Uma guerra pelo poder

A “guerra ao terrorismo” é uma farsa. Mas a menos que façamos algo, a elite norte-americana a levará para sempre.

Artigo de David Mizner, publicado originalmente na Jacobin Magazine.
Traduzido com a colaboração de Julia Ferruzzi.

Cokaigne / Flickr
Cokaigne / Flickr

 O bombardeio do presidente Obama ao ISIS, na Síria, incitou a oposição de muitos liberais proeminentes, culminando no que acreditam ser uma estratégia fadada ao fracasso. “A política Americana nessa questão foi, até agora, incompreensível e contraproducente”, escreve o jornalista Murtaza Hussain, do Intercept.

Mas isso somente é incompreensível e contraproducente quando se assume que o governo dos Estados Unidos está realmente tentando “erradicar” o ISIS. O pensamento padrão e liberal faz com que as elites americanas entrem em outra guerra, ignorando as conseqüências, agindo, inconscientemente, contra seus interesses.

Quanta morte e destruição os guerreiros americanos do terror precisam causar antes que seus adversários ostensivos rejeitem suas reivindicações de nobre intenção? Durante os treze anos da “guerra ao terror”, ações do governo dos Estados Unidos têm, consistente e previsivelmente, fortalecido grupos terroristas anti-americanos. Atribuir isso a pura estupidezao invés do imperialismo de regra – é escolher ignorância.

A “guerra ao terror” dos americanos tem sido magnífica para os grupos jihadistas. De acordo com o famoso interrogador do FBI Al Soufan, a Al Qaeda tinha cerca de 400 combatentes no 11 de setembro. Hoje, os números do grupo chegam a milhares, com a ascensão de afiliados em diversos países na Ásia, no Oriente Médio e na África. Seu primo rebelde, o Estado Islâmico, controla milhões de pessoas num território do tamanho do Reino Unido.

Não é preciso aceitar os avisos histéricos de políticos americanos para reconhecer que a ascensão do ISIS é um problema sério, especialmente para as pessoas do Iraque e da Síria. Usando o objetivo oficial como um exemplo, a “guerra ao terrorismo” é um desastre.

Isso não é novidade para os oficiais do governo americano, que têm acesso tanto aos relatórios de inteligência quanto ao Google. Dizer-lhes que sua guerra está criando um “blowback” – uma reação violenta, termo, aliás, cunhado pela CIA – não é dizer-lhes algo que já não saibam. Sem dúvidas, parte da Segurança e da Política acredita que a violência é a melhor forma de combater o terrorismo. Isso é quem eles são e o que eles fazem. Mas outras forças estão obviamente agindo.

Uma dessas forças é simples em seus interesses próprios. Como a suposta ameaça comunista de antes, o terrorismo oferece uma justificativa politicamente potente ao militarismo. Da perspectiva de quem se beneficia com a guerra, o ciclo de violência é um ciclo virtuoso. A guerra ao terrorismo, como Chris Floyd afirmou há alguns anos, é uma benção constante – imensamente recompensadora, em diversas maneiras diferentes, para quem produz ou auxilia, tanto no governo, como na mídia, Academia ou negócios”.

Chefões corporativos, especialistas pró-guerra e lideres políticos não se juntaram numa sala para conspirar a favor da guerra. Eles não precisaram; o processo se guia à medida que as elites conseguem o que querem.

“A guerra não é a solução”. Em resposta a este slogan, os que apóiam a guerra às vezes ironizam “Depende de qual é a questão.” Eles estão certos. A guerra é, de fato, a resposta, ou uma delas, se a questão for “Como o governo dos Estados Unidos busca manter o poder e dianteira nos seus próprios interesses econômicos?”

A capacitação ao terrorismo feita pelos Estados Unidos vai além da ação militar contra eles. A resposta americana às revoltas na Líbia e na Síria revela um governo disposto a dar poder a grupos terroristas na busca de seus objetivos centrais: acumular riqueza e combater o Irã, e o que também é uma grande prioridade econômica, já que o Irã é a principal ameaça à hegemonia americana nessa região rica em petróleo.

Muitos liberais reconhecem os imperativos econômicos em jogo, mesmo assim, isso raramente entra em suas análises da “guerra ao terrorismo”. Sem um alerta de motivo econômico – ou, se você preferir, de “geopolítica” – algumas estratégias militares dos Estados Unidos não fazem sentido.

