São Paulo tem nova casa do saber: Espaço Inanna renova o ar da crítica contemporânea

Conheça o Espaço Inanna Educação, local de leituras críticas e novos pensamentos.

Durante o curso “Kuir”, de Jota Mombaça. Foto: Inanna.

Ao entrar na casa 945 da rua Conselheiro Ramalho na Bela Vista, a primeira impressão que fica é o descontínuo. O local visitado não favorece as linhas retas ou a continuidade: a amarração do passado, presente e futuro num caminho coerente é deixada de lado e abre espaço a uma combinação imaginativa e imprevisível.

Esta casa absurda – com uma árvore cortando o seu interior – acolhe o Espaço Inanna Educação, espaço novo, mas com ideias maduras, que é a materialização do campo próprio para um saber livre, não institucionalizado. Seus cursos e diálogos promovem uma visão crítica e descolonialista da sociedade e dos próprios pensadores abordados (como Butler, Foucault, Preciado entre outros).

Para apresentar o Inanna, Carla Cristina Garcia, professora do departamento de Ciências Sociais da PUC-SP, Daniel Françoli Yago, psicólogo e mestrando pela PUC-SP e Pedro Mauricio Garcia Dotto, mestrando em direito também pela PUC-SP realizaram uma entrevista exclusiva com o Colunas Tortas, abriram as portas do espaço e permitiram que adentrássemos um pouco em suas perspectivas e horizontes.

Colunas Tortas – Como surgiu a ideia de estabelecer o Espaço Inanna no centro de São Paulo?

Carla Cristina Garcia – Eu tenho tentado formar uma grupo verdadeiramente de estudos, que não seja só eu falando e os outros prestando atenção há muito tempo. Eu queria uma coisa que não fosse institucional, por isso tento neste anos todos de professora, formar um grupo e gente que queira estudar, falar e fazer. Mas é  impossível, porque as pessoas são tão institucionalizadas que elas vão num sábado à tarde que eu vou repor aula, mas não vão num sábado à tarde porque elas querem discutir livremente um determinado texto.

E assim vem andando a minha vida: forma-se um grupo, não rola, desmancha porque as pessoas desistem. Há uns quatro ou cinco anos eu comecei de novo essa tentativa, devido a insistência de meus alunos e orientandos, e montamos o grupo Inanna para discutir questões do feminismo, sociedade disciplinar e todas essas coisas que a gente vai discutir por aqui.

Muita gente frequentava minhas aulas como ouvinte, mas não ia num sábado, quando não era aula, quando era para discutir a mesmíssima coisa, mas sem aquela “cara” de aula. Nesta primeira tentativa não funcionou e eu acabei desistindo, porque as pessoas tendem a não se comprometer quando você diz “você é livre”, elas não vão, mas quando vale falta, elas aparecem. O Marcelo, outro membro do Inanna, tentou retomar, mas não conseguiu devido aos mesmo problemas. Foi então quando nos reunimos para construir um espaço fora da PUC (pois nós usávamos o espaço da faculdade, sem autorização. Ocupávamos as salas vazias para discutir nossos textos), pois o próprio espaço institucional poderia prejudicar a proposta do grupo de estudos. Então decidimos fazer em um lugar diferente, um lugar que seria necessário cobrar para manter o local, mas onde elas poderiam aparecer se quisessem, sem o vínculo institucional.

Primeiramente tentamos um lugar que não funcionou, e então este espaço caiu de surpresa. O Fábio (integrante do Inanna) conheceu a Ponte (instituição de direitos humanos) que falou sobre o lugar, nós viemos para cá, adoramos o lugar e começamos no dia 7 de fevereiro e a nossa proposta é justamente tentar fazer em nossos cursos o que nós sempre queríamos fazer: propor discussões sobre feminismo, pós-colonialismo, sociedade contemporânea e suas crises, mas nós temos também a intenção de ter textos livres, produção coletiva de textos, acabar com a ideia do autor. Eu sei que é difícil não só por questão práticas como tempo, mas por questões internas, de se comprometer com uma ideia e participar a ponto de querer escrever, abrir mão de uma autoria, enfim, das propriedades privadas subjetivas. É o que a gente está apostando. Somos poucos ainda, mas no nosso evento “Travessias Libertárias” lotou, as pessoas ficaram todo o evento ouvindo falas sobre os mais diversos assuntos. No curso de sábado, sobre a história do pensamento político feminino, está lotado, chegaram até mais duas alunas novas.

