Jacques Derrida: desconstrução e “différance”

Derrida elaborou a teoria da desconstrução que desafia a ideia de uma estrutura concreta e realça a noção de que não há estrutura. Veja mais aqui!

Texto originalmente publicado no site Signosemio.

Jacques Derrida
Derrida destoou sua teoria do restante dos autores chamados de “pós-estruturalistas”.

Jacques Derrida foi um dos autores mais aclamados do século passado. Foi professor na França e nos Estados Unidos, lugar que acolheu suas ideias com entusiasmo.

Derrida é um dos autores mais traduzidos do mundo e tem uma vasta obra, que conta com mais de 100 títulos. Todos eles são utilizados por estudantes de literatura, linguística, mas também por filósofos – que ainda o olham com certa distância.

Veja abaixo uma introdução aos seus conceitos fundamentais e sua teoria da desconstrução e da “diferência”.

Índice:

  1. Introdução
  2. Teoria
    1. Contexto e Filosofia
    2. Conceitos
      1. Signo, Significado e Significante
      2. Escrita, Traço, Tipografia, Representação Gráfica
      3. Texto, Textualidade, oclusão, não-oclusão
    3. A Teoria da Desconstrução
    4. A Teoria da “Diferência”
  3. Aplicação: Uma leitura desconstrucionista de Baroque at Dawn, de Nicole Brossard

1. Introdução

Derrida

A teoria do signo de Jacques Derrida se enquadra no pós-estruturalismo, o qual se opõe ao estruturalismo saussuriano (O legado linguístico de Ferdinand de Saussure). Sustentando que o significante (a forma do signo) refere-se diretamente ao significado (o conteúdo do signo), a teoria estruturalista derrubou toda uma corrente de pensamento logocêntrica (centrado no discurso) que se originou no tempo de Platão. Com a escrita como sua base, Derrida passou a interromper toda a metafísica baseada nas oposições. Ele elaborou a teoria da desconstrução (do discurso e, portanto, das palavras) que desafia a ideia de uma estrutura concreta e realça a noção de que não há estrutura ou centro. A ideia de uma relação direta entre significante e significado já não é mais sustentada, pelo contrário, temos infinitas mudanças de significados retransmitidas de um significante para outro.

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2. Teoria

2.1 Contexto e Filosofia.

O termo “pós-estruturalismo” refere-se a uma crítica perspectiva que surgiu durante os anos de 1970, o qual tomou do estruturalismo seu devido lugar como corrente dominante na linguagem e teoria textual. Para entender o pós-estruturalismo, nós precisamos examiná-lo em relação ao estruturalismo. As críticas desconstrucionistas indagam a visão pós-estruturalista da linguagem, em que o significante (a forma de um signo) não se refere ao significado definitivo (o conteúdo de um signo), mas produz um outro significado. Derrida discorda deste centro inerente na “estruturalidade da estrutura”.

Referindo-se a Claudevi-Strauss como um representante da teoria estruturalista, Derrida usa a proibição do incesto, as oposições natureza/cultura e universal/prescritivo para mostrar que essas estruturas não podem mais resistir ao escrutínio. “A proibição do incesto é universal; é natural. Mas também uma proibição, um conjunto de normas e interditos; nesse sentido é algo cultural.” (Derrida, 1978, 283).

Portanto Derrida rejeita toda a história da metafísica com suas hierarquias e dicotomias que permaneceram no pensamento presente, sobretudo o alicerce em que toda lógica foi colocada. Derrida rejeitou o estruturalismo e consequentemente o esquema Saussuriano (relação entre significado e significante) foi repensado.

Nota: Derrida e as oposições

O que Derrida rejeita é a estrutura binária, e isso vai além da simples oposição entre significante e significado. A estrutura sustenta a história da filosofia, que concebe o mundo em um sistema de oposições que se prolifera sem fim (Logos/pathos, corpo/alma, eu/outro, bom/mal, cultura/natureza, homem/mulher, entendimento/percepção, dentro/fora, memória/esquecimento, fala/escrita, discurso/escrita, dia/noite etc).

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2.2 Conceitos

Para sermos condizentes com a teoria proposta por Derrida, que se aplica tanto na filosofia quanto na semiótica, é mister definir precisamente suas fundações. Cada sessão incluirá vários conceitos, uma vez que muitos deles são fortemente interligados sendo assim impossível definir um conceito sem considerar os outros.

