Grécia mostra o que pode acontecer quando jovens se revoltam contra elites corruptas

A ascensão do Syriza não pode ser apenas explicada pela crise na zona do Euro: uma nova geração de profissionais já não tolera mais oligarquias sonegadoras.

Artigo de Paul Mason, publicado originalmente em The Guardian.com.

Supporters cheer Alexis Tsipras on 22 January 2015
Eleitores do Syriza vibram com Alexis Tsipras, na última quinta-feira, 22. O ataque do candidato contra a corrupção ressoou massivamente entre os mais jovens. Foto: Lousa Gouliamaki/AFP/Getty

Na sede do Syriza, a fumaça de cigarro evola pela cantina e ganha formas. Se elas pudessem refletir as imagens nas mentes dos homens inclinados sobre seus cafés pretos, provavelmente seriam as dos rostos de Che Guevara, ou Aris Velouchiotis, soldado da resistência grega na Segunda Guerra Mundial. Esses homens são veteranos de esquerda que esperavam terminar seus dias como professores de assuntos esotéricos, tais como desenvolvimento econômico, direitos humanos e quem matou quem na guerra civil. Em vez disso, eles estão à beira do poder.

Café preto e pretzels duros são tudo o que a cantina oferece, junto à possibilidade de contrair câncer de pulmão. Mas às vésperas das eleições, seus ocupantes me parecem confiantes, se preocupados.

Contudo, o diretório do Syriza não é lugar para tomar conhecimento sobre a radicalização. O fato de um partido com um “comitê centralizado” chegar perto do poder não tem nada a ver com uma repentina guinada do pensamento grego ao marxismo. É, ao contrário, prova de três coisas: a crise estratégica da zona do Euro, a determinação da elite grega em aderir a um sistema corrupto, e um novo modo de pensar entre os mais jovens.

Destas, a crise na zona do Euro é a mais fácil de compreender – uma vez que suas consequências podem ser facilmente identificadas nas figuras macroeconômicas. O FMI previu que a Grécia cresceria como resultado do pacote de socorro econômico de 2010. Ao invés disso, a economia encolheu 25%. Salários baixaram na mesma porcentagem. O desemprego entre jovens chega a 60% – isso entre aqueles que ainda continuam no país.

Ora o colapso da economia – que todos os gregos, de esquerda e de direita, amargam – não é só encarado como um colapso material. Demonstrou a completa miopia da elite política europeia. Seja num drama, ou numa comédia, não existe figura mais risível do que um homem rico que não sabe o que faz. Nos últimos quatro anos, a troika – a Comissão Europeia, o FMI e o Banco Central Europeu – providenciou aos gregos nada mais que um espetáculo.

Quanto às oligarquias gregas, a desordem entre elas há muito sinalizava a crise. Essas não dizem respeito somente aos magnatas da navegação, cujas indústrias não pagam impostos, mas também aos chefes de grupos de energia e construção e clubes de futebol. Como um importante economista grego me disse na semana passada: “Essas pessoas evitaram pagar impostos durante a ditadura de Metaxas, a ocupação nazista, a guerra civil e a junta militar”. Elas não tinham nenhuma intenção de pagar impostos quando a troika começou a cobrar o balanço das contas públicas depois de 2010, o que fez recair o fardo sobre os gregos presos ao sistema PAYE (pay-as-you-earn, ou “pague o quanto você ganha”, em tradução literal) – uma mão-de-obra de 3.5 milhões de pessoas que foi reduzida para 2.5 milhões durante a crise.

As oligarquias permitiram que o Estado grego se tornasse um campo de batalhas de interesses conflitantes. Tal como Yiannis Palaiologos, um jornalista grego, afirma em um recente livro sobre a crise, há “uma perversa irresponsabilidade, uma sensação de que ninguém está encarregado, ninguém quer ou é capaz de agir como guardião do bem comum”.

Mas o impacto mais corrosivo das oligarquias é sobre as camadas da sociedade abaixo delas. “Lá vai X”, os gregos dizem uns aos outros enquanto os ricos se dirigem às suas mesas em bares da moda. “Ele controla Y no parlamento e tem um caso com Z”. É como uma novela, mas real, e vários gregos são condescendentemente hipnotizados por isso.
Nas últimas três eleições o objetivo do Syriza foi tratar politicamente a questão das oligarquias. A palavra grega para eles é “emaranhados” – e eles estavam, acima de tudo, emaranhados em meio ao duopólio político. Porque Syriza não os deve nada, seu líder, Alexis Tsipras, foi capaz de dar às questões como corrupção e sonegação de impostos rápida progressão retórica – e isso ressonou massivamente entre os mais jovens.

Alexis Tsipras, líder do Syriza, em Atenas, no último dia 22. Foto: AGF/REX

E eis o porquê. Em uma economia de mercado funcional, o clássico casal em um restaurante requintado é formado por pessoas jovens, próximas em idade. Nas minhas incursões pela crise europeia – de Dublin a Atenas – eu tenho notado que o clássico casal numa economia deficiente é formado por um homem de cabelos grisalhos e uma mulher de vinte e poucos anos. É a história dos velhos homens com poderes oligárquicos ostentando suas riqueza e influência sem qualquer desaprovação.

A juventude é usurpada quando oligarquias, corrupção e elites políticas reprimem a meritocracia. O emergir repentino de pequenos partidos de centro liderados por jovens profissionais carismáticos na Grécia é prova de que essa geração já tolerou o bastante. Mas enquanto eles deliberavam suas ações, Tsipras já estava lá.

De fora, a Grécia parece um gigante negativo: mas o que está por trás da ascensão de uma esquerda radical é a urgência de novos valores positivos – juntamente a uma camada de jovens mais revolucionários do que aqueles que formam a base natural de apoio do Syriza. Estes são os clássicos valores de uma geração integrada: autoconfiança, criatividade, o desejo de tratar a vida como um experimento social, uma percepção global.

Quando o Manhã Dourada surgiu como uma violenta e assustadora força neonazista, com – naquela época – 14% de apoio, o que surpreendeu a juventude engajada foi quanto a elite política se gratificou com isso. Pessoas que já conheciam a história puderam ver um tardio e bruxuleante Weimar diante dos seus olhos: nazistas malucos honrados por grandes homens de negócios famintos por poder.

Tenho coberto a crise econômica na Grécia desde o início, e o que muda em 2015 é: Syriza já ganhou sólido suporte de cerca de 25% dos eleitores falando sobre os problemas da Europa e da economia. E agora uma grande porção do eleitorado grego, para além dos jovens, sinaliza que também está cheia da corrupção e das elites.

A Grécia, embora uma nação excluída, sempre foi significante, também: isso é o que acontece quando o capitalismo moderno falha. Porque há burocratas inaptos e elites corruptas em todo lugar: somente os trilhões de dólares criados e injetados na economia das nações a fim de evitar o colapso os protege do escrutínio que eles têm recebido na Grécia.

Encaramos dois anos de incerteza eleitoral na Europa, com a esquerda e a direita disputando o poder na Espanha, França e Holanda. Alguns proclamam que esse é “o fim do neoliberalismo”.

Não estou tão certo disso. A única certeza é que a Grécia mostra como poderia terminar.

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