Orientações para se debater a Internacional Situacionista

Por um bom tempo, houve uma distância considerável entre a teoria situacionista(considerada estranha e bizarra) e as ideias daqueles que escrevem sobre a história contemporânea(o desaparecimento do proletariado, progresso do estado do bem-estar, etc.). Hoje, essa distância é menor, o que, obviamente, significa que a verdadeira história avançou e efetuou uma modernização em sua ideologia.

Texto de Raoul Vaneigem, originalmente publicado no site: www.notbored.org

Guy Debord e Raul Vaneigem, idealizadores da Internacional Situacionista.
Guy Debord e Raul Vaneigem, idealizadores da Internacional Situacionista.

1. Por um bom tempo, houve uma distância considerável entre a teoria situacionista (considerada estranha e bizarra) e as ideias daqueles que escrevem sobre a história contemporânea (o desaparecimento do proletariado, progresso do estado do bem-estar, etc.). Hoje, essa distância é menor, o que, obviamente, significa que a verdadeira história avançou e efetuou uma modernização em sua ideologia. No entanto, boa parte de nossas teorias reduziram-se a ‘’ideologia de moda’’ de uma maneira um tanto quanto deformada. Nossas teorias não evoluem desde 1968, portanto, é urgente que marquemos novas distâncias(A organização do grupo deve incentivar a atração megalomaníaca da criatividade – cada um há de desenvolver o gosto de, agradavelmente, surpreender os outros, mesmo que eles tenham todos os motivos para não ser surpreendidos por qualquer coisa), e ao mesmo tempo em que radicalmente criticamos essas ideologias contrárias e recuperamos a análise da verdadeira história, aqueles que a fizeram e aqueles que irão fazer.

Veja também: A história da Internacional Situacionista

2. Proponho que chamemos ‘’Situacionismo’’ toda ideologia modernista em sua totalidade. Arte, o proletariado, a vida cotidiana, urbanismo, espetáculo – tudo que dissermos, menos o essencial, que encontra-se amplamente conhecido em toda a parte. Em um texto contra o situacionismo, seria necessário mostrar claramente o contraste que traçamos[1] entre a história-à-ser-feita e a história-já-feita. Para mostrar quão recente a história é feita por nós e contra nós, para explicar por que isso é assim; para denunciar o situacionismo analisando e dando exemplos de confusões ideológicas ao nosso redor. Eis um meio prático para criar uma distância entre nós e nossos leitores dominantes (assimilados no mundo dominante) por uma inversão que nós também temos o direito de aplicar aos que nos recuperam.

3. Ao mesmo tempo, é necessário rever a história real, que é inseparável de sua falsificação, de sua verdade e possibilidades. Por exemplo, é necessário mostrar como o espetáculo miseravelmente tenta virar a página: a decomposição da mercadoria cultural alcançou o centro de sua produção (escolas, universidades), mas a organização espetacular reforça a si mesma, pois não foi questionada em sua totalidade e porque a mercadoria não foi puramente e simplesmente atacada. Portanto, uma ajuda em uma agitação artificial que encena a destruição espetacular com o risco de incitar uma contra-ideologia, que pode ser a restauração da ordem e, em todos os casos, é baseada no setor não-atacado da mercadoria (estas notas de síntese deve , obviamente, ser levadas mais longe e devem ser corrigidas). Também seria bom se nós pudéssemos ter um observador na próxima greve liderada pelo wildcat; sugestão feita por Tony [Verlaan], um texto para edição de número 13 [2] poderia analisar as possibilidades da revolução na URSS, uma ideia que foi desenvolvida por François[de Beaulieu].

4. De acordo com o método prático de digressão, seria necessário mostrar claramente, de uma forma geral e citando casos particulares, a diferença que existe entre a passividade no meio social do trabalhador e a riqueza concreta de suas possibilidades de ação; também é importante que não sejamos vagos em nossas ideias, mas descrever a extensão teórico-prática de todos os gestos que provocam a destruição da mercadoria, isto é, para restaurar a teoria de que o movimento real da revolução, de fato, existe. Eu insisto mais uma vez que para espalhar essas críticas no meio social dos trabalhadores, nós devemos definir nós mesmo historicamente e com precisão. É nesse mesmo contexto que é necessário reativar nossa teses essenciais, em particular, aquelas que dizem respeito a superação. É também a ocasião para opor ‘’ o ataque contra o mundo das mercadorias,’’ no qual nós somos partidários, e o terror no estilo do proletariado de esquerda [3], que um dia desses nos conduzira a um confronto com as forças dominantes.

5. Por causa da importância da distribuição da edição de nº 13 e especialmente ‘’O Manifesto’’ [4] é talvez, a partir de agora, essencial estudar as novas formas de informações contundentes, seguindo as resoluções feitas por Chirstian [Sebastiani] e por Rene-Donatien [Vienet]. Como consequência dos nossos problemas financeiros, pode-se imaginar  a impressão de um falso jornal chamado ‘’Combat’’(formato pequeno, quatro páginas, papéis vagabundos, e má impressão) da literatura ultra-moderna?

 Escrito por Raoul Vaneigem, 21/04/1970. Traduzido do francês para o inglês por NOT BORED! Agosto 2004.

 Nota do tradutor:

[1] parti-pris(opinião fixa ou prejuízo)

[2] Os situacionistas franceses planejaram de publicar a décima terceira edição de seu jornal L’Internationale Situationniste, mas infelizmente, isso nunca veio a acontecer.

[3] Um descendente da União de Jovens Comunistas, La Gauche Proletarienne(O proletariado de esquerda), foi fundado em 1969. O grupo é talvez melhor conhecido pela seus fortes laços com o etablissement, que é a implantação de seus membros em fábricas. O grupo dissolveu-se em 1973. Para a saber sobre a crítica de Vaneigem sobre o ‘’terroismo’’(O proletariado de esquerda não era um grupo terrorista), veja ‘Terrorismo ou Revolução

[4] Os situacionistas planejaram escrever e publicar o ‘’Manifesto Situacionistas’’ Nos mesmos moldes do ‘Manisfesto do partido Comunista’ de Marx e Engels (1848), no entanto, nunca aconteceu.

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