O que é a Genealogia em Nietzsche?

A Genealogia é um procedimento criado por Nietzsche para unir a história e a filosofia, sem estabelecer uma relação de submissão entre as duas. Clique e aprenda!

Da série Friedrich Nietzsche.

Genealogia da Moral, de Friedrich Nietzsche.
Genealogia da Moral, de Friedrich Nietzsche. Imagem: Livraria Resposta.

A criação do procedimento genealógico, no pensamento nietzscheano, foi uma forma de conseguir unir a filosofia e a história sem cair em teleologias ou em um puro arquivamento de dados históricos. Nas tentativas de Nietzsche, tudo começou com a criação da distinção entre “História”, “Filosofia da história” e “Filosofia histórica”.

Da genealogia em Nietzsche

Essa distinção, citada acima, pode ser resumida da seguinte maneira, de acordo com as críticas de Nietzsche a cada uma dessas perspectivas:

• A crítica da “História” é de sua concretização como uma disciplina científica. Para Nietzsche, quando se exige que a História seja “verdadeira” e que se encaixe nos padrões do método científico, se retira toda a ligação com a vida que ela formou em seu caminho e a primeira consequência disso é “que uma tal prática da história é inevitavelmente paralisante: nada permitindo mais selecionar entre os fatos verdadeiros aqueles que importam reter, o passado se torna o apeiron [infinito, ilimitado] sob o qual o presente se encontra imerso”, argumenta Bertrand Binoche, professor da Universidade de Paris I.

A segunda consequência é o nivelamento de todos os fatos históricos. Afinal, se todos os fatos verdadeiros são de igual importância, então qual seria a razão de preferir um a outro? “Admitindo que um deles se ocupe com Demócrito, está sempre em meus lábios a pergunta: mas por que justo Demócrito? Por que não Heráclito? Ou Filon? Ou Bacon? Ou Descartes? – e assim por diante, à vontade”, diz Nietzsche, citado por Binoche. “A história verdadeira é a história que acredita recusar todo juízo de valor, sem ver que acredita na verdade”, continua o autor alemão.

• Já a “Filosofia da história” é critica por sua características de dar sentido à história retrospectivamente. São as grandes teleologias, como a hegeliana que, por fim, encontra na história uma “forma acabada da teodiceia”, explica Binoche: “toda tentativa de ordenar a história a um sentido equivale, em consequência, a produzir uma ‘teologia embuçada’ ou ainda o que a quarta Extemporânea denuncia como uma ‘teodiceia cristã embuçada’. É exato que a filosofia da história justifica Deus, mas é precisamente por essa razão que é preciso colocá-la porta afora”. Por conta disso, o professor afirma que a filosofia da história é:

  1. Extravagante por sua pretensão: como é possível seriamente se crer no ápice da história universal?
  2. Inconsequente: consciente do ridículo de sua tese, Hegel não ousa declarar o que, contudo, dela deduz-se necessariamente: “Aliás, ele teria mesmo de dizer que todas as coisas que viriam depois dele só devem ser avaliadas, propriamente, como a coda musical de um rondó da história universal ou, ainda mais propriamente, como supérfluas. Isso ele não disse (…)”;
  3. Servil, na medida em que transforma o homem moderno num “adorador do processo”, num “idólatra do real” que curva a espinha diante dos fatos e se inclina diante de todo processo, já que a História é seu verdadeiro sujeito.

Esses três pontos se diferem substancialmente da genealogia em Nietzsche, como será visto no decorrer do presente artigo.

A segunda crítica é em sua democratização da história: ao formular leis para a história, se perde aquilo que vale a pena investigar, o grandes homens, indivíduos dignos que não fazem parte do povo, mas são pontos acima de qualquer linha média, “com efeito, a filosofia da história pretende formular leis da história; tais leis, porém, são concebíveis apenas se o historiador trabalha sobre massas, que fazem aparecer regularidades estatísticas”, explica Binochi. Trabalhar sobre massas é uma maneira de negar a vida e submeter o homem ao rebanho.