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2.2.1 Signo, Significado e Significante.

As relações encontradas no estruturalismo entre significante e significado são inexistentes. Além do mais, há duas maneiras de apagar a diferença entre significante e significado: ‘’Primeiramente, a forma clássica consiste em […] submeter o signo ao pensamento; a outra forma (aquela que estamos usando aqui em oposição à primeira), consiste em questionar o sistema anterior no qual os procedimentos e reduções funcionaram: a oposição entre o sensível (perceptível) e o inteligível’’ (Derrida, 1978, 281) .

O conceito Derridiano de signo continua engendrado na estrutura da filosofia Ocidental, mas o esquema em que o significante = significado (a relação direta entre significante e significado) foi remodelado. Considere o exemplo da água:

Tabela Derrida

Quando lemos a palavra ‘’água’’ pensamos, por exemplo, em gotas d’água, um rio, sua fórmula química, uma representação mental e universal para isso. Assim, cada conceito (significante) em que ‘’água’’ se refere pode desencadear outro significante. Essa corrente infinita de significante para significante resulta num jogo sem fim e abre o texto, desloca-o, o coloca em movimento.

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2.2.2 Escrita, Traço, Tipografia, Representação Gráfica.

Palavras referem-se naturalmente a outras palavras. A Gramatologia Derridiana pressupõe a ideia de que a escrita é originária da mesma forma que o discurso; há uma tensão perpétua sem uma luta pelo poder. Consequentemente:

  1. Escrever não pode ser uma reprodução da linguagem falada, uma vez que nenhum dos dois (escrita nem falada) vem em primeiro lugar.
  2. Desse modo, escrita vai muito além da ortografia; é a articulação e inscrição do traço.

Quanto ao traço, ele se posiciona como originário e não original: ele transmite a impossibilidade de uma origem, ou centro. “A origem absoluta de um sentido em geral […], o traço, é a diferência[1] da aparência e o significado’’ (Derrida, 1979, 65). ‘’Se o traço […] pertencer ao próprio movimento de significação, então o significado é escrito a priori, se inscrito ou não, independente da forma, sendo espacial ou sensível, o elemento é chamado de ‘exterior'” (1976,70).

Derrida também considera o traço como  uma arquiescritura, “possibilidade de falar em primeiro lugar e depois a forma escrita.”

O conceito tipografia”, ou representação escrita, depende do traço para sua existência, e isso implica “a estrutura do traço instituído como possibilidade comum para todos os sistemas de significados”. Quando associamos o traço com a representação gráfica (gestual, visual, musical, ou verbal), esse traço se torna uma letra. Apenas neste instante é que o exterior (aposto ao que está no interior) aparece como um “objetivo”, “espacial” e “extraordinário” (1976, 70).

A arquiescritura que Derrida propõe é uma noção bem mais ampla de escrita conceituada nos termos da diferência. Essa diferência, como temporalização é o traço da língua escrita na língua falada. Por exemplo, sinais de pontuação são suplementares para o discurso, e não uma reprodução do mesmo.

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2.2.3 Texto, Textualidade, oclusão, não-oclusão.

De acordo com Jacques Derrida, o texto não pode ser explicado por suas origens (autor, sociedade, história, contexto) sendo que repetição é a sua origem. O texto é escrito, e escrever é linguagem (não-intencional). A linguagem é relativa ao discurso que ela mesma programa.

No entanto, a leitura é o que faz o texto e a escrita algo possível. Arquiescritura é a leitura que inclui escrita. A escrita é caracterizada pela textualidade, o que ao mesmo tempo em que encerra mantém o texto aberto: ‘’Pode-se encerrar aquilo que não tem fim. Oclusão é o limite circular no qual a repetição de diferenças repetem-se infinitamente. Ou seja, a oclusão é seu espaço de jogo. Esse movimento é o movimento do mundo como jogo…’’(1978, 250).

2.3 A Teoria da desconstrução

O interesse de Derrida se encontra em especial numa oposição: a escrita e o discurso. Sua abordagem crítica da desconstrução mostra que esse dualismo não se encontra de forma balanceada, suas relações são sempre classificadas hierarquicamente. Um polo (presença, bom, verdade, homem, etc.)  é custeado à custa do segundo (ausência, mal, mentira, mulher, etc.).

