Estupro: coletivo e corretivo

A reportagem "A marcha dos colchões: o fardo de uma estudante de arte", de Audrey Furlaneto, presente no caderno "Esquina" da Revista Piauí deste mês, traz a história de Sulkowicz, ao mesmo tempo que fala sobre a cobertura do ato "National carry that weight together day of action" (Dia nacional de carregar esse fardo juntos), ocorrido em outubro passado.

Uma em cada três mulheres no planeta já foi vítima de estupro – Foto: Divulgação

Emma Sulkowicz, 21 anos, é uma estudante de arte da Universidade Columbia de Nova York. Em setembro deste ano, ela tornou-se conhecida pela intervenção artística “Carry that weight (Carregue esse fardo)”, uma performance que consiste em carregar um colchão por todos os espaços do campus onde estuda – desde o alojamento em que vive à sala de aula – a fim de chamar a atenção para um problema que atinge 1 bilhão de mulheres no mundo (ou, para ser mais exato, uma em cada três mulheres do planeta), de acordo com Relatório da Anistia Internacional: o estupro.

A reportagem “A marcha dos colchões: o fardo de uma estudante de arte”, de Audrey Furlaneto, presente no caderno “Esquina” da Revista Piauí deste mês, traz a história de Sulkowicz, ao mesmo tempo que fala sobre a cobertura do ato “National carry that weight together day of action” (Dia nacional de carregar esse fardo juntos), ocorrido em outubro passado.

“Por que Emma carrega um colchão?”, você deve perguntar. Porque foi sobre ele, há dois anos, que Sulkowicz foi abusada sexualmente por outro aluno da instituição. Após a agressão, a estudante de arte entrou com pedido de expulsão do aluno da universidade, mas teve o requerimento negado, mesmo com relatos de outras duas mulheres que disseram ter sido vítimas do mesmo estudante. A intervenção artística de Emma teve início logo depois do parecer da Columbia.

Emma Sulkowicz – Foto: NYPost

O caso parece familiar? Para quem tem acompanhado o noticiário sobre os estupros praticados dentro da Faculdade de Medicina da USP, a maior universidade do país, sim. Em novembro passado, representantes do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da instituição afirmaram haver dezenas de relatos de abusos, também praticados em outras unidades, durante audiência pública realizada pela Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp).

Tanto a direção da Universidade Columbia de Nova York, como a direção da FMUSP foram acusadas por alunos e alunas de omissão dos casos, a fim de proteger a reputação das entidades de ensino. Tal atitude, no fim das contas, dá proteção, também, aos estupradores, que violam não só o corpo, mas os estados moral e psicoemocional das vítimas.

O Ministério da Justiça do Brasil aponta que 50 mil mulheres são estupradas por ano no país. O número é assustador. Mais assustador ainda é ter de ouvir um parlamentar, que recebeu 464.572 votos nas últimas eleições, dizer a uma deputada que “não a estupraria porque ela não merece; porque ela é feia, não faz o seu tipo”. E quantas pessoas não saíram em defesa do paladino do retrocesso cognitivo, seja nas redes sociais, ou em comentários nos sites de alguns dos principais jornais do país?

Surpresa? Nenhuma. A pesquisa “Tolerância social à violência contra as mulheres“, realizada pelo SIPS/IPEA (Sistema de Indicadores de Percepção Social), entre maio e junho de 2013, mostra que a maioria dos consultados pelo instituto acredita que o comportamento das mulheres pode induzir ao estupro. Confira, por exemplo, os dois gráficos abaixo:

Fonte: SIPS/IPEA

O SIPS/IPEA ouviu 3.810 pessoas para a pesquisa, sendo 66,5% mulheres e 33,5% homens. Do número total, 58%, ou seja, a maior parte dos entrevistados, culpabiliza a mulher pela violência sexual da qual é vítima. “Se elas soubessem comportar-se melhor, não seriam estupradas”. Em síntese: é a continuidade do pensamento histórico de uma sociedade na qual a mulher tem de ser castigada por “tentar” aos homens. O estupro é corretivo de um coletivo. Até quando?

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