Considere o envolvimento dos EUA na remoção de Qaddafi. Era previsível, e foi previsto, que uma mudança no regime fortaleceria grupos terroristas; a presença dos combatentes da Al-Qaeda entre as várias facções rebeldes não foi apenas um ponto àqueles que se opunham ao bombardeamento da OTAN. O governo também sabia que Líbia Oriental era um pandemônio extremista; a cidade de Dernah, por exemplo, foi uma fonte importante de combatentes estrangeiros no Iraque.

Mesmo assim, a administração de Obama ajudou a remover Qaddafi – por quê? Podemos dispensar a justificativa humanitária mesmo que alguns membros da administração acreditassem piamente nela. Os EUA não vão à guerra para tentar libertar as pessoas.

Alguns, como Seamas Milne, acreditam que “O Oriente aproveitou a chance de intervir na Líbia para assumir o controle das revoltas árabes.” De acordo com essa teoria, os Estados Unidos tomou conta dos protestos no propósito de acabar com eles. Mas se o objetivo era anular o elemento democrático, e certamente era, permitir que Qaddafi acabasse com a revolta não serviria ao mesmo propósito?

Outra teoria é a de que os EUA viram uma oportunidade de remover um governante imprevisível que vinha falando de nacionalizar a indústria do petróleo. O Wikileaks revela que o governo estava frustrado com a falta de entusiasmo no apoiode Qaddafi aos interesses corporativos americanos, então é seguro assumir que sua remoção era, ao menos, um objetivo auxiliar.

No entanto, mais persuasiva é a teoria de que os EUA bombardearam a Líbia como parte de uma maior expectativa militar. Nos últimos anos, as forças militares americanas expandiram muito sua presença na África. Essa leve ocupação corresponde a uma batalha entre China e Estados Unidos pelos espólios da África, que é rica em recursos naturais e possui seis das economias que mais crescem no mundo.

A pegada militar, que inclui as “alianças anti-terrorismo” de governos, permite aos Estados Unidos exercer influência e explorar oportunidades econômicas. O motivo para “se livrar” de Qaddafi e o motivo do Comando dos Estados Unidos para África (AFRICOM) não são mutuamente exclusivos; o governante Líbio, junto com outros líderes, resistiu ao crescimento do AFRICOM. A intervenção na Líbia permitiu uma expansão militar dos Estados Unidos, assim como o resultante ataque jihadista ao consulado americano em Benghazi, o que, diz o General Raymond Fox “mudou a AFRICOM para sempre.”

É difícil discernir a significância relativa desses motivos. O que é inegável é que o governo dos EUA – apesar de uma campanha de treze anos que transformou a sociedade americana, apesar do compromisso alegado de combater o terrorismo – agiu de modo a garantir um surto de poder dos grupos jidahistas. Qualquer que seja o motivo, impulsionar o esforço to para remover Qaddafi com 7.700 bombas não é o ato de um governo que estima a redução do terrorismo como uma prioridade predominante.

A razão pela qual os EUA fortaleceram os grupos jihadistas tentando destronar Assad é mais óbvia. O regime Sírio é um aliado do Irã. Apesar dos promotores de guerra americanos juntarem o Hezbollah e a Guarda Revolucionária com os grupos sunitas, o esforço americano de fiscalizar o Irã está em desacordo com a “guerra ao terror”. Só um pode ter prioridade.

Muitos anos atrás, o jornalista veterano Seymour Hersh denunciou o alarme da Administração Bush a respeito da nova proximidade do governo Iraquiano com seu vizinho e o esforço correspondente dos Estados Unidos em subordinar a “guerra ao terrorismo” para ocultar a guerra no Irã:

Para abalar o Irã, que é predominantemente xiita, a Administração Bush decidiu reconfigurar suas prioridades no Oriente Médio. No Líbano, a Administração tem cooperado com o governo da Arábia Saudita, que é sunita, em operações clandestinas, com a intenção de enfraquecer o Hezbollah, a organização xiita que é apoiada pelo Irã. Os Estados Unidos também participaram nas operações clandestinas direcionadas ao Irã e seu aliado, Síria. Um subproduto dessas atividades tem sido o reforço dos grupos sunitas extremistas que adotam uma visão militante do Islã e são hostis com a América e simpatéticos a Al Qaeda.

A tentativa constante do presidente Obama de estabelecer um acordo nuclear, a fixação anti-Irã do governo americano persiste. Na pequena revolta contra Assad, os Estados Unidos e seus aliados viram uma chance para atacar o Irã. Combatentes estrangeiros apoiados por oponentes do Irã, logo vieram a dominar os rebeldes.