Nós imaginamos que por não termos cursos com preços altos, conseguimos contemplar uma parte das pessoas que não podem pagar um curso na PUC ou em qualquer escola que custe muito caro. Isso, para nós, é um projeto político, mais do que nada.

Colunas Tortas – Você falou sobre a autoria e sabemos que ela é uma coisa importante para a camada de intelectuais, jornalistas, publicitários e diversos outros profissionais que precisam de portfólio e vivem de sua autoria. Na Casa Fora do Eixo as pessoas podiam se manter com um fundo coletivo, mas nada era da autoria delas. Algumas pessoas reclamavam que estavam presas naquele lugar, porque fora dali não tinham mais currículo para apresentar. Como lidar com esse conceito que nos atinge de um jeito tão forte que é até mesmo necessário no mercado de trabalho? Até mesmo pra arranjar um emprego?

Pedro – Foucault fala sobre a função da autoria, como ela serve simplesmente pra dar uma linearidade pra um pensamento que é plural. A questão da propriedade autoral, por sua vez, começa na Inglaterra, porque antes disso os textos eram coletivos ou anônimos.

Carla – Mais do que nada, não basta se livrar da autoria. Isso é uma atitude que se toma. É mostrar que você se livrou da ideia de ter uma propriedade. Os coletivos que funcionam abolindo a ideia da propriedade também invadem casa, se livram desses conceitos. O portfólio fica descartado da vida de alguém que tem como atitude política não querer ser mais dono de nada nem da sua própria ideia, porque entende que a ideia funciona dentro do coletivo. Assim se luta contra a autoria, o copyright, contra a própria ideia de um currículo ou portfólio.

Sobre este caso que você contou, abdicar da autoria é tomar uma posição política. Essas pessoas estão equivocadas ao reclamar seus portfólios. Na idade média há uma posição política que começa por volta do século XIII em que a mendicância é assumida como uma posição política: eu opto por não ter dinheiro, por não ter casa e ser um viajante contínuo. Mas como eu faço isso no capitalismo, como eu faço isso depois que eu cristalizei a identidade e o eu como aquele que me define em tudo? É complicado, é uma propriedade. Ao abdicar dela, eu fico pelada em relação ao mundo, quanto a propriedade ou quanto as formas de ganhar dinheiro, pois é uma atitude que te coloca 100% na atitude política que você quer ter, no objetivo de destruir a propriedade privada em todos os seus sentidos. É estar pelada.

Alguns coletivos conseguem sobreviver dando aulas, publicando livros, outros, como os sueños na Espanha, colocam livros digitais para download em que a contribuição em dinheiro é optativa. As pessoas dão a grana, oras, em que caso você não tenha coragem de ocupar um espaço e tomar essa atitude para sua vida, você pode pelo menos colaborar e dar suporte a esses grupos. Não que eu pense em algo assim no Brasil, mas creio que o problema da autoria seja bem mais fácil de resolver do que o restante.

Veja bem, quando começou a ideia de hipertextos há uns 10 anos, a gente, do grupo Complexos,  tentou fazer um livro sem autor. Todo mundo fez um pouco do texto e não deu certo, as pessoas ficavam muito incomodadas em não ver seus nomes no texto, um incômodo físico e geral das pessoas de entrar no arquivo do texto e continuar a frase do outro. Nós não esperávamos que tudo fosse homogêneo, a contradição no texto era esperada: a próxima frase não necessariamente tinha que alongar a ideia anterior. Queríamos ver o que daria, dentro de uma ideia sobre um assunto determinado, cada um escrever um pouco, sem procurar consenso ou síntese, saindo do blábláblá costumeiro.

Os alunos se reúnem para uma aula do minicurso “Kuir”, de Jota Mombaça. Foto: Inanna.

