contrário, se esvazia a luta contra o racismo. Quando o termo “macaco” é banalizado, a luta é esvaziada e o conflito é evitado.

Sempre que algo nos é apresentado, antes mesmo de checar sua lógica interna, devemos nos perguntar, “a quem esta coisa serve? Quais relações de poder esta coisa fortalece?”. #somostodosmacacos parece servir à manutenção da exploração econômica, da invisibilidade política e da desigualdade social para com negros.

Daniel Alves comendo a banana

Não retiremos o mérito de Daniel Alves. A sua reação foi uma boa sacada para o momento. Não deve-se ficar preso à espontaneidade ou não o ato (segundo o próprio Ketzer, Daniel Alves não estava na campanha e não tinha nem noção do que estava programado). Isso não importa, o que importa é como o ato aconteceu e o que ele causou no momento do acontecimento.

Daniel Alves viu a banana que foi jogada por um torcedor racista, a pegou do chão, deu uma mordida e continuou o jogo. Este ato foi muito agressivo, foi a ridicularização do racismo de um jeito eficiente e perspicaz. O que faz com que a campanha seja tão nociva é a institucionalização do ato.

O ato teve seu significado violento naquele contexto específico, mas sua institucionalização prevê uma adequação ao discurso da tolerância vigente: tudo se passa como se os problemas estruturais fossem problemas de tolerância (ou meramente problemas culturais/de comunicação/morais), como se não tivessem raízes em problemas estruturais, como a exploração econômica, a invisibilidade política e a desigualdade social, todos já citados.

Mas e a campanha, não é válida?

Segundo o sócio da Loducca, a campanha não pretende vender nada. Isso é mentira, já que Luciano Huck começou a vender suas camisas de 69 reais contra o racismo (será que ele parou pra pensar se quem compra camisa de 69 reais é negro ou branco?), mas há algo além do econômico. O que deve ser visto é o ganho de capital simbólico de Neymar – a campanha não foi feita pra vender algo, foi feita pra valorizar algo. Ela foi feita pra valorizar o Neymar, ou melhor, pra valorizar sua imagem.

Foto: Folha

Cada passo de Neymar é patrocinado por uma empresa diferente. Seu ganha-pão não é só o futebol, mas é, também, todo trabalho que ele realiza com sua imagem. A campanha valoriza mais ainda sua imagem e o coloca no rol de pessoas preocupadas com o preconceito racial, de celebridade com responsabilidade social, entretanto, este mesmo Neymar havia dito anos antes que nunca sofreu racismo, pois não é preto.

Ninguém é obrigado a carregar o estigma que lhe dão, mas é necessário observar que a ação publicitária, além de ter um efeito nocivo à luta de grupos negros, valoriza a imagem do jogador em tempos de puro espetáculo difuso na sociedade. A campanha tem um interesse claro e usa um caminho simples: queremos valorizar a imagem de Neymar e evitamos qualquer forma confronto para isso, já que o confronto – neste caso – não é bom para a propaganda.

Protesto para gringo ver

Passamos por ondas de protestos nas ruas. A grande mídia, ao mesmo tempo que reproduz manifestações de países europeus e dão a elas o nome de “manifestações” feitas por “manifestantes”, no Brasil chamam de “protestos violentos” feitos por “vândalos”. Não é bom para a imagem do país ter gente saindo às ruas e queimando a bandeira nacional.

Mas imagine um protesto “do bem”, em que ninguém sai ferido e em que a polícia não é utilizada para conter a massa. Imagem um protesto que pode ser feito por completo sem nem sair de casa. Os pares de oposição colocados mais acima poderão ajudar:

Humano X Macaco
Branco X Negro
Civilizado X Selvagem
Pacífico X Violento

Agora vamos analisar o foco da grande mídia aos protestos. Tirando o próprio Neymar e a cantora Gabi Amarantos, quem está na frente do #somostodosmacacos? Xuxa, Luciano Huck, Angélica, Ivete Sangalo e etc. Agora, pras coisas ficarem ainda mais claras, na imagem promocional das camisas vendidas por Huck, quem está sendo apresentado? Um casal de brancos. Quem é o europeu que vai vir para o Brasil assistir a copa? O branco com dinheiro.

Os protestos atuais nas ruas são escondidos e incriminados, são protestos de selvagens, são protestos violentos, não representam o Brasil pacífico e civilizado que protesta legitimamente tirando fotos com bananas no instagram. Aliás, quantos negros estão no comercial da copa? Vamos ver aqui embaixo.

3 Comments

  1. Cada vez mais, pelo menos por essas bandas, movimentos que a priori seriam válidos, se misturam com efemérides, e daqui a um mês ninguém nem vai mais lembrar dessa mobilização (que, aposto, teve muito artista postando foto com banana só pra aparecer nas páginas da Caras).

Deixe uma resposta