Personalismo e presidencialismo de coalizão — ou a ilusão da “nova política”

Como explicar a reviravolta na corrida presidencial com a entrada de Marina Silva na disputa? Só a crença numa "salvadora da pátria" explica...

Marina: o mito e a política  controversa
Marina: o mito e a política controversa

Poucas semanas após a trágica morte de Eduardo Campos, a disputa que até então era protagonizada por Dilma e Aécio Neves ganhou outros contornos. Agora a corrida pela presidência tem Marina e Dilma lutando pela ponta, enquanto Aécio está cada vez mais distante de um possível segundo turno. Como explicar esse fenômeno Marina?

É verdade que a ex-senadora, ao ser escolhida para ocupar a vaga de Campos na chapa do PSB, indicou nomes de sua confiança para a equipe de campanha. É certo também que ela tenha mantido restrições a participar de determinados palanques estaduais – como o de Geraldo Alckmin, do PSDB, em São Paulo. Mas o fato é que não houve mudança programática substancial para explicar uma ampliação de mais de 20% nas intenções de voto na candidatura peessebista (pelo contrário, Marina se apropriou bandeiras que eram de Campos, como a defesa da autonomia do Banco Central).

Assim, só é possível entender o fenômeno Marina sob o prisma do personalismo. Vota-se no candidato, e não no partido. Elege-se um personagem, e não um programa. Tem-se simpatia por pessoas, e não por ideias. O que está por trás dessas opções é a crença sebastianista no surgimento de um indivíduo capaz de transformar, sozinho, todo um estado de coisas – um salvador da pátria.

E Marina tem uma série de características e uma biografia que a credenciam para representar esse papel. Mulher, de origem humilde, trabalhadora, religiosa, de escolarização tardia, chegou ao posto de senadora da República, figura de destaque entre os ambientalistas… Enfim, ela reúne uma série de atributos que permitem apresentá-la ao grande público como a encarnação da “nova política”. Essa figura, sem dúvida, é altamente sedutora para um público que se diz descrente na política.

Lima Duarte interpreta Sassá Mutema na novela "O Salvador da Pátria": traço personalista da política brasileira.
Lima Duarte interpreta Sassá Mutema na novela “O Salvador da Pátria”: traço personalista da política brasileira.

Mas a ilusão não resiste ao confronto com a realidade. O mito personalista não se sustenta diante da dinâmica do presidencialismo de coalizão, isto é, do fato de que para governar neste país é preciso fazer alianças e conciliar interesses. O que, na prática, significa ceder posições e negociar acordos. Desse modo, o mito Marina vai se desmanchando diante dos iludidos personalistas, à medida em que o jogo político exige da candidata que assuma compromissos com grupos que, do ponto de vista ideal, seriam antagônicos à “nova política”: os representantes do agronegócio, do capital financeiro, da bancada evangélica…

Exemplo disso é que, após divulgar errata no plano de governo sobre questões de interesse dos grupos LGBT – retirando compromissos mais contundentes de mudanças constitucionais –, sob pressão de aliados ligados ao pastor Silas Malafaia, a campanha de Marina perdeu apoiadores.

As chances de êxito de Marina, portanto, dependem fundamentalmente de quanto se sustentará o mito sobre sua pessoa até a realização das eleições. Os marqueteiros e setores que a apoiam – entre eles o setor financeiro – sabem bem disso e fazem de tudo para blindar a candidata. E ex-senadora também mostra extrema habilidade retórica em seu discurso conciliador, a ponto de ter feito um malabarismo para incluir Chico Mendes na elite.

A mudança efetiva na política brasileira, por sua vez, só será possível com uma profunda reforma política, de iniciativa popular, como a proposta no Plebiscito pela Constituinte do Sistema Político Brasileiro. Por enquanto, a “nova política” não passa de uma bela ilusão.

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