Colunas Tortas – As frases não se casavam?

Carla – O problema era exatamente o oposto: as pessoas tentavam de toda forma casar uma frase na outra. A procurar da harmonia e do consenso é uma coisa que o positivismo nos deu que é difícil de se livrar com facilidade. Você via nos parágrafos o esforço em parecer ou ter continuidade com os parágrafos de cima, uma tentativa de manter uma harmonia que nós nem planejávamos. Quer dizer, isso acaba com a nossa intenção de fazer um caleidoscópio com as palavras. Isso tudo há dez anos, quando pensavam que era possível este tipo de construção por hipertextos. Há outras experiências que deram certo como a da polifonia textual, mas é muito complicado com essa ideia internalizada de autoria e da harmonia entre as palavras que nós aprendemos a pensar e é complicado sair disso, dessa ideia de harmonia, de consenso, entender que os opostos devem permanecer opostos sem problemas.

Colunas Tortas – E essa é uma temática comum dos cursos daqui?

Carla – Não sei se é uma temática comum dos cursos daqui, mas é uma dificuldade você não procurar o consenso, conviver com diferenças. É um experimento. O que a gente quer fazer, inclusive com uma de nossas linhas de estudo sobre os novos rumos do pensamento (que é uma linha mais aberta), é tentar discutir essas coisas, é tentar discutir feminismo, diversidade, certos autores críticos como Foucault, Preciado, Butler. Acredito que de início é assim que deve ser feito, as pessoas nós conhecerão de acordo com os temas que tratamos e os autores que lidamos, enfim, é um projeto que está começando.

Colunas Tortas – Como vocês se conheceram?

Carla – Na PUC. Eu sou professora do departamento de Sociologia e na pós-graduação a maioria das disciplinas que eu dou tem a ver com a condição feminina. Eles [o restante dos integrantes] foram caindo na minha sopa [risos], esta é uma mosca na minha sopa [apontando para Pedro].

Pedro – Eu faço mestrado na PUC em filosofia. Eu estudo Foucault, usos da liberdade e agonismo em Foucault. Trabalho a liberdade em sua teoria, tanto como condição de exercício do poder como enquanto condição ontológica da ética, são as duas conceituações que Foucault dá pra liberdade.

É como se resolver esta aporia que reside constitutivamente na liberdade eu tento me basear no conceito de agonismo, criado a partir da tradição grega, do agonismo, do agon, da competição, da contenda, do combate pra tentar resolver este problema aparente em sua teoria.

Colunas Tortas – A primeiro momento, a liberdade é a capacidade de exercer poder?

Pedro – Não. Há um texto do Foucault chamado O Sujeito e o Poder de 1982, em que ele fala que as relações de poder tal como ele entender e o poder entendido como um governo, como uma condução de condutas e ordenação de probabilidades precisa se articular em dois elementos: 1) o sujeito que sofre o poder precisa se reconhecido até o final do exercício do poder como detentor de liberdade e 2) como alguém que diante de si tem um campo de possibilidades de invenções para conduzir sua própria conduta. A liberdade como componente das relações de poder, mas nesse sentido entendida negativamente, como um locus da servidão voluntária e ao mesmo tempo como condição ontológica da ética e ética entendida como autoformulação, autosubjetivação.

A liberdade ao mesmo tempo como um instrumento das relações de poder, já que é necessário criar essa aparência de autonomia do sujeito, ao guiar sua conduta, ao agir sobre seu domínio de ação, para que baseado nessa autonomia ele reative os desígnios dos dispositivos do poder e ao mesmo tempo a liberdade como autocriação – e aí vem o agonismo como um elemento da governabilidade, entre o governo de si e dos outros, para pensar esta aporia aparente.

Colunas Tortas –  Eu vi que vocês lidam com Preciado, Butler, Foucault, eles têm algo em comum, todos criticaram a psicanálise de alguma forma, superaram o estruturalismo e bolaram sua própria maneira de pensar. Por que esta malha de autores em particular?

