Pão de queijo duro e café frio

“Gastamos a maior parte do nosso tempo procurando coisas que nos façam destacados e fugindo dos que nos diminuam. Vivemos para sermos julgados pelos olhos dos outros; a maior parte das vezes, por “outros” que não nos interessam e que nem sequer conhecemos. Nada dignificante”

As formas de falar são variadas. Entre um passo e outro a caminho de reencontrar um amigo, o personagem de hoje quis voltar no tempo e pegar na fumaça da nostalgia. Ao descer no ponto e se deparar com o monumento conhecido da cidade, percebeu que o ar estava diferente, não era leve, mas também não era pesado. Havia sim algo ímpar: as pessoas transitavam de forma vagarosa, não faziam tanto barulho como antes e até outros indivíduos estavam gentis.

Por torpedo, o personagem avisou que iria de calça azul (pensando que iria se destacar do resto da multidão). O amigo respondeu que ele estaria em frente ao teatro de camisa vermelha e com uma sacola na mão direita. Apresentaram-se de forma cordial como sempre e foram caminhando pelas ruas do centro, um percebendo a mudança do outro, o sotaque e as atuais condições.

Então, fora recordado que um estava devendo um café e o outro respondeu que pagar essa dívida seria justificável. Em seguida, em uma mesinha redonda de madeira, de frente ao outro começaram as ponderações, pediram café e pão de queijo para acompanhar a prosa.

A atendente da padaria anotou prontamente os pedidos, trouxe primeiramente os pães de queijo e depois o café. A cara de dureza de um, fez o outro perceber que o pãozinho tão almejado às 19 horas tinha passado do ponto. Ele riu e retrucou que não fazia mal. Afinal, era apenas uma desculpa para estarem ali. Chegou o café. Nem ao menos ele pode salvar, mas tudo bem, discutir religião e as atividades cotidianas da profissão estavam mais interessantes. Inclusive, pediram mais um café infelizmente, sem sucesso – deve ser um sinal – indicou. Vamos para o bar – disse o outro.

E para lá foram. Segundo ato da reunião: discutir as atuais leituras. O primeiro ponderou que com a correria do dia a dia, que o papel de “pãe” é dureza, mas vale a pena, que há outros projetos e que há pouco tempo para leituras de prazer, isto é, leituras fora do trabalho convencional. O outro está encantado com a psicanálise e vem estudando a vaidade humana, o livro Vício dos Vícios de Flávio Gikovate, segundo o autor: “Gastamos a maior parte do nosso tempo procurando coisas que nos façam destacados e fugindo dos que nos diminuam. Vivemos para sermos julgados pelos olhos dos outros; a maior parte das vezes, por “outros” que não nos interessam e que nem sequer conhecemos. Nada dignificante”.

A agradável sensação de chamar a atenção é colocada desde que ainda somos crianças e esse sentimento aumenta com a chegada da vida adulta até virar um problema em si, já que nossa sociedade apreende a vaidade, o prazer erótico, a exibição como normalidade. Entre uma pausa de raciocínio, um olhar de admiração e de compreensão do outro. Que venham cafés maduros, verdes, doces e amargos porque é só uma desculpa para estar em boa companhia!

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