A fenomenologia do ebola

A notícia de que o ebola pode ter chegado ao Brasil causa preocupação. O mesmo não se pode dizer em relação aos milhares de africanos que já morreram vitimados pela doença. Como explicar isso?

Médicos usam equipamentos para evitar contaminação (Foto: BBC/MSF).
Médicos usam equipamentos para evitar contaminação (Foto: BBC/MSF).

Em meio à acirrada disputa eleitoral deste ano, poucos fatos conseguem romper o quase monopólio da política no noticiário. Um desses fatos, que tem provocado grande temor, é a possível chegada do ebola ao Brasil.

A causa de tamanho medo diante do vírus é, sem dúvida, o elevadíssimo grau de letalidade da febre hemorrágica que ele provoca: o paciente acometido pela doença tem chances de até 90% de não resistir e vir a óbito. Sem dúvida, um número assustador.

Não menos assustador é o fato de que a enfermidade não é descoberta recente. O vírus foi identificado em 1976, pelo cientista belga Peter Piot, após uma série de mortes numa aldeia do Zaire (atual República Popular do Congo).

Da década de 1970 para cá, poucos foram os avanços quanto a tratamentos ou medicamentos para o ebola. As providências diante dos casos da doença continuam praticamente as mesmas de quase 40 anos atrás: isolamento dos doentes, manter em quarentena as pessoas que tiveram contato com estes, assepsia, etc.

Pensando nas vítimas do ebola, é aterrador que a comunidade científica ou a indústria farmacêutica ainda não tenham chegado perto de uma resposta para uma enfermidade tão letal.

Hegel propunha que a História Universal se desenvolvia do Oriente para o Ocidente. Assim, a trajetória civilizatória da humanidade encontraria seu ponto culminante na Europa. Se essa ideia hegeliana torna-se questionável a partir das críticas que têm como fundamento o relativismo cultural, é triste constatar que ela ainda nos fornece pistas sobre o contexto atual.

Pois não bastou que milhares de vidas tenham sido ceifadas na África. Na atual epidemia de ebola, que atinge Serra Leoa, Guiné e Libéria, estima-se que as mortes já tenham ultrapassado a casa das 4.000. Foi preciso que a doença deixasse de ser endêmica e vitimasse europeus e norte-americanos para que ela ganhasse realidade suficiente a ponto de provocar uma intervenção mais firme. Foi necessário que seres humanos “não-descartáveis”, com um certo “grau de civilização” e “potencial de consumo”, fossem vitimados para que o ebola passasse a existir.

Eis a fenomenologia do ebola. Eis o flagelo que castiga o continente africano: a indiferença do mundo diante de suas mazelas. Mazelas que só adquirem realidade ao extrapolar suas fronteiras. Essa negligência, contudo, pode custar caro. A África é apontada como o berço da humanidade. Se continuar negligenciada, ela pode vir a ser a lápide. É preciso isolar o ebola – e não o continente africano.

O ebola foi identificado em 1976, no Zaire (Foto: BBC).
O ebola foi identificado em 1976, no Zaire (Foto: BBC).

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