Em Defesa Das Causas Perdidas – Slavoj Zizek: uma resenha

Em Defesa Das Causas Perdidas, de Slavoj Zizek, é uma livro lançado no Brasil em 2008. Basicamente promove a crítica e o reavivamento de conceitos que podem ajudar a luta comunista. Leia aqui esta resenha!

Por Rodrigo Barros, acadêmico de ciências sociais, em colaboração com o Colunas Tortas.

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O livro foi publicado no Brasil em 2008.

Slavoj Žižek tem tomado de assalto o mundo intelectual, com uma presença intempestiva, instigante, controversa e cômica. Filósofo esloveno, nascido na antiga Iugoslávia, Žižek alia teoria crítica e alta filosofia com cultura popular, psicanálise e cinema para desenvolver suas análises sobre ideologia, política, realidade, utopia e muitos outros temas. Com um pé no marxismo, mas não um ortodoxo (longe disso), o autor consegue bater tanto na direita quanto na esquerda, levantando suspeitas de que os problemas são muito mais complexos do que imaginámos.

No livro “Em Defesa das Causas Perdidas”, Zizek condensa boa parte do seu pensamento político. Com enfoque no tema do totalitarismo, também tenta trazer à tona o que ainda pode ser salvo das chamadas causas perdidas do passado, na busca por um amanhã menos cínico e suicida, frente às ameaças de um sistema extremamente plástico e capaz de uma reorganização surpreendente.

Veja também: Zizek: a sabedoria é nojenta

Divido em três eixos centrais, o autor abordará do estado das coisas no presente, em seguida passando para uma análise do que podemos resgatar das empreitadas libertárias do passado e então, num retorno para o contemporâneo, foca-se nas respostas e caminhos que nós realmente temos para a emancipação, tecendo críticas a inúmeros intelectuais e tentando encontrar um possível germe de uma cultura comunista. Abordaremos brevemente cada um deles aqui.

Na primeira parte, Zizek adentra na sua já conhecida crítica da ideologia, onde caracteriza o cinismo como sintoma social, e a fantasia como articuladora da realidade em que vivemos. Utilizando dos já famosos exemplos com cinema e literatura, o autor busca demonstrar as novas artimanhas do discurso dominante, tanto na fala quanto nos atos. A psicanálise lacaniana se torna de extrema importância para a bagagem teórica do filósofo que utiliza conceitos da pisque para o social. Vale deixar claro para qualquer desavisado que essa não é uma novidade no que diz respeito ao pensamento e teoria social, pois a Escola de Frankfurt já havia feito essa junção de sociologia e psicanálise para produzir uma forte crítica cultural.

Em seguida Zizek fará o seu acerto de contas com um dos filósofos mais importantes do século XX, e que teve bastante influência em sua obra: o alemão Martin Heidegger. Conhecido pelos envolvimentos com o nacional-socialismo, Heidegger teve grande parte do seu pensamento colocado de lado frente as suas atitudes políticas de extrema-direita, trazidos à tona anos depois pelo esforço de Hannah Arendt, reconhecendo o valor da sua ontologia. Zizek considera que Heiddeger foi radical o suficiente, mas na direção errada, o que o leva a comentar sobre outros intelectuais que também adotaram bandeiras polêmicas, como Michel Foucault que aderiu aos apoiadores da revolução iraniana.