“A Liga Árabe e poderes imperiais tomaram conta das revoltas sírias no intuito de remover o regime de Assad.” Quando Joseph Massad escreveu isso há quase três anos, tais palavras foram consideradas controversas; hoje, no entanto, meios como NBC, Foreign Policy e o Daily Beast estão delatando o papel principal que os países do Conselho de Cooperação do Golfo – em particular, Arábia Saudita e Qatar – ocuparam na ascensão tanto do ISIS, quanto de seu rival-e-aliado, a Frente Al Nusra.

O governo dos EUA, que deu à luz ao ISIS com a destruição do Iraque, não era um espectador desinteressado enquanto seus aliados o transformavam numa força regional. No Atlantic, o jornalista Steve Clemons aponta que os EUA encorajaram a Arábia Saudita a apoiar o ISIS, e ele desenha o paralelo apropriado: “Como elementos da mujahideen, que beneficiou-se do apoio financeiro e militar dos Estados Unidos durante a guerra Soviética no Afeganistão e mais tarde se opôs ao Ocidente na forma da Al-Qaeda, o ISIS alcançou escala e consequência através do apóio Saudita.”

Os EUA brincaram com fogo, esperando que Assad fosse se queimar. Os horrores do ISIS no Iraque, que supostamente desencadearam a ação militar americana, tinham antecedentes na Síria. Mesmo assim, a administração de Obama, culpando virtualmente toda a brutalidade da guerra contra Assad, nada disse quando o ISIS levou adiante as decapitações em Raqqa e seqüestrou 150 crianças curdas no norte da Síria.

A Casa Branca também desdenhou da ascensão do ISIS no Iraque. “Essa é uma luta que pertence aos iraquianos,” disse o Secretário de Estado John Kerry, após a queda de Falluja. Não foi até a ameaça do ISIS contra Arbil, no Curdistão, uma capital de petróleo, que os Estados Unidos começaram a bombardear o ISIS. “Os americanos sempre dizem que são líderes contra o terrorismo, mas eles não levantaram um dedo quando o ISIS estava tomando partes do Iraque”, disse Hassan AL-Fayath, o reitor da al-Nahrain University, em Bagdá. “O único momento em que os americanos se envolveram foi quando descobriram que isso estava ameaçando seus interesses ao chegar perto dos campos de petróleo e de Arbil.”

A esse ponto, tendo sido queimado pela mesma situação que ajudaram a criar, oficiais dos EUA querem enfraquecer, ou ao menos redirecionar o ISIS. Mas seu proclamado desejo de “erradicar” o grupo deveria ser questionado devido à sua recusa em fazer a única coisa que possa trazer seu fim: negociações de trégua que incluam o Irã e possibilitariam que Assad (ou um sucessor) permanecesse no poder.

Em contraste, oficiais americanos estão utilizando o argumento absurdo de que apenas se Assad for deposto, o ISIS pode ser derrotado. Uma mudança de regime na Síria ainda está nos planos, e a Administração Obama está considerando abertamente bombardear o Governo Assad. A guerra contra o Irã continua suprema.

Os promotores de guerra americanos – que fizeram tantas coisas para criar o terrorismo – alegam que os oponentes da guerra e do imperialismo são “suaves com o terrorismo”. E alguns liberais acreditam que esses que fizeram tanto para criar o terrorismo estão tentando lutar contra o mesmo. Compelidos pela lógica destrutiva do capitalismo, os promotores de guerra americanos estão jogando sujo e jogando sério, e mesmo assim, muitos dos seus principais “críticos” os retratam como Os Keystone Cops.

Como o blogueiro Kevin Dooley aponta, muitas análises desafiam o senso comum e permitem uma possibilidade de resistência: “A idéia que a elite dominante é tão estúpida a ponto de não saber quais seriam seus próprios interesses, muito menos como assegurá-los, é um absurdo histórico que só serve ao próprio poder.”

Os EUA mataram centenas de milhares de pessoas em nome de uma batalha contra o terrorismo. A guerra é real demais. Mas também é falsa. Não há choque de civilizações, não há batalha ideológica, não há grande esforço dos Estados Unidos para derrotar o terrorismo. Enquanto o terrorismo não ameaçar os reais interesses dos EUA, as elites contentam-se em permitir – e ajudar – seu crescimento. Eles não querem vencer essa guerra. Ela vai durar para sempre, a menos que façamos algo.

Deixe uma resposta