Carla – Este autores compõe o pensamento crítico da segunda metade do século XX. Eles entre tantos outros. A Própria Butler é muito mais contemporânea que o Foucault, a Preciado mais ainda, que começa a escrever em 2000. O pensamento pós-colonial começa no pós-guerra e vai tendo seus desdobramentos dos anos 50 pra cá.

Este autores que você citou são pontuais, mas que arredondam algumas discussões. Enfim, a maneira criativa como eles vão observar algumas questões, como a da identidade, do sujeito universal, da autoria dá o pontapé para outros autores criativos escreverem diversas outras coisas. Não são só eles os críticos, mas eles deram um início bom para isso. No entanto, nenhum outro autor está fora de nossas discussões, nós são somos mono-autorais, não nos baseamos em um livro canônico e uma das coisas mais legais desse grupo é que cada uma aqui vem de uma formação diferente. Nosso leque de autores é bem amplo. Talvez a única coisa que aqui não há são autores conservadores.

Colunas Tortas – Os autores ditos pós-estruturalistas desafiam as concepções vigentes até então sobre o mundo e os pontos pacíficos de discussão. Vocês acham que existe um certo incômodo entre autores e intelectuais de outras vertentes de conversarem suas teorias com as desses autores?

Pedro – Acho que está na ordem da inquietação, mesmo. Um incômodo. Este autores do pós-estruturalismo francês e tudo que veio daí suspende qualquer culto à verdade que deveria comunicar uma teleologia a um sujeito uno e coerente. Eles pensam através da multiplicidade, sem buscar nenhum consenso, mas sim a dispersão e a crítica e isso causa inquietação até mesmo no pensamento da esquerda tradicional.

Daniel – Quando a gente pensa em autores que de certo modo resguardam algo da esquerda antigo, como Badiou ou Zizek, apresentam algumas particularidades que tocam com essa questão, quando a gente pensa na recepção nos anos 70 dos autores pós-estruturalistas. O Foucault depois de 78 foi rechaçado pela própria esquerda ao tentar observar o poder como algo positivo e não mais como negativo. Então de certo modo é sim para causar um incômodo, para chegar aos cânones da esquerda e mostrar que eles são formados por uma certa verdade que é institucionalizada dentro de uma história.

Isso é notável hoje quando a gente percebe o abismo entre esses autores da escola que tem Badiou e os outros que tomam Derrida, Deleuze e Foucault como referências. Ainda existe esse cisma. Isso é notável quando pensamos as universidades. A filosofia na USP ainda resguarda uma tradição hegeliana muito intensa contra outras faculdade que utilizam este pensamento pós-estruturalista. Ela critica esse neohegelianismo do estruturalismo francês. E por isso a questão do pós-estruturalismo é central.

Carla – Mas isso tem muito do pensamento que é institucionalizado. É você pegar o Foucault e utiliza-lo como acadêmico. É você falar de uma árvore e depois de fazer a descrição, citar Foucault. Se tem um jeito de higienizar o pensamento deste autor é realizando seminários em que você trata de vários assuntos em vários ângulos, o utilizando como um estimulador criativo para se pensar em outras coisas.

É isso que fazemos no Inanna, nós não institucionalizamos os autores, não retiramos essa capacidade criativa dos autores, não depilamos seu pensamento. Nos anos 90, quando Edgar Morin começou a vir para o Brasil, foi o grupo em que eu participava que o trouxe pela primeira vez para cá. Passou uns dois ou três anos, dentro do congresso em que ele participaria após esta primeira vez, haviam mesas sobre todos os assuntos possíveis que relacionavam forçosamente o Morin. O que retirava a função principal do pensamento, que é fazer você pensar e não pra você ficar só citando.

Parece que é necessário isso de se ter um pensamento messiânico para basear toda sua vida. Foucault é um exemplo, Bourdieu é outro. Na educação é o Paulo Freire, é o salvador da pátria, explica tudo, disse tudo e se não explica, é você que não entendeu direito. Enfim, a universidade também faz isso, na verdade, ela só faz isso. Você fica conhecido por estudar um autor em particular, o autor fica conhecido por uma ideia em particular e todas as outras mil ideias boas passam desapercebidas e a discussão acadêmica fica monótona demais. O que a escola livre que nós estamos fazendo aqui pretende é mostrar os outros livros e outras ideias que eles elaboraram, até mesmo outros autores e tentar começar a pensar propriamente. Tentar ser criativo.

