Marina Silva e o capitalismo de face humana

Marina Silva é uma amostra da política pão-com-ovo do capitalismo de face humana. O que ela quer dizer com o fim da polarização no Brasil?

Marina Silva e o discurso da complementariedade.

“Defender a nova política é combater, sobretudo, a velha polarização que há vinte anos tem se constituído em um verdadeiro atraso para o nosso país” (Marina Silva em debate na Rede Bandeirantes)

De qual polarização Marina Silva diz neste trecho de sua fala durante o debate dos presidenciável na Bandeirantes? Poderíamos pensar, a primeiro momento, que se trata da polarização PT x PSDB. Segundo o senso comum, ambos os partidos não passam de farinha do mesmo saco e que defendem os mesmo preceitos. Só querem dominar ao seu modo o país.

Entretanto, antes de dar essa resposta, a candidata havia sido perguntada por Aécio Neves se não faltava coerência em sua política, dizer que, caso eleita, gostaria de governa com José Serra, ao invés de estabelecer uma oposição entre os dois. Para Marina, acabar com as velhas polarizações que atrasam o Brasil é sinônimo de abraçar o capital de cara limpa.

A polarização que atrasa o Brasil é aquela que faz com que a estrutura econômica neoliberal tenha entraves estatais para que a boca de milhões de pessoas tenham o mínimo para poderem se alimentar. Essa polarização, por mais que seja interpretada como um mero jogo superficial de poder, como uma disputa narcísica de quem pode mais, ainda se materializa na limitação (mesmo que pequenas) do poder econômico (afinal, salário mínimo, CLT, PEC das empregadas e etc e etc ainda existem e são provas de que o livre-mercado não saltita livremente) e na amplitude dos programas sociais que formam um pequeno Estado de bem-estar social de versão brasileira.

Dizer que a polarização será superada é dizer que a hegemonia do capital será plena: não vai ser algo que é aceito vergonhosamente pelo PT, partido da esquerda que age estrategicamente com suas possibilidades dentro da democracia burguesa; pelo contrário, será algo aceito claramente e sem vergonha nenhuma pelo governo de Marina. O que interessa não é ter de fato uma terceira via, mas é passar uma face humana para o capitalismo já existente e, ao mesmo tempo, deixá-lo mais feroz com uma política econômica que não se difere substancialmente do programa do PSDB.

Com politicas econômicas similares, ambos são mais aliados que opositores.

Existem pistas dessa tendência no próprio discurso marinês: “O problema do Brasil não é a sua elite, é a falta de uma elite. A elite não é aquela que tem dinheiro. O Guilherme (Leal, dono da natura) faz parte da elite, mas o Davi Yanomami também; a Neca (Setubal, herdeira do Banco Itaú) pode fazer parte da elite, mas também o Chico Mendes fazia parte da elite”. A elite é uma visão abstrata de “tudo que é bom”.

Entretanto, é necessário tomar posição, é necessário se afirmar com violência: a herdeira do Itaú não é “boa”. O dono da natura não é “bom”. E ponto final. Não dá pra relativizar desde jeito, transfigurar o termo a ponto de fazer de Chico Mendes, líder sindicalista morto por gente da mesma classe que Guilherme Leal e Neca Setubal, um sujeito “tão bom” quanto eles.

O discurso de Marina é tão velho quanto o próprio capitalismo, pois é o discurso da complementariedade funcional: todos dependem de todos e, portanto, todos precisam ajudar a todos. É discurso que une senhor e servo e que, portanto, castra servos e eleva senhores à categoria de “bons”. Ao contrário do discurso marxista que visa mostrar a luta de classes e as contradições sistêmicas de um dado modo de produção, o discurso de complementariedade funcional pretende acabar com a luta.

É a típica moral dos fracos, na linguagem nietzschiana. É o discurso que evita o exercício do poder, que evita a afirmação de si, que castra tudo e todos em prol do bem maior que é a cooperação mundial entre as pessoas. No entanto, nossa elite (a elite verdadeira, aquela que amassa boa parte do povo pra faturar seus bilhões) não tem as limitações de um fraco: são exemplares dos mais maquiavélicos detentores do poder: o discurso da complementariedade só os obrigaria a ser mais polidos em suas palavras, mas nunca com seus martelos.

No fim, que de fato é castrado é o oprimido, o explorado, que continuará em posição desprivilegiada, mas achando fazer parte de um objetivo maior.

Abaixo, o vídeo do momento em que Marina diz que Chico Mendes era da elite brasileira.

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