Há 30 anos morria Michel Foucault

A morte de Foucault completa 30 anos hoje. Disponibilizamos obras de Michel Foucault para download, uma biografia rápida e uma reflexão apressada de sua obra, que já pode dar indícios dos pontos mais famosos a serem estudados em sua trajetória.

Michel Foucault
Michel Foucault. Foto: Divulgação

Hoje completa 30 anos da morte de Michel Foucault, renomado intelectual francês e filósofo inovador. Foucault nasceu em Poitiers, em 1926, e frequentou instituições conservadoras e religiosas em sua formação escolar. Entrou para a Sorbonne em 1946, após estudar a obra de Hegel com Jean Hyppolite, e lá se graduou em filosofia.

Foucault e seu pai, um médico cirurgião frustrado pelo filho se interessar mais por história e filosofia do que por medicina, sempre tiveram relações tensas: aos 22 anos, o futuro filósofo tentou se matar e foi internado em um hospital psiquiátrico para tratamento. Após sair da graduação em filosofia, ainda obteve o título de psicólogo pelo Instituto de Psychologie, em 1952, e se tornou professor assistente na Universidade de Lille. Ele chegou a lecionar filosofia e psicologia em diversas universidades nos Estados Unidos, Suécia, Alemanha e Tunísia.

Suas conferências o fizeram rodar o mundo todo, tendo conhecido Dumézil na Suécia, em 1955, grande figura no desenvolvimento do pensamento foucaultiano. O filósofo sempre teve boas companhias, como Sartre, Deleuze, Merlau-Ponty e Lacan, e foi um intelectual ativo nas revoltas de Maio de 68.

Herdeiro declarado de Nietzsche, os trabalhos de Foucault envolvem uma profunda crítica às verdades pretensamente universais legitimadas pelos discursos científicos. As obras de Michel Foucault são heterogêneas, mas tudo começa com “Doença Mental e Psicologia” (1954), que foi um trabalho encomendado por Althusser, seu professor na Sorbonne, mas foi com “História da Loucura”, de 1961, que ele atingiu o patamar de intelectual francês de fato. Apesar de rejeitada pelos círculos marxistas da academia, preocupados em legitimar o marxismo como uma ciência, seu estudo sobre os internamentos foi inovador pelo método arqueológico e pela proposta “anti-loucura”.

O estudo de Foucault procura descobrir a verdade da loucura. Ou seja, procurar identificar o que era de fato a loucura e sua prática no renascimento. O louco, ele descobre, era muito mais do que uma pessoa com distúrbios mentais, mas era um excluído por excelência: eram internados mendigos, pessoas pródigas, mulheres que não queriam se casar e ter filhos e etc e etc. O internamento do louco era a exclusão da pessoa fora da moral. A técnica de Foucault se resume em analisar a loucura de acordo com os saberes de sua época, que significa “experimentar” a loucura na idade clássica como alguém dessa época experimentaria, ao invés de interpretá-la com algum método universal atual.

Foucault e Sartre em Maio de 68
Foucault e Sartre em Maio de 68. Foto: Divulgação

já “O Nascimento da Clínica”, de 1963, foi uma análise do surgimento da medicina como a conhecemos e um acerto de contas com o pai – foi a maneira de se tornar filósofo “de verdade”, sem qualquer ancoramento no passado conturbado. Para Foucault, ao contrário do que pode parecer, a medicina era, de início, coletiva. Era uma medicina dos espaços e dos fluxos que foi, aos poucos, se individualizando e encontrando no próprio sujeito a sua doença.

Em trabalhos posteriores, como em “Vigiar e Punir”, de 1975, Foucault aplica seu método genealógico para entender o nascimento da prisão como forma punitiva. É aqui que um tratamento diferenciado para o poder, como um poder disciplinar que trata de nos padronizar e normalizar, é exercido. A complexidade do poder, sistematizada mais tarde em “Vontade de Saber”, primeiro volume da série “A História da Sexualidade”, vai além de sua forma negativa, punitiva, mas atravessa os sujeitos em sua forma positiva, prescritiva, moldando os corpos para melhor lhes servirem.

O poder passa a ser visto como uma força que delimita, que não deixa fazer, mas ao mesmo tempo, como uma força de criação: se o poder fosse somente repressivo, não haveria como explicar porque seus sujeitados não se rebelam.

Nas obras de Michel Foucault, então, o papel da ligação Saber-Poder é determinante. Para ele, não há como falar de poder sem explicar os discursos que o legitimam, assim como não é possível falar de saber sem explicar as relações de poder que são movidas automaticamente pelos discursos. Saber e poder são nominalmente separados, mas são a mesma coisa na vida cotidiana.

Nada disso foge do sujeito. Este tripé entre Saber-Poder e sujeito está presente ao longo de seu pensamento como uma maneira de intensificar a noção do sujeito de linguagem constituído por discursos e relações de poder, ao invés de ser determinado por uma estrutura específica (como a econômica) longe de sua própria experiência cotidiana.

Com o passar do tempo, as obras de Michel Foucault se tornaram leitura obrigatória para quem deseja entender o pensamento contemporâneo. De certa forma, não saber o que Foucault tem a dizer sobre o poder e sobre o saber é estar excluído da discussão atual nas ciências humanas.

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