• A “Filosofia histórica” se concretiza como uma união sem subordinação da história com a filosofia. É aquilo que viria a ser chamado de genealogia, mais tarde. A filosofia histórica se opõe à filosofia metafísica, que é aquela que coloca os sentidos das coisas como se sempre tivessem existido, como o “belo”, “justo” e etc. Segundo esta filosofia, as coisas citadas são a-históricas e só é necessário descobrir seu verdadeiro significado.

genealogia de nietzsche
“Eu acredito em um Deus que pode dançar”. Imagem: Eu Marxista

A filosofia histórica encontrou, primeiramente, na história dos sentimentos morais uma maneira de pensar o vir a ser sem divinizá-lo, sem coloca-lo em um pedestal – de procurar na história dos conceitos morais uma outra história mais interessante, que é a dos próprios sentimentos que os próprios julgamentos morais transformam. Segundo Binochi, “não se trata mais, portanto, do problema do valor da história, mas dos valores na história, estes transformando o próprio homem enquanto agregado de instintos”.

No início de sua trajetória, a genealogia em Nietzsche (ainda não nomeada como tal) se apoia no utilitarismo inglês para realizar tal façanha:

Nietzsche lança mão de um esquema perfeitamente identificável: na origem, a utilidade dita o valor, depois o hábito recobre a causa, deixando subsistir o efeito, ao qual é preciso, por conseguinte, estabelecer, retrospectivamente, uma nova causa, completamente fictícia; é por isso que a história dos sentimentos não pode ser identificada com a dos conceitos que os designam posteriormente. Olhando de perto, a origem não desaparece, ela permanece, mas dissimulada pela segunda origem que se lhe sobrepõe a posteriori: ‘Tais ações, em que foi esquecido o motivo fundamental, o da utilidade, denominam-se então morais: não porque seriam realizadas por aqueles outros motivos, mas porque não são feitas em nome da utilidade consciente’ (Bertrand Binoche, também citando Nietzsche)

Mas sua perspectiva muda radicalmente em “Genealogia da moral”, quando a utilidade já não é tão importante, mas a potência toma conta da explicação,

Para a genealogia da moral, em que, a propósito do castigo, encontra-se exposta a historicidade genealógica propriamente dita, segundo a qual toda coisa sempre se encontra já interpretada por uma vontade de potência que lhe confere seu valor e seu sentido até que outra vontade de potência se aposse dela e a recubra com um novo valor e um novo sentido, para além de qualquer ‘evolução’ e em total contingência. (Bertrand Binoche)

Quando se reduz “bem” ou “mal” à utilidade se mantém uma característica universal de seus valores. A metafísica permanece, apesar de sub-reptícia. Sem contar que pretender pela utilidade é também traçar uma história linear do desenvolvimento humano, como se tivesse uma direção já dada. Ainda por cima, a utilidade é sempre – naquela perspectiva – uma utilidade para o rebanho, para a massa.

O novo procedimento precisava de um nome, que conseguisse expressar a noção da morte de Deus, portanto, da morte da “sucessão contingente de hegemonias provisórias” durante a história. Genealogia caiu como uma luva.

Em resumo, para uma genealogia nitzscheana ser feita, é necessário perceber que não se trata de encontrar aquilo que é útil à comunidade ou aquilo que é “teleologicamente favorável à espécie”, explica Binochi. Se trata de entender que a utilidade está a serviço da vontade de potência e que, sendo assim, o “útil genealógico” é aquilo que permite que a potência se estenda indefinidamente, que os modos de existência que se impõem aos indivíduos são como são porque é somente desta forma que é possível avaliar o mundo e a si próprio, em função daquilo que pode estender a potência.

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8 Comments

  1. Boa noite! Amo os artigos de vocês, são surpreendentes. Bela explicação sobre aas perspectivas de poder e a incumbência do genealogista em Nietzsche. O utilitarismo inglês causa nele uma repulsa demonstrada. O único que o acolheu como ele o assim propõe fora Goethe. Parabéns pela postagem! 😀

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