Nietzsche e o Estado grego

Como Nietzsche enxergava a função do Estado? No texto a respeito do Estado Grego, em seus Cinco Prefácios para Cinco Livros Não Escritos, o autor nos dá algumas dicas.

Da série O Estado.

Nietzsche e o Estado
Friedrich Nietzsche

Para Nietzsche, em um momento da história houve uma mudança: o trabalho deixou de ser algo nojento, odiado, para se tornar uma categoria de primeira importância na sociedade. Enquanto na Grécia Antiga o trabalho era algo destinado aos escravos, já que os livres praticavam a arte e somente se submetiam ao esforço físico nos momentos de liberar a criação artística, hoje o trabalho é orgulho de todos, é até mesmo algo que define o caráter. Diz o alemão,

Os gregos não precisam dessas alucinações conceituais, entre eles se expressa com aterradora sinceridade que o trabalho é um ultraje – e uma sabedoria mais velada, que raramente vem à fala, mas que vive por toda parte, leva à conclusão de que as coisas humanas também são um nada ultrajante e lastimável e a “sombra de um sonho”. O trabalho é um ultraje porque a existência não tem valor em si mesma: mas ainda que essa existência brilhe com o adorno sedutor das ilusões artísticas, e então pareça realmente ter um valor em si mesma, ainda assim vale aquela frase segundo a qual o trabalho é um ultraje – no sentimento da impossibilidade de que, lutando pela mera sobrevivência, o homem possa ser um artista [Cinco Prefácios Para Cinco Livros Não Escritos].

Veja também: Nietzsche sobre o Pathos da verdade

O problema, segundo o autor, é que o escravo conseguiu tomar o posto do artista e agora é ele que define o que é cada coisa. Por conta disso a noção do trabalho que dignifica é tão valiosa. Ele continua com seus ataques aos valores ocidentais da dignidade do trabalho,

Tais fantasmas, como a dignidade do homem e a dignidade do trabalho, são os produtos indigentes da escravidão que se esconde de si mesma. Tempo funesto, em que o escravo precisa de tais conceitos, em que é incitado para a reflexão sobre si e sobre aquilo que está além dele! Sedutor funesto, que aniquilou a situação de inocência do escravo com o fruto da árvore do conhecimento! Agora ele tem que se entreter dia após dia com tais mentiras transparentes, que todo bom observador reconhece na pretensa “igualdade para todos” e nos chamados “direitos do homem”, do homem como tal, ou na dignidade do trabalho [Idem].

O trabalho, assim como a escravidão, era considerado pelos gregos como algo ultrajoso, mas inevitável, argumenta o autor. E é a partir disso que o Estado e a cultura devem ser pensados. A cultura tem dentro de si um poço de crueldade e o Estado é a manutenção de toda essa força sanguinária.

O Estado é o local em que o forte domina e explora o fraco. É a maneira do forte se utilizar do fraco, de conseguir viver plenamente a vida, mas sempre em detrimento da vida do escravo. Nas palavras do próprio autor,

Para que haja um solo mais largo, profundo e fértil onde a arte se desenvolva, a imensa maioria tem que se submeter como escrava ao serviço de uma minoria, ultrapassando a medida de necessidades individuais e de esforços inevitáveis pela vida. É sobre suas despesas, por seu trabalho extra, que aquela classe privilegiada deve ver-se liberada da luta pela existência, para então gerar e satisfazer um novo mundo de necessidade [Idem].

Sendo assim, a necessidade propriamente digna é aquela gerada (e satisfeita) num mundo de forças criativas, de senhores. Ou seja, é uma necessidade que está além da comida e bebida – que serão armazenados, feitos, cozinhados, filtrados e etc pelo escravos – mas está dentro de um mundo de necessidades propriamente artísticas.Se livrando do mundo da necessidade pela sobrevivência, os senhores entram no mundo das necessidades da vontade forte, da vontade potência. Este novo mundo é o do dominador, do animal livre e forte. É o mundo de um novo tipo de homem.

E é aqui que vemos a verdade da cultura: a cultura é crueldade, é sangue e subjugação. A cultura dos fortes é um exemplo trágico e necessário da vida real, sob as regras da vontade forte,

Por isso, podemos comparar até mesmo a cultura magnífica [dos fortes] com um vencedor manchado de sangue, que em seu desfile triunfal arrasta os vencidos como escravos, amarrados a seu carro: e eles, a quem um poder benfeitor deixou cegos, continuam gritando, quase esmagados pelas rodas do carro: “dignidade do trabalho!”, “Dignidade do homem!” [Idem].

