O divino mata o humano

Em seu ensaio “O princípio do Estado”, Bakunin demonstra como a existência de Deus se deu no imaginário dos homens e como esta, principalmente no cristianismo, seria a negação de uma moral verdadeiramente humana.

Bakunin
Mikhail Bakunin

Uma pergunta fundamental feita por Bakunin é se há direito humano ou moral humana absolutos, isto é, que excedam as delimitações e convenções políticas e religiosas. Do contrário, estes seriam relativos.

Posteriormente, o autor postula que, “por mais ateus que sejamos, e precisamente porque somos ateus”, reconhecemos como existentes o direito e moral de que falávamos, mas que faz-se necessário entender o significado da palavra “absoluto”. Bakunin diz que só podemos delinear um absoluto humano: qualquer tentativa de excedê-lo, pretendendo abarcar todos os seres, seria uma tentativa metafísica.
A humanidade, no entanto, possui um princípio que lhe é inerente:

“De todos os seres vivos sobre esta terra, o homem é simultaneamente o mais social e o mais individualista.” (BAKUNIN, M. – “O princípio anarquista e outros ensaios” – Ed. Hedra, 2011 – p. 30)

Sua própria inteligência que, em certo sentido, o faz superior frente a todos os outros seres vivos, só pode constituir-se como tal, ser o que ela é, em sociedade, inserida na coletividade. É por meio de uma fusão do individual e do coletivo que a “consciência refletida de si mesmo”, ou seja, a própria personalidade, pode se constituir. A moral humana pode ser extraída desta constatação, na medida em que

“A estupidez de todo mundo embrutece-vos, enquanto a inteligência de todos ilumina-vos, eleva-vos; os vícios de vosso meio social são vossos vícios, e só poderíeis ser um homem realmente livre se estivésseis cercados de homens realmente livres; bastaria a existência de um único escravo para diminuir vossa liberdade.” (p. 32)

A partir disso, Bakunin conclui que “o principal defeito dos sistemas morais ensinados no passado foi o de terem sido exclusivamente socialistas ou exclusivamente individualistas.” Dentre os deuses, os da Antiguidade grega e romana foram a expressão máxima da coletividade, uma vez que eram múltiplos, plurais e de poder aproximadamente igual. “Ao adorá-los, adorava-se o Estado”.  Já a individualidade, para o autor, teve sua maior expressão na religião cristã, na qual se concebe uma corrida pela salvação da própria alma.

“Do ponto de vista da moral humana, todas as religiões monoteístas, mas principalmente a religião cristã, como a mais completa e mais consequente de todas, são profunda, essencial e principalmente, imorais: ao criar seu Deus, elas proclamaram a decadência de todos os homens, dos quais só admiram a solidariedade no pecado; e ao afirmar o princípio da salvação exclusivamente individual, renegaram e destruíram, na medida de sua força para fazê-lo, a coletividade humana, isto é, o próprio princípio da humanidade.” (p. 36)

Mas, embora o cristianismo reivindique a honra de ter criado este princípio, esta honra em nada lhe é devida. É verdade que ele parece “predizer o dia em que só haverá um único pastor e um único rebanho”, mas rebanho este cuja solidariedade é reconhecida unicamente no pecado, quando, na verdade, a moral humana deve se fundamentar na solidariedade natural entre os homens.

Além disso, o cristianismo nega a humanidade quando se coloca como único mediador possível das relações interpessoais. Estas últimas, por mais que fundadas no respeito, na simpatia e na estima recíprocas, no amor pelo verdadeiro e pela liberdade, só podem ser validadas pelo “funil aprobatório” divino. O cristianismo, ao negar a solidariedade da sociedade, nega, consequentemente, a moral humana, uma vez que não pode haver moral fora da sociedade.

“O cristianismo ordena aos filhos a amarem seus pais, aos pais a amarem seus filhos, aos esposos se afeiçoarem mutuamente. Sim, mas ele lhes ordena e só permite amá-los não imediatamente, não naturalmente, por eles mesmos, mas só em Deus e pelo amor de Deus. (…) Cada um sonha apenas com a salvação da sua alma, fazendo assim, sob o pretexto do amor divino, o egoísmo humano excessivamente refinado, cheio de ternura para consigo próprio” (p. 38)

Mas como surgiu este Deus único dos monoteístas, de cuja natureza só poderia derivar o individualismo? Comum também aos outros animais, somos dotados de certo “terror instintivo” frente à natureza; esta que nos produz e nutre, mas que, ao mesmo tempo, ameaça nossa existência a todo momento. No entanto, diferentemente dos outros animais, o homem, dotado de consciência, foi o único capaz de “entificar” estas forças. Eis o princípio do sentimento religioso.

O primeiro Deus era encontrado rudimentarmente nos mais diversos fenômenos naturais. A isto chamamos fetichismo. Dos objetos inanimados, os homens passaram adorar aos diferentes animais e, por fim, aos feiticeiros. Mas, notando ser a experiência do feiticeiro também insuficiente, continuou-se este processo de “abstração” do conceito de divindade, o qual, quanto mais longe parecesse estar do homem, maior parecia ser sua grandiosidade e autoridade. O autor conclui:

“Mas com que procedimento pôde o homem descobrir esse ser invisível, do qual nenhum de seus sentidos, nem mesmo sua visão, foi capaz de ajudá-lo a constatar a real existência, e por meio de que artifício pode ele reconhecer a natureza e a qualidade desse ser? (…) Outro não foi o procedimento senão essa operação bem conhecida do espírito que denominamos abstração ou eliminação, e o resultado final dessa operação só pode ser o abstrato absoluto, o nada, o não-ser. E é precisamente esse não-ser que o homem adora como seu Deus.” (p. 45)

"O divino mata o humano" (M. Bakunin)

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