Althusser: sobre a Ideologia

De acordo com Althusser, a ideologia não reflete o mundo real mas representa a relação imaginária entre os indivíduos para o mundo real; Nisso, Althusser segue o termo Lacaniano de Ordem Imaginária, que se encontra a um passo do Real Lacaniano. Em outras palavras, nós estamos dentro da ideologia por dependermos da linguagem para estabelecer nossa realidade; diferentes ideologias são diferentes representações da nossa realidade social e imaginária, não uma representação do Real em si.

Texto originalmente publicado no site da Purdue University.

Louis Althusser

O filósofo francês marxista, Louis Althusser, baseou-se no trabalho do psicanalista Jacques Lacan para entender a função da ideologia na sociedade, ele afastou-se das antigas formas de compreensão marxista da Ideologia no intuito de obter uma nova compreensão para o seu tempo.

Acreditava-se que a ideologia criava o que era denominado de “falsa consciência”, uma falsa compreensão do modo como o mundo funciona (por exemplo, a supressão do fato de que os produtos que compramos nos mercados  são, de fato,  o resultado da exploração do trabalho). Althusser explica que para Marx “Ideologia é […] compreendida como uma construção imaginária cujo o estatuto é exatamente como o estatuto teórico do sonho entre os escritores antes de Freud. Esses escritores afirmavam que os sonhos eram puramente imaginários, ou seja, nulo, resultado dos “resíduos do dia”. Althusser, pelo contrário, aproxima sua compreensão da ideologia com a compreensão lacaniana da “realidade”, o mundo que construímos a nossa volta após nossa entrada na ordem simbólica.

Camisa Marx

Para Althusser, como para Lacan, é impossível ter acesso as “condições reais da existência” devido à nossa dependência da linguagem. No entanto, através de uma abordagem rigorosa da sociedade, economia e história, nós podemos chegar pelo menos perto de perceber  o modo como somos inscritos na ideologia por processos complexos de reconhecimento. O pensamento de Althusser sobre a ideologia influenciou vários pensadores marxistas importantes, incluindo Chantalle Mouffe, Ernesto Laclau, Slavoj Zizek e Fredric Jameson.

Althusser postulou uma série de hipóteses onde ele procura esclarecer sua ideias sobre a ideologia.