O Estado nasce, desta forma, a partir da moral dos nobres, fruto do direito primário de tomar para si e de escravizar o derrotado. Este direito, como qualquer direito, é resultado da violência. A força é a grande mãe do direito. O Estado, então, é a ferramenta para pressionar a massa a favor da socialização, o que significa que ele é a maneira pela qual os senhores utilizam de sua força de maneira legítima para ensinar os servos como serem servos e mantê-los sob controle.

Sendo uma força contínua de fadiga para muitos homens, de crueldade e opressão, é com o Estado que a sociedade consegue avançar, ir além das limitações dos grupos familiares, conseguir empreender, conquistar e criar, ao mesmo tempo, é com o Estado que as guerras mais sangrentas nascem, já que todo o impulso de dominação acaba se concentrando em momentos esparsos. Nietzsche resume,

No meio dessa misteriosa conexão que pressentimos entre o estado e a arte, cobiça política e geração artística, campo de batalha e obra de arte, entendemos por estado, como já foi dito, a mola de ferro que impele o processo social. Sem estado, no natural bellum omnium contra omnes, a sociedade não pode de modo algum lançar raízes em uma escala maior e além do âmbito familiar. Agora, após a formação do estado por toda parte, o impulso do bellum omnium contra omnes, de tempos em tempos, concentra-se em terríveis nuvens de guerra dos povos, descarregando-se como que em trovões e relâmpagos mais raros, mas também muito mais fortes. Nos intervalos, contudo, sobra tempo para a sociedade germinar e verdejar, sob o efeito daquele bellum concentrado e dirigido para dentro, a fim de deixar a flor luminosa do gênio brotar assim que surjam alguns dias mais quentes [Idem].

O Estado e a Guerra

estado e nietzsche
Para Nietzsche, as sociedade pacificadas são sociedade controladas pelos fracos.

Mais adiante, Nietzsche lembra de como o Estado, quando nas mãos de burocratas guiados pelo instinto do capitalismo financeiro , se torna somente uma força para a satisfação de suas vontades fracas. O que Nietzsache descreve é o espírito burguês da vida destinada ao lucro e dos esforços para conseguir uma sociedade pacificada com mercados duradouros.

É assim que o burguês, fraco por essência, destina sua liderança nos Estados em que participa para fazer da comunidade política um local próprio para tomadas de posição seguras.

É neste sentido que Nietzsche faz seu louvor à guerra. Segundo o alemão, o Estado não tem fundamento no medo da guerra (como diria Hobbes), mas sim no amor à terra natal e ao príncipe. O medo da guerra vem sempre dos monetaristas, da burguesia internacional, em suma, dos fracos que tem uma vida que não vale à pena. Mas qual vida vale a pena?

Antes de responder essa pergunta, voltemos ao próprio Nietzsche: “nas castas superiores nota-se um pouco melhor o que está em jogo, no fundo, nesse processo: a geração do gênio militar – que conhecemos como o fundador original do estado”.

A dignidade vem da vontade de potência: ela existe quando o sujeito se põe como meio para o gênio militar.

Eu teria de pensar que o homem guerreiro é um meio para o gênio militar, e que seu trabalho também é apenas um meio para o mesmo gênio; não é como homem em sentido absoluto e como não-gênio que lhe cabe um grau de dignidade, mas ele como meio para o gênio – que também pode admirar seu aniquilamento como meio para a obra de arte guerreira [Idem].

Desta forma, o homem não é digno por si. Ele não é digno por essência, mas somente através de uma prática que o dignifique.

O que se mostra aqui em um único exemplo vale do sentido mais geral: cada homem, como conjunto de seus atos, tem dignidade à medida que é instrumento do gênio, de modo consciente ou inconsciente; a conseqüência ética que se conclui imediatamente daí é que o “homem em si”, o homem em sentido absoluto não possui nem dignidade, nem direito, nem deveres: o homem só pode justificar sua existência como a de um ser totalmente determinado, servindo a finalidades inconscientes[Idem].

O que interessa é a nova química produzida pelas múltiplas afinidades individuais ao objetivo do gênio. A sociedade como uma massa caótica é substituída por uma estrutura piramidal de castas militares, sob a qual a sociedade guerreira se ergue e possibilita o funcionamento do Estado conforme dito na primeira parte do presente artigo.

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