Daniel – Mais do que autores e autoras, no Inanna nos temos eixos de trabalho e usamos estes autores porque achamos que eles fornecem um material crítico de análise, ferramentas teóricas para entender melhor essa clausura do contemporâneo e conseguir desvendar essas situações.

Colunas Tortas – Então os conceitos são ferramentas que a gente usa para resolver um determinado problema?

Pedro – Claro, bem no sentido de Deleuze e Guattari. A filosofia é fabricação de conceitos. O conceito é um dispositivo ético-político que serve pra realizar análises. Até mesmo na conversa de Foucault e Deleuze: a filosofia é uma caixa de ferramentas, enquanto ela está servindo pra entender certos problemas, ok, quando não dá mais pra ser usada, nós temos que nos apoiar em outras grades conceituais.

Daniel – As autoras feministas que nós utilizamos nos nossos trabalhos são muito interessantes neste ponto. Donna Haraway, por exemplo, fala sobre saberes localizados, que surgiram num dado local pra resolver os problemas desse local. São saberes produzidos por um determinado sujeito que não é da ordem do universal, que lida com situações que possui particularidades que não dá pra se espelhar em uma macro contexto. Isso faz muito parte do nosso jeito de pensar, quando lidamos com esses autores, nós estamos pensando no nosso contexto.

Colunas Tortas – De certa forma isso puxa o intelectual pra mais perto das pessoas. Quando você diz que os conceitos não têm validade universal, você está basicamente dizendo que o filósofo é um ferramenteiro.

Carla – Mas ele não passa disso. Tem um livro bom sobre isso, se chama O Artesão, do Richard Sennet. O artesão é aquele que se dedica e se disciplina por muito para se especializar em sua arte. É importante nunca se esquecer que nós estamos dentro do mundo, sabendo disso, nossas referências vão pra esses autores que não pensam o abstrato universal unicamente.

Colunas Tortas – Talvez isso seja uma forma de trazer os autores para o chão…

Carla – Mas esses autores já são do chão. Foi a universidade que os tirou daqui. Se você tem um autor que tá o tempo inteiro dizendo que seu corpo foi docilizado, é uma pessoa que pensa encarnadamente, digamos assim. O que este sujeito está falando é a história do seu corpo, de como você se tornou o que você é. Para isso ele, no caso Foucault, foi trabalhar em hospitais psiquiátricos, morou longe e quando não se faz esse movimento para ler um dado autor, que é admitir a sua localidade, é muito fácil criar teses que não servem pra nada.

A crítica que eu faço, e por isso a escola livre, é que a academia pega estes textos e faz um CSI, mata o texto e fica picando, sem instigar o aluno a pensar sobre isso. Sem fazê-lo pensar em como a língua que ele fala, por exemplo, é algo encarnado, é algo junto, não abstrato.

Daniel – A leitura desses autores na faculdade faz parecer que o corpo, tão encarnado, se transforme numa alma cristã. O corpo é quase que se transformasse numa nova alma, um novo espírito. Vamos reificá-lo, vamos separá-lo propriamente de nós, vamos cindi-lo e então ele se transforma em uma alma cristã. O culto do corpo hoje é quase como um ascetismo da alma da idade média. O ascetismo da alma do passado é o ascetismo do corpo: vamos torna-lo abstrato, transcendente, mas não vamos parar de falar sobre ele.

Colunas Tortas – Quantos cursos vocês têm atualmente e quais são os futuros?

Carla – Teremos sobre a teoria Kuir, com instrutora incrível, um diálogo sobre diversidade e a questão das abjeções, um diálogo do Foucault e um da Beatriz Preciado.

Pedro – São três modelos de cursos, de cursos de 30 horas, mini-cursos de 8 horas e os diálogos, que são encontros introdutórios de algum pensamento ou pensador, que têm 3 horas.

Daniel – São encontros temáticos, como a história da homofobia. Estamos abertos aos assuntos.