A difícil tarefa de perceber o outro

"Pessoas tratam outras como objetos” (...) Como Cioran observa este fenômeno? Clique e veja!

“O império do eu” foi uma expressão utilizada pelo filósofo romeno Emil Cioran (1911-1995) para descrever o fato de que, em última instância, durante toda nossa existência estamos presos a um imperativo: nós mesmos, e nosso esquecimento pragmático e constante de que somos apenas mais um daqueles que, entre milhares, se arrastam pela superfície do globo. E ainda que possamos entender sua filosofia como o “exercício de pensar contra si mesmo”, Cioran já nos advertiu, em sua obra Breviário de decomposição:

“Cada um é para si mesmo um dogma supremo; nenhuma teologia protege seu deus como nós protegemos nosso eu; e este eu, se o assediamos com dúvidas e o colocamos em questão, é apenas por uma falsa elegância de nosso orgulho: a causa está ganha de antemão”

Emil Cioran

Tendo em vista a compreensão do “eu” em Emil Cioran, podemos continuar pensando em uma expressão bastante reproduzida pelo senso comum: “pessoas tratam outras como objetos”. Quão óbvio e quão vil isto nos parece? Mas se, para além do entendimento de “objeto” significando “coisa”, nós o entendermos como o oposto de “sujeito”, poderemos melhor compreender nossa frequente indiferença em relação às outras pessoas. Desta forma, a acusação volta-se para todos: com que frequência temos “percebido” os outros como sujeitos, de fato? Como indivíduos?

É claro que muito deste “imperativo de nós mesmos” é reforçado pelo meio em que vivemos, de forma que não poderíamos utiliza-lo para justificar, por exemplo, a existência de um sistema econômico que ignore que somos indivíduos coletivos. O nosso resultado individualista muito deve ao mundo neoliberal em que estamos inseridos, em que se valoriza o indivíduo enquanto consumidor e concorrente; em que predominam o hedonismo e o imediatismo, etc.

Mas, se levarmos em conta o fato de que quase toda pessoa (para não correr risco ao dizer “todas”) em algum momento de sua vida recorreu ao solipsismo, isto é, se perguntou pela possibilidade de ser a única pessoa existente e todo o resto da realidade ser criação sua, compreendemos a influência aterradora do “eu” de que Cioran falava. Para ele, é inevitável que todos nos consideremos, explícita ou implicitamente, “eleitos”, e nos tornamos livres (embora não “libertos”) na medida em que descobrimos que isto é uma inverdade.

É difícil, portanto, a tarefa de perceber o outro, principalmente porque exige que questionemos a nós mesmos enquanto autoridade pensante. Esse tipo de compreensão de nossos “eus” é, de certa forma, natural, uma vez que é apenas por intermédio de nossa própria existência que podemos ter acesso ao mundo exterior a nós. O que não podemos é aceitar que isto seja mais um obstáculo ao nosso convívio social, além de todos os resultantes dos imperativos econômicos e políticos.

7 Comments

  1. Levinas tratou desta questão da alteridade, a partir da proposta da ética como filosofia a partir do descobrimento do outro. Nesta linha sobre o pensamento de Levinas, Dussel indica que a parte de Levinas foi apontar a descoberta do outro (ao contrário da ontologia heideggeriana) como exterior ao “meu-mundo”, mas foi além a dar rosto e forma para o outro, reconhecendo como sendo a América Latina (o “outro” em sua condição de oprimido), e não o “Outro” somente europeu. Eis o cerne da filosofia da libertação: o reconhecimento do (sofrimento do) outro.

  2. O que me ocupa é a impossibilidade da construção do ‘eu’ sem o ‘outro’. Como no ‘Enigma de Kasper-Hauser’. Privados de qualquer contato com qualquer outro somos impossibilitados de construir um ‘eu’. O romance ‘Tarzan’ sugere que a construção do ‘eu’ depende da alteridade, A etologia de Lorenz confirma que aves identificam como ‘mãe’ o primeiro animal que vêem ao eclodir dos ovos e que se ‘comporte’ como a ave mãe (segundo Lorenz, graças a um ‘inprint’ genético). O mesmo se produz nos néo-natos humanos. Sua identidade começa a ser construida com a visão do rosto materno/paterno. A identidade se constrói pela constatação do que não somos e do que somos parecidos, com a percepção das diferenças. Não existe um ‘eu’ apriorístico. Ele se constrói pela experiência. Ao ‘experimentarmos’ o ‘outro’.

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