Poder desterritorializado, ou como não podemos criar nossas próprias regras

O poder desterritorializado é aquele poder estranho às ditas "comunidades locais", que só podem obedecer em uma relação de hierarquia piramidal. Ele vem de cima, é executado por sujeitos que, no fim das contas, nada têm de controle sobre ele, são tão sujeitos ao seu jugo quanto a população local que deve obedecer.

Zygmunt Bauman
Zygmunt Bauman

O poder desterritorializado é aquele poder estranho às ditas “comunidades locais”, que só podem o obedecer em uma relação de hierarquia piramidal. Ele vem de cima, é executado por sujeitos que, no fim das contas, nada têm de controle sobre ele, são tão sujeitos ao seu jugo quanto a população local que deve obedecer. Se trata de um poder sem fixidez, não está na mão do Estado, nem na mão de alguns líderes, mas está sendo executado em qualquer lugar pelas elites móveis da sociedade líquida.

Perto e longe

A distância é um produto social, assinala Bauman em “Globalização“, ela é dependente da velocidade com que os sujeitos podem se mover (e com que a informação pode se mover) e “Todos os outros fatores socialmente produzidos de constituição, separação e manutenção de identidades coletivas — como fronteiras estatais ou barreiras culturais — parecem, em retrospectiva, meros efeitos secundários dessa velocidade”. Sendo assim, perto e longe sempre serão termos descolados da objetividade que a distância (calculada fisicamente) parece lhes dar.

Segundo o autor, “Parece ser essa a razão — assinalemos — pela qual a ‘realidade das fronteiras’ foi como regra, no geral, um fenômeno estratificado de classe: no passado como hoje, as elites dos ricos e poderosos eram sempre de inclinação mais cosmopolita que o resto da população das terras que habitavam; em todas as épocas elas tenderam a criar uma cultura própria que desprezava as mesmas fronteiras que confinavam as classes inferiores; tinham mais em comum com as elites além fronteiras do que com o resto da população do seu território”.

Portanto, a distância existe na oposição Perto X Longe, em que o termo “longe” significa “estar com problemas — o que exige esperteza, astúcia, manha ou coragem, o aprendizado de regras estranhas que se podem dispensar alhures e o seu domínio sob desafios arriscados e cometendo erros que muitas vezes custam caro”, já “perto”, “representa o que não é problemático; hábitos adquiridos sem sofrimento darão conta do recado e, uma vez que são hábitos, parecem não pesar, não exigir qualquer esforço, não dar margem à ansiosa hesitação”.

Em outras palavras:

  • “Longe” é aquilo que exige um esforço para ser compreendido ou para se escapar dos problemas devido ao desconhecimento deste território distante, longe é um brasileiro comum no meio do interior da Arábia Saudíta – este brasileiro estará longe, não só pelo desconhecimento, mas também pela dificuldade em conseguir vencer a distância física, já que o brasileiro médio não pode gastar seu dinheiro em viagens para a Arábia Saudita;
  • “Perto” é aquilo que nós sabemos lidar sem nenhum esforço. É estar em casa, um lugar em que as regras já são dominadas inconscientemente. Perto é conseguir viajar de avião sem se preocupar com as passagens. O mundo globalizado faz Pequim, São Paulo e Nova York serem lugares pertíssimos para as elites móveis.

O desaparecimento da comunidade

Se observarmos a história da civilização ocidental, perceberemos que ela foi marcada drasticamente pelo desenvolvimento dos meios de transporte. As revoluções que transformavam a estrutura econômica, a moral, a ciência e todas as esferas da ação humana precisavam chegar ao territórios que ainda não sabiam de sua existência. Só assim ela podia se estabelecer. Portanto, mais do que os meios de transportes de materiais, a informação era também transportada e foi esse o ponto crucial para o desmoronamento das explicações “universais” mantidas em territórios locais, por sua cultura singular.

Aquilo que era dito se separou de quem falava e também não precisava ter muita relação com o objeto de seu discurso. Podia ser levado para qualquer lugar por qualquer um.

A comunidade perde sua característica exatamente neste ponto: as relações íntimas, as normas sempre atualizadas pela voz, num domínio ligado direto às autoridades/líderes que as prescrevem/informam, são as bases de uma comunidade. A comunidade é o local da conversa diária, da reafirmação dos valores cotidianamente, do espaço público feito para a decisão coletiva. No entanto, a preservação da comunidade depende da reprodução de sua ordem infinitamente (mesmo que ela seja constantemente transformada), ou seja, é necessário estar longe das outras comunidades ou olhá-las com olhos de desprezo.

Era isso que acontecia, já que a velocidade, antes da modernidade, não conseguia vencer a distância entre as localidades. Tudo era defasado quando a informação parecia chegar aos outros locais. As próprias regras internas se defasavam, pois dependiam daquilo que Zygmunt Bauman chama de “Wetwares” (os recursos humanos de armazenamento e recepção de informação: visão, audição e memória), por isso precisavam de constante atualização e reprodução.

Globalização: As Consequências Humanas
Livro Globalização: As Consequências Humanas

A destruição das comunidades aumenta com a constante invasão do ideal “global”, ou seja, com a constante invasão dos meios de comunicação baratos e banais, que promovem um turbilhão de informações que se contradizem, que se cancelam e que propiciam uma experiência impossível na comunidade. O “longe” e o “perto” entram em parafuso e é cada vez mais comum estar perto de um lugar, mesmo há milhares de quilômetros, e longe de alguém, mesmo estando na casa ao lado.

A comunidade deixa de ser autodeterminada e passa a obedecer ao poder territorializado no Estado-nação, ou seja, o poder deixa de ser local para ser nacional. “Planejado, o espaço moderno tinha que ser rígido, sólido, permanente e inegociável”, explica Bauman.

