Aplicando Bauman: o voto como ato de consumo

O voto tende a ter outro valor na modernidade líquida. Seu uso está ligado mais ao mercado que a própria esfera política.

Hélio-RôlaQuando o discurso da globalização é aquele análogo ao da maratona, em que “estamos todos em uma competição” e “é cada um por si“, o voto tem uma significação diferente. Se as organizações políticas tinham no voto uma expressão de usa força em quantidade e, portanto, o voto poderia ser tido como a força da coletividade, no mundo líquido a sua função muda: ele passa a ser um instrumento de distinção e busca pela satisfação de interesses individuais.

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Essa lógica segue o mesmo princípio da passagem de uma sociedade panóptica para uma sociedade sinóptica: as tecnologias sociais não mais obrigam o indivíduo a assumir suas formas, elas não marcam o indivíduo a ferro e fogo; ao contrário, agora o indivíduo é atraído para o poder, o que significa que a inscrição do poder no sujeito é feita a partir da entrega de si, não da violência.

Talvez seja fácil perceber isso na própria trajetória do voto: apesar de ser uma obrigação (portanto, uma ordem que, caso seja descumprida, acarreta em uma sanção), ele é tratado como um direito (e de fato é um direito). O voto é a obrigação que nós temos que gostar de fazer, por isso o nome é festa da democracia e por isso que nós temos que exercer nossa cidadania exatamente desta maneira.

Ser cidadão é um fardo do indivíduo sob o poder do Estado moderno. O cidadão não é um servo, ele não tem sua vida imputada pelo Estado a partir de seu nascimento. O Estado do cidadão não “faz morrer e deixa viver”; muito pelo contrário, é o Estado do cidadão que faz viver (por meio da biopolítica e do biopoder) e deixa morrer (quando não absorve o indivíduo o transformando em cidadão portador de direitos).

“Fazer viver e deixar morrer” é o resultado da estatização cada vez maior de espaços da vida que antes não eram sequer um problema do Estado (como a educação antes do iluminismo). E o que isso tem a ver com o voto? Primeiramente, o voto é parte daquilo que “faz viver”: o voto é parte daquilo que faz o cidadão ser cidadão.

O voto faz o sujeito de direitos “viver”, usando esta palavra no sentido da expressão foucaultiana. Mas não se vive no vácuo. A vida é recheada de saberes e poderes que dão sentido ao ato de votar. Logo, dentro do discurso individualista da busca pela felicidade individual numa sociedade de consumo, o voto toma delineamentos de mercadoria: ele é feito para adorno e, também, para satisfação pessoal.

Sendo assim, não se vota em um candidato porque ele será bom para o país que administrará ou porque o partido que ele pertence defende causas que o eleitor também acredita. O voto se dá para o candidato que consegue atender melhor as demandas individuais. Sendo o voto uma forma de fazer fluir a dinâmica política de um Estado liberal-democrático, cabe aos partidos políticos se adequarem a essa nova estratégia do capitalismo globalizado: o voto personalista começa, então, a fazer sentido na política pós-moderna.

O voto no candidato (e não no partido), indica a satisfação individual que o candidato causa no votante. Plínio Arruda, em um momento infeliz, disse que preferia votar em Serra que em Haddad para a prefeitura de São Paulo, porém, ao ser pergutado se votaria em Serra, disse que votaria em Haddad por que esta seria a posição de seu partido. Este tipo de eleitor não existe mais na sociedade líquida.

Uma das provas disso é o alto número de abstenções, votos brancos e nulos: é o sinal de que, tentando abarcar tudo, os candidatos grandes não conseguiram agradar individualmente um pedaço do eleitorado. É possível dizer que não foi somente a parte não válida dos votos que representa essa parcela: a parte votante da Marina talvez esteja neste bolo – a nova política é uma política que preza pela conciliação entre os opostos para conseguir uma abertura que dará satisfação individual para todos.

A “política líquida” é a utopia da satisfação dos prazeres individuais de todos. Ou seja, é o carinho à criança mimada.

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