Cadê a água? O boi bebeu

Quem você acha que é o grande vilão da falta d'água? É o seu vizinho, que gosta de se demorar no banho? Ou quem sabe aquele lava-rápido da esquina? Não, com certeza deve ser aquela indústria de bebidas... Nem um, nem outro.

Já faz alguns meses que assistimos à lenta e contínua agonia do Sistema Cantareira. Nos outros reservatórios, que abastecem o populoso estado de São Paulo, a situação não é muito diferente. O volume de água armazenada vai caindo 0,1% a cada dia. As chuvas são insuficientes para conter essa queda constante. O colapso se aproxima como um destino inescapável.

Mas, afinal, onde foi parar a água?

A resposta a essa pergunta geralmente passa pela inépcia do governo ou pelos caprichos da Natureza. Ora se aponta para a falta de investimentos em ampliação dos sistemas de armazenamento e na redução de perdas na distribuição. Ora se indica um comportamento atípico do regime de chuvas. Na verdade, uma combinação entre esses dois fatores explicaria melhor o momento catastrófico que vivemos.

Mas tem mais.

Quem você acha que é o grande vilão da falta d’água? É o seu vizinho, que gosta de se demorar no banho? Ou quem sabe aquele lava-rápido da esquina? Não, com certeza deve ser aquela indústria de bebidas… Nem um, nem outro. O grande consumidor de água, com larga vantagem, é o setor agropecuário.

Não que as medidas de economia doméstica, assim como no comércio e na indústria sejam dispensáveis. Mas, proporcionalmente, a agricultura e pecuária utilizam cerca de 82,8% da água, conforme dados da ANA, de 2013. Segundo esses dados, a indústria responde por 6,7% do consumo, enquanto o abastecimento humano, por 10,6%.

Créditos do infográfico: Mídia NINJA
Créditos do infográfico: Mídia NINJA

Agora, lembremos que o agronegócio, como gostam de alardear os representantes desse setor, tornou-se uma das principais forças da nossa economia. As exportações de soja e carne bovina estão bombando. Devemos nos orgulhar disso, certo?

Se não nos importarmos com o fato de que boa parte da nossa água está sendo exportada junto com essas commodities, sem que isso agregue qualquer valor a elas, podemos ceder a esse ufanismo fanfarrão.

O fato é que a grande disponibilidade de água era uma grande vantagem competitiva para esses nossos produtos no mercado internacional. Tínhamos água pra dar e vender. E estávamos dando de barato, junto com a soja ou a carne exportada – um movimento batizado por A. J. Allan, professor da Universidade de Londres, de exportação de água virtual.

Um estudo do NEPO/UNICAMP, encabeçado pelo professor Roberto do Carmo, dá conta de que, só em 2005, o Brasil exportou, junto com as principais commodities agropecuárias, as seguintes quantidades de água (em bilhões de m³): soja – 50,3; carne – 34,0; açúcar – 2,4. Vale lembrar que um metro cúbico equivale a 1.000 litros. Portanto, em 2005, o Brasil exportou – só com esses produtos – nada mais nada menos que 86.800.000.000.000 (oitenta e seis trilhões e oitocentos bilhões) de litros de água virtual! Não nos esqueçamos, ainda, que de 2005 até hoje o agronegócio só cresceu…

Assim, fica difícil pensar em solução para qualquer crise hídrica que não passe por uma racionalização do uso da água no campo. O que, como não poderia deixar de ser, levanta novamente a questão sobre a viabilidade do modelo agropecuário baseado na grande propriedade exportadora. O latifúndio, que já foi apontado como causa de grandes mazelas sociais, pode agora nos privar da água.

Então eu me lembro dos versos daquela velha brincadeira de criança:

Cadê o toicinho que tava aqui?

O gato comeu.

Cadê o gato?

Foi pro mato.

Cadê o mato?

O fogo queimou.

Cadê o fogo?

A água apagou.

Cadê a água?

O boi bebeu.

[…]

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