Porém, um novo espaço se pôs sobre o planejado território da modernidade, “sobre esse espaço planejado, territorial-urbanístico-arquitetônico, impôs-se um terceiro espaço cibernético do mundo humano com o advento da rede mundial de informática. Elementos desse espaço, de acordo com Paul Virilio, são ‘desprovidos de dimensões espaciais, mas inscritos na temporalidade singular de uma difusão instantânea. Doravante, as pessoas não podem ser separadas por obstáculos físicos ou distâncias temporais. Com a interface dos terminais de computadores e monitores de vídeo, as distinções entre aqui e lá não significam
mais nada'”.

Mas o autor não vê nesta frase de Virilio uma aplicação universal, já que a “‘interface dos terminais de computadores’ teve impacto variado nas situações angustiosas de diferentes tipos de pessoas. E algumas — na verdade, um bocado delas — ainda podem, como antes, ser “separadas por obstáculos físicos e distâncias temporais”, separação que agora é mais impiedosa e tem efeitos psicológicos mais profundos do que nunca”.

Extraterritorialização do poder

Apesar de libertar alguns indivíduos das amarras do espaço territorial (dando-lhes, velocidade e tempo para viver como quiserem viver – e aqui estamos falando das elites globais), alguns outros indivíduos acabam ficando presos em locais regidos por regras que nem mesmo decidiram, que lhe são impostas piramidalmente e que, portanto, eles devem se sujeitar, mesmo que elas não façam o menor sentido em suas vidas ou na comunidade onde vivem.

E aqueles que não conseguem se adaptar às novas regras, aos novos significados globais geradores de comunidade? Eles são excluídos.

“É a experiência da não-terrestrialidade do poder vivida por essa nova elite — a combinação extraordinária e assustadora do etéreo com a onipotência, do não físico com um poder conformador da realidade — que está sendo registrada no elogio comum da “nova liberdade” corporificada no “ciberespaço” eletronicamente sustentado”, explica Bauman. O autor deixa claro que a possibilidade de exercer poder está longe da realidade de ser “poderoso”, ou seja, “os corpos dos poderosos não precisam ser corpos poderosos nem precisam se armar de pesadas armas materiais”.

Os poderosos também precisam do isolamento que experimentam no ciberespaço. Dentro da cidade, local de interação contínua entre pessoas, são os poderosos que colocam ferros pontiagudos em frente aos seus prédios para que mendigos não se deitem, que criam entradas impossíveis de se entrar fora de um carro ou fazem do contorno de seus pontos não-fixos de moradia, lugares altamente vigiados pelas tecnologias mais avançadas no mercado.

O isolamento não é só parte da estratégia para afastar aqueles que não importam. Não é só uma maneira de deixar os vagabundos longe da vista e evitar o confronto com a realidade ameaçadora daqueles que não podem exercer poder tão eficientemente, ou seja, daqueles que estão à margem da sociedade. O isolamento permite que o poder seja exercido sem a necessidade de se saber quem o exerce ou como é exercido – e sem a possibilidade de ser barrado.

O desenvolvimento de espaços de isolamento acontece junto ao desaparecimento dos espaços de diálogo público, os espaços de discussão são banidos das comunidades, que devem obedecer diretamente a ordem que é promulgada por um agente externo anônimo ou, simplesmente, inalcançável.

Turistas e Vagabundos

Eles são o resultado da capacidade ou incapacidade de se mover num mundo globalizado. Ambos vivem sob os mesmos paradigmas culturais, mas somente um pode aproveitá-los. Quem os aproveita, são os integrantes da elite global, os turistas. Eles nunca têm um lugar específico para permanência e se sentem à vontade em qualquer cidade globalizada do mundo. São moradores de São Paulo, Buenos Aires, Pequim, Los Angeles, Bruxelas e Londres. Vivem a vida de consumo e alta velocidade em sua plenitude

Os vagabundos são aqueles que, ao contrário, não são habitantes de lugar nenhum. Nenhum lugar parecer ser o lar, entretanto, não há condições materiais para sair do lugar em que se está e procurar pela vida perfeita. A mobilidade é limitada por ser somente mais um trabalhador.

Álvaro Garnero: típico turista. Playboy indomado.
Álvaro Garnero: típico turista. Playboy indomado. Foto: O Fuxico

É aqui que entra o meio termo, que Bauman não fala, mas me parece bem razoável, da classe-média que faz mochilão pela América. Passam cinco dias em cada país e depois voltam para seu lar com fotos e pequenas experiências fast-food. Aproveitam por momentos a vida de turista, mas sempre com a certeza de serem somente vagabundos.

Portanto,

  • Turistas são habitantes de todo o mundo globalizado, se movem fluidamente, como querem e quando querem.
  • Vagabundos não são habitantes de lugar nenhum, pois não se sentem em casa em lugar nenhum. Não podem procurar seu lugar porque não conseguem fazer isso, são pobres. Eles querem sair desesperadamente de onde estão, porque lá não é seu lugar.

Os vagabundos fazem parte do povo que será subjugado pelas ordens extraterritoriais à mando das elites. As normas não são mais produzidas horizontalmente nos espaços próprios para a discussão e tomadas de decisões e esses espaços, ao poucos, vão sendo privatizados e tornados espaços para discussão sob os interesses de seus proprietários (como os infinitos locais de discussão sobre temáticas pré-produzidas, empresariais e etc). As decisões que realmente importam são tomadas extraterritorialmente e aplicadas localmente, sem a menor chance para discussão local. A comunidade morre e se torna uma mera associação.

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