Indústria do livro reforça sexismo com categorias “femininas”

Como o machismo se expressa na indústria livreira? Como ele se dá nas próprias livrarias? Uma prova desta característica é o nascimento da categoria de livros "para mulheres".

Artigo de Alisson Flood, do jornal The Guardian. Traduzido por Vinicius Siqueira.

Este é o ano de lermos livros escritos por autoras mulheres, lembram? Nós todos estamos lendo autoras mulheres e ajudando a balancear a desigualdade de gênero dentro do mercado literário, que é mostrado todo ano pela VIDA. Então tudo está ok, certo? Nós estamos lentamente balanceando o mundo, livro por livro, e é esta a maneira que lidamos com nossa pilha de Mantels, Atwoods e Cattons.

Infelizmente, não. A extraordinária Joanne Harris (você chegou a ler sua última publicação, “The Gospel of Loki? Você deveria, é excelente) explicou em detalhes o por quê de uma crescida no número de mulheres no mundo literário não ser uma realidade, com algo que ela chama de “outro pressuposto preguiçoso” vindo de um leitor após este dizer que seu romance sobre Loki estaria “capitalizando os fãs de Tom Hiddleston“.

Joanne Harris
Joanne Harris. Foto: Guardian

A despeito do fato de que Harris escreveu sobre Loki antes mesmo do filme da Marvel estrelando Hiddleston vir à cena, ela acredita que o comentário é a ponta do iceberg. “Um grande iceberg de sexismo com que toda a indústria do livro, furtivamente perpetua a crença de que nenhuma mulher pode escrever algo de real sucesso sem ter feito algum tipo de cópia, se utilizando ou capitalizando a popularidade de um homem”.

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“Imagine alguém acusando Salman Rushdle de ‘capitalizar’ os contos populares do Oriente Médio. Imagine alguém acusando Neil Gaiman de ‘capitalizar’ a popularidade: mitos nórdicos, Doutor Who, Claire Dane, Milk. Imagine alguém acusando Lee Child de ‘capitalizar’ a popularidade de Tom Cruise”, escreve a autora, depois de detalhar os vários pressupostos que vêm sendo feitos sobre ela durante toda sua carreira.

A situação não melhora com as ações do editor da TLS Peter Stothard ou de VS Naipaul, Harris disse. “‘Ficção feminina’ ainda é considerado uma sub-categoria”.

Eu sabia que assim estava – ou está – no Wikipedia. Havia uma controvérsia sobre isso no último ano. Mas a Amazon? Sério? Eu chequei isso: ela estava certa. Há uma categoria para “Ficção e escritoras mulheres” – com Rachel Joyce, Charlotte Mendelson, Maeve Binchy, Kate Morton e Virgínia Woolf – e “Ficção popular feminina“. Eu fiquei estuporada e me perguntei como esses títulos foram parar nestas categorias. A mistura de livros é tão grande quanto o tamanho de categorias que ela comporta, unidas unicamente pelo gênero de suas autoras. Mas o fato é que a categoria está lá e não há nada parecido como um “Ficção e escritores homens”. Para homens, a categoria é simplesmente “ficção”, eu acredito.

O site Goodreads, entretanto, tem uma grande lista de categorias (como “magos” e “ficção do homem-aranha”). Mesmo assim “Mulheres” e “Ficção de mulheres” ainda estão lá, mas nenhum equivalente para homens foi rotulado.

Eu pedi para a Amazon explicar o uso das categorias, mas nada foi respondido. Eu também perguntei para Harris, por que ela pensa que isto é um problema e ela me respondeu que: “Isto é um problema porque efetivamente os livros demarcados por gênero excluem uma certa parcela de leitores de uma área que eles não precisam ser excluídos… “Mulheres” não é uma sub-categoria… Quando você diz literatura, me parece que já há uma implicação de que é/foi escrita por uma homem. Isto é absurdo e grotesco, mas está em todos os lugares, é geral e representa uma grande parte do preconceito às mulheres”.

Se há literatura de mulheres, por que não há literatura de homens? “Por que ficção precisa ser enquadrada em gêneros?… Quão boa uma escritora precisa ser antes de conseguir ser referida como uma escritora?”.

Foto: Cena Social
Foto: Cena Social

Talvez há algo que ainda fique pairando no ar, porque Harris não é a única autora a observar este problema. Randy Susan Meyers escreveu no início da semana para o Huffington Post sobre como “você precisa escolher uma categoria de uma lista enorme de possibilidades que incluem dez subgêneros de ficção feminina e nenhum chamado ‘ficção masculina’, caso queira publicar algo no site da Amazon”.

É claramente uma decisão de marketing, eu acredito, mas eu perguntei a Cathy Rentzenbrink, a editora associada da Bookseller, se ela poderia explicar. “Como uma feminista e leitora, eu entendo completamente me sinto frustrada, entretanto, eu também sei que existe uma montanha de pessoas que querem guias para o tipo de livros que elas irão gostar e é isso que editores e varejistas estão tentando fazer”, ela me disse. “Até mesmo o termo ‘chick lit’ (literatura de mulherzinha) é útil para um leitor que queira este tipo de livro. É como o debate de gênero. Eu sempre gosto de protestos dizendo que ‘não deveria haver nenhum gênero, deveria haver somente livros’. mas aquelas de nós que sabem como o mercado literário funciona, entendem que uma grande loja sem nenhuma categorização, com classificação parecida com ‘livros de A – Z’, seria terrível de se explorar”.

Isto é verdade, mas nós precisamos prestar atenção no que Meyers disse: “Homens são a norma, mulheres são sub-categoria”. Meyers aponta que “nós não precisamos de ‘policial homem’ e ‘policial mulher’, todos são policiais. Então o que fazemos sobre estes autores que gostamos? Nós não precisamos chamá-los de ‘escritores homens’ e ‘escritores mulheres’, nós os chamamos de ‘escritores’. Assim como, podemos chamar os romances que eles escrevem unicamente como ‘romances'”.

Harris, porém, sabe claramente que isto ainda é uma discussão “que precisa ser feita, e muito mais amplamente do que a forma como é feita atualmente”. Como ela colocou em seu blog: “Não deixe esta discussão ir embora”, e “a popularização do sexismo na indústria de livros continuará a ser aplicada, no Goodreads, no Twitter, em lojas de livros e em blogs”.

Porque “‘Ficção de mulheres’ não é um gênero”.

2 Comments

  1. É óbvio que existe literatura masculina, assim como feminina, gay, infantil, infanto juvenil e por aí vai, e não é difícil de encontrar, basta saber a orientação sexual do autor, suas motivações, seu interesses, poucos são os que conseguem sair da sua zona de conforto e fazer algo mais abrangente, rico em diversidade de pensamentos e personalidades. Minha escritora favorita é a Anne Rice e o escritor é o Neil Gaiman, porque conseguem sair de sua zonas de conforto, mas não dá para negar que o J.R.R. Martin, pelo menos nas “Cronicas de Gelo e Fogo” tem uma visão bem masculina, assim como a Angela Carter no “Quarto do Barba Azul” bem feminista.

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