  • A Ideologia representa a relação imaginária entre os indivíduos com suas condições reais de existência. O modo tradicional de entender a ideologia levaram pensadores Marxistas a mostrar as falsidades ideológicas apontando para o mundo real que é escondido pela ideologia. (Por exemplo,  a base econômica “real” para a ideologia). De acordo com Althusser, a ideologia não reflete o mundo real mas representa a relação imaginária entre os indivíduos para o mundo real; Nisso, Althusser segue o termo Lacaniano de Ordem Imaginária[1], que se encontra a um passo do Real Lacaniano[2]. Em outras palavras, nós estamos dentro da ideologia por dependermos da linguagem para estabelecer nossa realidade; diferentes ideologias são diferentes representações da nossa realidade social e imaginária, não uma representação do Real em si.
  • A ideologia possui uma existência material. Althusser afirma que a ideologia compreende uma existência material pois “uma ideologia sempre existe em um aparelho, em sua prática ou de práticas.” Ela sempre se manifesta através de ações, que estão inseridas em práticas, por exemplo, rituais, comportamentos convencionais etc. Althusser em suas buscas, procura adotar a fórmula de crença desenvolvida por Pascal: “Em outras palavras, Pascal sugere ‘Ajoelhem-se, movam suas bocas em orações, e vocês acreditarão”. Esse é o nosso desempenho na relação que desenvolvemos com os outros e para as instituições sociais que nos remetem continuamente como sujeitos.
  • “Toda ideologia interpela o individuo concreto como sujeitos concreto.” De acordo com Althusser, o propósito principal da ideologia é “constituir Individuos independentes como sujeitos dependentes”. A ideologia se encontra tão difundida que em sua constituição do sujeito forma nossa própria realidade se estabelecendo como a “verdade” e o “óbvio”. Althusser nos dá o exemplo da nossa reação em cumprimentar as pessoas pelas ruas: “O ritual de reconhecimento ideológico [… ] nos garante que somos, de fato, individuais, concretos, distinguíveis e naturalmente individuo insubstituíveis.” Através dessa “interpelação”, os indivíduos são transformados em sujeitos. Outro exemplo elucidado por Althusser vem de um policial dizendo: “Ei, você aí!” “Supondo essa cena teórica o indivíduo vira-se para atender ao policial, e através dessa mera conversão física de cento-e-oitenta graus, ele se torna um sujeito – o próprio fato de que nós não percebermos essa interação como um ato ideológico nos mostra o quão poderosa a ideologia é por si só: O que, assim, parece tomar partido fora da ideologia (para ser preciso, nas ruas), na realidade toma partido na própria ideologia. […] E isso explica o motivo de que aqueles que se encontram ideologia adentro acreditam estar fora dela: um dos efeitos da ideologia é a degeneração prática do caráter ideológico da mesma: ela nunca irá dizer “Eu sou ideológica.”
  • Os indivíduos são sempre sujeitos. Embora ele apresente seu exemplo da interpelação de uma forma temporal ( Eu sou interpelado, logo, eu me torno um sujeito – eu entro para a ideologia), Althusser deixa bem claro que o “tornar-se-sujeito” ocorre antes mesmo de nós nascermos. “Essa proposta pode parecer paradoxal” Althusser admite, no entanto “um indivíduo é sempre um sujeito mesmo antes dele nascer […] uma realidade simples, acessível à todos.” Mesmo antes de uma criança nascer, “temos a certeza de antemão que a criança receberá o nome do pai, e por tanto, ela irá possuir uma identidade e será insubstituível. Antes de nascer a criança já se encontra como um sujeito, classificada como sujeito pela configuração ideológica familiar específica na qual ela é esperada.” Assim, novamente, Althusser recorre ao pensamento lacaniano, nesse caso, o modo como Lacan compreende o termo O-Nome-do-pai”. A maioria dos indivíduos aceitam sua auto-constituição ideológica como “realidade” ou “natureza” e portanto raramente entram em conflito com o aparato repressivo do estado, que é projetado para qualquer um que aceite a ideologia dominante. A hegemonia é menos dependente desses aparelhos repressivos do estado assim como a policia é menos dependente dos Aparelhos ideológicos do estado (AIE), que por meio da ideologia é imposta em todos os sujeitos. Como Althusser declarou, “o indivíduo é interpelado como um sujeito (livre) para que ele possa obedecer livremente as ordens daquele que formula sua sujeição, ou seja, para que sua sujeição seja aceita (livremente). Para que ele faça os gestos e as ações de sua sujeição sozinho (de livre e espontânea vontade).

Referências

[1] Ordem Imaginária: O narcisismo fundamental pelo qual o sujeito humano cria fantasias e imagens de si próprio e seu objeto de desejo ideal, de acordo com Lacan. O que deve ser lembrado é que para Lacan esse “reino imaginário” continua a exercer sua influência ao longo da vida do adulto e não apenas suplantada nas ações do sujeito em sua infância na sua Ordem Simbólica. De acordo com Lacan o Imaginário e o Simbólico estão  interligados e trabalham com o Real.

[2] O Real Lacaniano: O estado de natureza pelo qual nós temos sempre sido cortados pela nossa entrada na linguagem. Apenas como recém-nascidos chegamos perto desse estado de natureza, um estado em que não há nada, somente necessidade. A criança precisa e procura por satisfazer suas necessidades que não possui nenhum sentido e motivo de separação entre suas necessidades e o mundo externo ou mundo dos outros. Por essa razão, Lacan apresenta esse estado de natureza como um tempo de completude que é subsequentemente perdida pela nossa entrada na linguagem. Como Lacan gostava de dizer ” o real é impossível” – na medida em que não podemos expressar em linguagem porque a própria entrada para a linguagem marca a nossa separação irrevogável do real. Ainda assim, o real continua a exercer a sua influência ao longo de nossas vidas adultas, uma vez que é a rocha contra a qual todas as nossas fantasias e estruturas linguísticas colidem e em ultima instância falham.

5 Comments

  1. Muito bom, creio que o tema central está nesta oração:
    “A hegemonia é menos dependente desses aparelhos repressivos do estado assim como a policia é menos dependente dos Aparelhos ideológicos do estado (AIE), que por meio da ideologia é imposta em todos os sujeitos.”
    Para mim pelo menos faz muito sentido, pelo menos depois de se ter uma boa noção foucaultiana de repressão horizontal, além do termo “hegemonia”, se esta foi usada integralmente ou próxima da concepção de Gramsci…

Deixe uma resposta