Homem enquanto animal doente

Qual é a natureza humana para Nietzsche? Com certeza sua resposta é bem menos regrada e normatiza que a da maioria dos filósofos, mas também é bem mais libertadora.

Da série Friedrich Nietzsche.

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Friedrich Nietzsche.

Em Nietzsche, o homem é um animal doente porque é um animal não fixado, o mais flexível, mais mutável e mais inseguro de todos. Ele é insatisfeito, está na terra para conquistar todos os espaços, para disputá-los com a natureza; está sempre insaciado e precisa de mais e mais para conseguir viver sua vida: vida essa baseada na inovação, na experimentação e na classificação do mundo por símbolos.

Um animal como este, não fixado, que não se satisfaz com uma atividade particular de satisfação de um desejo instintivo, não pode ser sadio. Sua vida é uma doença, é sofrimento e dor. “Ele, o sempre ainda indômito, o eternamente futuro, que não mais encontra repouso perante sua própria impetuosa força, de modo que, para ele, seu futuro agrilhoa inexoravelmente como um esporão na carne de todo presente”, revela Nietzsche, na Genealogia da Moral.

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O que Oswaldo Giacoia Junior percebe em seu livro “Nietzsche, o humano como memória e como promessa” é que o homem – como também conclui Freud, anos mais tarde – “é natureza dividida em si mesma, portanto, é natureza paradoxal. Sendo assim, pode-se afirmar que faz parte desse paradoxo um excedente de força pulsional que ultrapassa toda fixação instintiva e faz do homem esse desafio permanente à estabilidade pensada no conceito de natureza, esse repto à autoconservação”.

Além disso, o homem é um animal doente, “o mais prolongada e profundamente doente entre todos os animais porque é também o animal não fixado, sendo assim o grande experimentador consigo mesmo. Essa autoexperimentação – que acarreta a instabilidade, a flexibilidade, a mutabilidade e insegurança – pressupõe mal-estar, sofrimento, insatisfação, ânsia, insaciedade permanente, mas também desafio e combate, repto lançado ao destino, disputa por domínio sobre animais, natureza e deuses (também e sobretudo sobre si mesmo)”.

Citando o antropólogo Arnold Gehlen, Giacoia Junior conclui que “de um lado, temos, portanto, um excedente pulsional constitutivo; excesso que, por outro lado, determina-se como reflexo de uma indigência crônica derivada, no ‘plano físico, em seu [do homem] deficiente equipamento orgânico; no plano psíquico, de uma dimensão, cuja vastidão coincide com o mundo, dos estímulos e motivos acessíveis ao homem, e que, portanto, ele deve dominar; no que respeita à vida pulsional, [ela] consiste na propriedade fundamental dessas pulsões, de não só periódicas, mas crônicas”.

Isso significa que o excedente pulsional é um a priori antropológico, um imperativo à estruturação, à vida intermediada por símbolos e regras. A sua estabilização depende unicamente de si e de uma tarefa que deverá ser concluída durante sua vida: esta tarefa é a criação de normas que sirvam ao seu interesse de satisfação do excedente pulsional.

O homem, sob este ponto de vista, está fadado à criação. Seu ser mais fundamental é essa necessidade imperativa de criar para tentar alcançar a estabilidade inalcançável resultante de ser um sujeito explosivo, com um excedente pulsional que precisa ser aplicado, estruturado e satisfeito. O homem precisa se curar, mas somente durante a prática cotidiana de toda a sua vida.

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