A mídia, o jornalismo e o crack

De onde vem o crack que chega à região da Luz? Quem o fornece? Quem o vende? Quem lucra com o consumo da droga? Não se sabe. Nos últimos dias, alguma matéria foi escrita a fim de responder a essas perguntas? O que importa é aproveitar ao máximo a fórmula presente no roteiro de várias histórias românticas.

A ex-modelo Loemy, 24, anda pela cracolandia no centro de Sao Paulo a procura de pedras de crack
Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress

Enquanto este texto é escrito, o telejornal mais assistido do país leva ao ar uma reportagem sobre o aumento no número de infecções por tuberculose, sífilis e HIV entre dependentes químicos que vivem na região da “Cracolândia”, em São Paulo. No mesmo instante, o F5, site de entretenimento da Folha de S. Paulo, divulga a notícia de que a ex-modelo Loemy Marques, 24 anos, capa da revista Veja SP no último fim de semana, vai aparecer transformada no palco do programa de Rodrigo Faro, na Rede Record, no próximo domingo, 30. Desdobramentos do fenômeno que entrou na agenda dos veículos de comunicação esta semana. O crack? Não. O crack está aí há tanto tempo; mesmo uma região é alcunhada a partir do seu nome; já foram produzidas tantas reportagens com o tema. Fenômeno, novidade, são a loira magra, de 1,79 m de altura, olhos verdes, que não consegue passar despercebida em meio ao fluxo – a aglomeração de “viciados”, como reporta o site da revista -, presente nas ruas do centro da capital.

De onde vem o crack que chega à região da Luz? Quem o fornece? Quem o vende? Quem lucra com o consumo da droga? Não se sabe. Nos últimos dias, alguma matéria foi escrita a fim de responder a essas perguntas? O que importa é aproveitar ao máximo a fórmula presente no roteiro de várias histórias românticas. Personagem X, nascida em classe Y, de repente vê-se num mundo ao qual não pertence, e no qual tem de lidar com grandes dificuldades antes de voltar a ascender à sua classe de origem, uma vez que é seu lugar por destino. Em substituição: Loemy Marques, loira, magra, olhos de esmeralda, jovem que tinha “tudo para dar certo”, cai num mundo composto principalmente por seres humanos de outras cores, que têm igualmente de lidar com as mesmas dificuldades (mas isso não importa), e lá vive até que alguém a nota e oferece-lhe ajuda para voltar ao lugar ao qual pertence a fim de viver novamente feliz.

No caso de Loemy, por exemplo, a ajuda depende da exclusividade. Em notícia da última segunda-feira, 24, o jornal Folha de S. Paulo publicava que produtores de TV disputavam a história da ex-modelo. Um maço de cigarros, uma barra de chocolate e a ida para um hotel são algumas das moedas de troca.

O texto da revista Veja SP que retrata o perfil de Loemy diz que, quando a ex-modelo não está sob o efeito da droga, tem consciência do seu “estágio atual de degradação física e moral”. Pergunta: teriam a mídia em geral, e o jornalismo – que coloca na categoria “entretenimento” um caso de sofrimento humano -, igual consciência de degradação de si próprios?

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