#vaitercopa X #nãovaitercopa

Antes de tudo, esses slogans são uma guerra de símbolos/signos: ambos não têm apelo objetivo nenhum e fazem referência apenas a questão da realização ou não da copa.

Faltando menos de dois meses para o megaevento da FIFA aqui no Brasil, achei necessário fazer uma avaliação desses movimentos que vem permeando a rede e a sociedade. Antes de tudo, esse texto trata-se de uma análise do que significa essa polarização que se cristalizou em meados do ano passado, não há objetivo de deslegitimar os movimentos sociais que têm protestado contra as arbitrariedades dos governos federais, estaduais e municipais e da FIFA, que vem ocorrendo de maneira alarmante pelas cidades-sede e cidades que hospedarão as seleções que participarão da Copa.

Antes de tudo, esses slogans são uma guerra de símbolos/signos: ambos não têm apelo objetivo nenhum e fazem referência apenas a questão da realização ou não da copa. Ao lado do #vaitercopa estão os governistas paranoicos que acham que qualquer movimentação contra o megaevento trata-se de uma tramoia muito bem arquitetada pela direita maldosa e golpista; ao lado do #nãovaitercopa a situação fica mais complicada: o movimento é bem mais heterogêneo, dentro dele há setores da esquerda mais radical que estão junto da parcela da população que foi cruelmente atingida pelas remoções arbitrárias e repressivas em razão das obras para o evento, há também uma galera despolitizada que toda hora fica repetindo o mantra “não queremos estádios, queremos hospitais”, há também setores da direita que só querem ver o circo pegar fogo para, no momento certo, encampar todo o movimento e tentar derrubar nas urnas o atual governo.

Foto: Autogestão.org

Eu, como petista (não, não sou governista, sou petista o que é muito diferente), vou me dedicar primeiro a criticar o movimento por trás do slogan #vaitercopa. Além de ser um slogan autoritário e impositor, não há nada que ele represente além do fato de que quem o defende acha que vai ter copa sim e que esta é uma coisa muito positiva para nação. Ledo engano: há inúmeros pontos negativos inerentes ao fato da Copa ocorrer aqui no Brasil, e não é preciso ser um grande pensador da esquerda para se dar conta disso.

O que é a FIFA além de uma grande multinacional, uma empresa privada, assim como a Pepsico, Coca e Volks são? O fato deste megaevento ocorrer aqui nada mais é do que um movimento de expansão do capital internacional para os BRICS , muito análogo à instalação das montadoras multinacionais aqui no Brasil na época de JK. Não por acaso a última Copa ocorreu na África do Sul, não por acaso a próxima será na  Rússia e a de 2022 no Catar, todos estes são países, com exceção do ultimo, dos BRICS.

Como qualquer movimento de expansão do capital, o fenômeno da “modernização conservadora” ocorre: gera-se empregos, mas são precarizados (houve mortes de operários em várias construções de obras da copa: de estádios até aeroportos); há desapropriações de famílias pobres de áreas periféricas e esses despejos sempre ocorrem de forma violenta e autoritária. Devido a essa truculência, setores da sociedade obviamente se organizam e se mobilizam para protestar contra esse processo, porém acabam sendo cruelmente reprimidos pelas forças policiais. Há sim alguma distribuição de renda e certa dinamização do mercado interno, embora o que mais ocorra seja a exploração do trabalho, acumulação de capital e uma relevante perda da soberania nacional no que tange todos os assuntos cujos interesses da FIFA estão em jogo. Portanto, companheiros petistas governista e partidários do PCdoB, por favor, peço com todo meu amor e carinho: parem com essa bobagem de ficar recortando apenas os supostos pontos positivos que esse evento trouxe para economia nacional, não ajuda em nada e só piora essa polarização que está acontecendo principalmente dentro da esquerda.

Delineada a questão do #vaitercopa, agora discuto o seu oposto: o #nãovaitercopa. A primeira coisa que eu penso quando leio esse slogan, e podem apostar que não sou só eu, é: o que ele está propondo de concreto? Seu objetivo é de fato minar o evento aqui no Brasil? Ou ele representa algo mais objetivo? Não precisa pesquisar muito que logo se entende que o movimento como um todo representa principalmente a população diretamente afetada pelas obras da copa: famílias que sofreram despejos arbitrários e repressivos sem qualquer assistência social por parte do poder publico, ou comunidades inteiras que foram “pacificadas” pelo “braço forte” da policia militar e do exercito brasileiro. Não é preciso dizer que toda a reação por parte desses setores da sociedade é mais que legitima: é necessária, imperativa para que exista de fato algum processo democrático dentro desse país que convive com a democracia há menos de 40 anos.

A minha critica não é ao movimento, mas ao slogan escolhido e a forma como alguns setores desse movimento tem se manifestado. Ao invés de usar a Copa como um chamariz político para as causas concretas envolvidas nessas manifestações, usa-se apenas o fato da Copa ocorrer como o grande e único problema do país hoje. Parece que é esquecido que a Copa nada mais é, como já dito aqui, além de uma expansão do capital internacional sobre o Brasil, que, por sua condição de existência, trará inúmeros problemas sociais, pois estes são inerentes ao processo de inserção desse capital aqui no país.

Quando surge algum protesto contra a copa, raramente este estabelece alguma pauta concreta; com exceção dos Garis que usaram com maestria a questão da copa para agregar na luta deles, o MTST na cidade de São Paulo segue a mesma linha. Agora de nada adianta sair a rua e ficar gritando “não vai ter copa”, pedindo por educação e saúde e queimando álbuns de figurinhas: cadê a proposta concreta de mudança? O que vai ser pedido? O fim das remoções? O fim da repressão? É importantíssimo tomar a rua, mas sem uma pauta objetiva e concreta, o movimento fica sujeito de ser cooptado por setores que se interessariam em criar uma crise politica e institucional para satisfazer seus próprios interesses, mais ou menos como setores da direita ano passado fizeram nas jornadas de junho/julho, ou como Getúlio fez ao cooptar o movimento operário na década de 30.

Foto: IG

Sair berrando palavras de ordem sem qualquer pauta concreta e objetiva é a mesma coisa que sair na rua com uma vassoura na mão, com um nariz de palhaço gritando contra a corrupção: é pedir para um setor conservador se apropriar desse discurso.

O problema são as remoções? Lógico que são! Então que se grite “com remoções, não vai ter copa”. O problema é o direito a cidade? Sim, também! Então saiamos todos a rua exigindo o passe livre! O problema é a precarização do trabalho? Então vamos sair pautando pela promulgação da lei que garanta 40 horas semanais para todos os trabalhadores, sem exceção! O problema é a falta de representatividade? Sempre foi! Desde a promulgação da Constituição de 88!! Então vamos todos sair as ruas exigindo uma reforma politica que contemple todos os setores da sociedade, que privilegie o cidadão e não o poder econômico! O problema é a repressão? Todos sabemos que é: vamos então sair pela desmilitarização da polícia! Agora, não adiantar ficar apenas gritando “não vai ter copa”.

Espero que eu tenha sido claro. Mais uma vez, meu objetivo aqui não é deslegitimar os movimentos que estão contra as implicações sociais da realização deste megaevento, o que fiz foi um apontamento que acho de extrema importância para que, durante a Copa, saiamos para rua com pautas concretas e propostas objetivas para não sermos cooptados por ninguém e consigamos ser ouvidos pelo poder publico e, se for o caso do poder publico não nos ouvir mesmo que tenhamos sido objetivos em nossas propostas, então é mais do que justo dizer que vai ter luta sim!