Na segunda parte dos livros, Zizek partirá para o estudo dos eventos libertários e emancipatórios do passado, primeiramente indo a fundo no conceito de terror revolucionário. Os papéis de Maximilien Robespierre (na Revolução Francesa) e de Mao-Tsé-Tung ( na Revolução Cultural Chinesa) são considerados cruciais para se entender as tentativas de transformação. Marcadas pelo extremismo em busca de gerar um novo mundo, foram movimentos que se perderam em seu radicalismo e sanguinolência, ou teriam algo a nos ensinar? Zizek defende que há algo de sublime no terror revolucionário, uma mensagem ainda não completamente compreendida. Não seria a interpretação de que o caminho é puramente violento, mas que não há vitória na luta pela liberdade sem conflito e sem resistência.

zizek em defesa das causas perdidasO stalinismo é outro de seus pontos polêmicos também revisitados. Longe de desconsiderar suas atrocidades, Zizek não nega que fora o regime de Stálin um dos pontos mais importantes para o fracasso soviético, assim como o gestor de uma espécie de contrarrevolução cultural. Mas chama a atenção para a reação que fora o próprio stalinismo, numa tentativa de impedir que um projeto mais radical nos moldes de biopolítica fosse levado a cabo até o fim, o que resultaria num Estado muito mais criminoso do que de fato foi o regime de Stálin. Em seguida articula como o stalinismo não pode ser comparado com o fenômeno do nacional-socialismo, uma vez que o primeiro teria o genocídio como seu foco principal, enquanto o segundo não, e que teria caído nas artimanhas do cinismo generalizado e paranoico. Esse é um dos pontos mais polêmicos de Zizek que, em poucas linhas, se torna impossível de se sintetizar e tem gerado inúmeras interpretações (além de exageros). A leitura do original, mais cuidadosa e com atenção, é o que assegura, talvez, uma interpretação mais segura frente a todas aos diversos e criativos argumentos que o autor articula

O populismo aparece como ponto final da segunda parte do livro, e receberá duras críticas. Fenômeno forte na américa-latina, aqui Zizek entrará em conflito com um dos maiores defensores desta corrente (assim como um ex-amigo): Ernesto Laclau. Filósofo argentino de enorme prestígio na Europa, Laclau defendeu que o populismo representa uma alternativa para resistir ao poder do neoliberalismo, assim como uma maneira de articular os conflitos de classe que agora se transferiram para outras áreas de combate (gênero, raça, sexualidade etc). Zizek acusará que esta leitura finda por silenciar o antagonismo básico, traumático, que é a arbitrariedade da luta de classes, sugerindo que o populismo funciona para encobrir os reais campos de batalha. Para os interessados nas respostas de Laclau, recomendo a leitura de “A Razão Populista”, publicado recentemente no Brasil.

Na terceira e última parte, Zizek partirá para a apresentação e a análise de algumas tentativas contemporâneas de se combater a força do capital. Não poupará críticas aos vários caminhos adotados pela esquerda teórica e prática. Antonio Negri e Michael Hardt serão também colocados como insuficientes para lidar com as contradições do sistema (teorias estas apresentadas em seus livros, escritos a quatro mãos: “Império” e “Multidão”), assim como suas influências de Gilles Deleuze.

Enaltecerá, mas não sem ressalvas, o trabalho de Alain Badiou, filósofo francês identificado com o movimento maoísta e elaborador da “hipótese comunista” e do conceito de “evento” (recomendo a leitura do livro “A hipótese Comunista”). Para Zizek, por fim, o importante é resgatar os conceitos de universalidade e de verdade, contra o relativismo extremo e as percepções catastróficas de que nada há para se fazer. Esta universalidade deve ser retomada não no sentido de ignorar as particularidades dos sujeitos, mas não tomar essas mesmas particularidades como ponto de ação. Antes, deveríamos articular o que os indivíduos possuem de comum, numa busca de unificação a procura de um sujeito que assumiria o papel que um dia fora do proletariado.

Embora Zizek tenha uma escrita magistral, erudição notável e críticas para colocar seus oponentes realmente de volta à prancheta, lhe falta a elaboração de um verdadeiro projeto comunista. Zizek defende-se dessas acusações ao afirmar que o papel de um filósofo não é responder perguntas, mas sim reformular problemas. Com certeza, Em Defesa das Causas Perdidas é de suma importância para se rever onde queremos chegar, assim como a importância da teoria para se pensar num novo amanhã.

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