“Ele nos trata como insignificantes”, diz professora sobre Alckmin

O que uma grevista tem a dizer sobre a paralisação dos professores do Estado de São Paulo? Veja aqui a entrevista exclusiva de Marta Silva para o Colunas Tortas.

alckminA greve dos professores do estado de São Paulo, que começou no dia 16 deste mês, já tem adesão de mais da metade da categoria. Alckmin segue pressionado para conceder as demandas exigidas, como aumento de 75%, aumento no vale refeição e vale transporte e melhores condições dentro das escolas.

Os professores conseguiram realizar uma grande assembleia no dia 20, com ato da avenida Paulista até a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, levando mais de 5 mil colegas de trabalho nas ruas.

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Em meio a isso tudo, parece ser imperativo dar voz àqueles que estão nas ruas e contrapor a argumentação de Alckmin, em que a categoria grevista seria motivada unicamente por um evento político (o ato no dia 13 de março, contra o avanço do conservadorismo no Brasil e em prol de reformas estruturais no governo. Marta Silva (nome fictício para conservar a integridade da entrevistada), concedeu uma entrevista exclusiva ao Colunas Tortas relatando o dia-a-dia nas escolas do estado de São Paulo, os sacrifícios a que os professores estão sujeitos e sua luta por melhores condições de trabalho.

Colunas Tortas – Alckmin costuma dizer que os professores receberam aumento há 8 meses e que o piso salarial é maior que o piso do país. Ele está mentindo? Se não, qual o motivo da greve?
Marta Silva – São vários os motivos da greve: no estado de São Paulo foi feito um levantamento pelo sindicato dos professores que confirmou o fechamento de 3 mil salas de aulas; o governo criou salas com até 100 alunos em algumas escolas, na região da zona leste temos escolas com 85 alunos na lista de chamada, sendo impossível para o professor lecionar; quando questionamos isso o governo disse que a lista era grande mas que os alunos desistiam da escola, ou seja, eles de certa forma incentivam a evasão de alunos quando montam salas com esse número; outro ponto crucial é o corte de verbas na educação, esse ano foram cerca de 900 milhões de reais. Com esse corte falta verba para tudo: papel higiênico, xerox, material didático e assim por diante. Fora que as escolas não receberam uma reforma nem verba para esta finalidade no inicio do ano, então várias estão destruidas, temos caso de escolas com o teto despencando e quadras que são verdadeiros criadouros de dengue. Também faltam carteiras e cadeiras para os alunos: a primeira aula sempre é perdida porque eles ficam atrás disso, então não tem como você dar a primeira aula do dia pra turma sem interromper para pegar carteiras e cadeiras.

O governo de SP também criou a “duzentena” que nada mais é do que a precarização na contratação de professores. Esses professores são contratados por até dois anos e depois cumprem a duzentena que significa que eles não poderão trabalhar durante 200 dias na rede pública, ou seja, hoje no Estado de São Paulo temos cerca de 20 mil professores desempregados pela duzentena e mesmo que eles consigam voltar sem o desmembramento das salas superlotadas não haverá aulas para que eles consigam trabalhar.

A questão salarial também pesa: temos o menor piso dos profissionais com formação superior, hoje a defasagem salarial chega a 75% e nosso vale alimentação é de R$ 8,00.

Colunas Tortas – O que te fez participar da greve dos professores?
Marta Silva –
Estou participando da greve porque com o fechamento de aulas na minha região fui obrigada a ficar em 3 escolas diferentes para cumprir a minha jornada de trabalho e receber o mínimo para sobreviver, também porque a desvalorização do professorado vem aumentando a cada dia e claro, em solidariedade aos meus amigos que estão cumprindo a duzentena e pelos alunos que merecem ser tratados com dignidade: com acesso a material didático, salas com até 25 alunos onde eles possam realmente aprender e tirar dúvidas.

Colunas Tortas – Como está a adesão dos professores ao redor do estado de SP?
Marta Silva –
A greve tem crescido a cada dia. Os comandos de greve que são formados por professores visitam as escolas, conversam com os que ainda não aderiram e com a comunidade e explicam nossas razões. Muitos pais e mães nos apoiam porque veem a situação que estamos: sem xerox, sem papel higiênico, salas lotadas, dificuldades de aprendizagem que poderiam ser diminuídas com o simples ato de diminuir o numero de alunos por turma.

Já somos pelo menos 100 mil professores parados em todo estado, alguns números falam em 136 mil professores, o que dá em torno de 59% da classe parada.

Colunas Tortas –  Há negociações com o governo estadual atualmente?
Marta Silva –
A APEOESP tem protocolado inúmeras reuniões para tentar negociar mas ainda não fomos recebidos. Esperamos poder negociar porque a situação das escolas está muito difícil. As salas lotadas prejudicam os alunos e também afeta a saúde mental dos professores porque é humanamente impossível lecionar para jovens diante de um cenário desses.

Colunas Tortas – O que Alckmin representa para a categoria dos professores?
Marta Silva –
Bom, o governador primeiro não admitiu que estávamos em greve, enviou circulares dizendo que era para colocar professores no nosso lugar (o que é ilegal e fere o direito a greve de todo trabalhador) e agora está tentando impedir que os comandos de greve entrem nas escolas.

Hoje ele já admitiu que ela existe, mas disse que não negocia com professores em greve,  O detalhe é que ele aumentou o próprio salário e o de seus secretários em janeiro e agora criou um decreto lei dizendo que nenhum servidor terá aumento esse ano.

Além disso, nos últimos anos, Alckmin não valorizou o magistério: não cumpre a lei do piso; pedidos de aposentadoria estão parados há anos, tem professores que já deveriam estar aposentados e não estão conseguindo se aposentar; a política de bônus que ele implementou nas escolas baseada no exame SARESP “mede” o quanto a escola avançou, mas ignora a realidade da educação publica, então poucos professores recebem o bonus e os salários continuam baixos demais. Outro ponto é que mesmo que estudemos o aumento salarial é irrisório, ele nos trata como insignificantes, não respeita os direitos trabalhistas dos professores contratados, criou a divisão do professorado em categorias ( “O” , efetivo, e estável) e não respeita a lei do 1/3 que prevê que um terço da nossa jornada seja para organizar trabalhos, planejamento e etc.
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