No caso da escrita e do discurso, nós atribuímos ao discurso as qualidades positiva da originalidade, centro e presença, enquanto que a escrita é relegada a um plano secundário. Desde Platão, as palavras escritas foram consideradas como uma mera representação do discurso: Isso é o que Derrida chama de tradição logocêntrica do pensamento ocidental.

 “A desconstrução refere-se a todos as técnicas e estratégias usadas por Derrida para desestabilizar, abrir e deslocar textos que são explicitamente ou invisivelmente idealistas.” (Hottois, 1998).

No entanto, desconstruir não significa destruir o texto e para isso são necessários dois passos necessários:

  1. Fase de inversão: uma vez que o par é hierarquicamente classificado, deve-se, primeiramente, apagar o cerne dessa oposição. Durante a primeira fase, a escrita deve dominar o discurso, o segundo deve prevalecer sobre sua própria ausência, percepção, compreensão e assim por diante.
  2. Fase de neutralização: o termo favorecido na primeira fase deve ser arrancado da lógica binária. Dessa forma, deixamos para trás todos os significados anteriores atrelados a um pensamento dualista. Essa fase dá origem a androginia, super-discurso e arquiescritura. Portanto o termo desconstruído tornar-se algo que não pode ser provado ou refutado.

A desconstrução é aplicada a textos, na sua maioria àqueles que se remetem à história da filosofia ocidental. Os novos termos se tornam indecidíveis, em seguida, tornam-se inclassificáveis, o que resulta numa ‘’mistura’’ entre os dois polos que antes estavam em oposição.

Nota: Pharmakon de Platão

Derrida conduziu uma leitura desconstrucionista do famoso texto de Platão, no qual há uma mistura entre polos opostos; de acordo com Derrida, o pharmakon, ‘’esse filtro, onde as palavras podem atuar tanto como remédio quanto como veneno, introduz-se a si mesmo no discurso com toda sua ambivalência. Essa habilidade pode ser – alternativamente ou simultaneamente – um benefício ou um malefício’’ (1981, 70).  Ele ainda acrescenta ‘’Se o Pharmakon é ambivalente, é porque constitui o meio em que os opostos se opõem, o movimento e o jogo que fazem as ligações e as oposições entre si (alma/corpo, bom/mal, dentro/fora, memória/esquecimento, discurso/escrita)” (1981, 127).

Essa teoria foi retomado pelos acadêmicos e escritores, sobretudo nas notáveis análises feministas, que usaram a abordagem desconstrucionista e a estratégia da diferência para dar origem a novos termos que ignoram o dualismo em geral, mas mais incisivamente, o dualismo entre o feminino e o masculino, fundado sobre as oposições pathos/logos, eu/outro.

Para que haja a desconstrução é mister que haja a dissolução de todas rígidas oposições conceituais (masculino/feminino, natural/cultural…) Assim, os conceitos não são vistos separadamente e diferentes entre si. Cada categoria preserva o traço de sua categoria oposta. (Por exemplo, androginia carrega os traços do masculino e do feminino; o traço do observador permanece num experimento objetivamente científico; na natureza, a lei do mais forte repercute em organizações sociais e nas estruturas da sociedade).

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2.4 A teoria da “diferência”

  1. Diferência (Différance) é a diferença que quebra o culto da identidade e da dominância do Eu sobre os Outros; isso significa que não há origem (unidade originária). Différer (diferir) para não ser idêntico.
  2. Diferência marca uma divergência fundamental na escrita: por exemplo um a que podemos ver mas não ouvimos.
  3. Différer (adiar) é deslocar, trocar, ou iludir
  4. Diferência é o futuro em andamento (a luta contra os significados já estagnados); É o deslocamento entre o significante e o significado, uma vez que não há um significado original, transcendental.

A escrita da diferência refere-se a si mesma, pois rompe com os conceitos de significado e referencial. A ênfase no tema da escrita funciona como um antídoto contra o idealismo, a metafísica e a ontologia.

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3. Aplicação: uma leitura desconstrucionista de Baroque at Dawn, de Nicole Brossard

A escritora franco-canadense, Nicole Brossard, utiliza da desconstrução e da diferência em seu romance feminista no qual questões como patriarquismo e logocentrismo são usadas como base. Com uma análise onomástica, podemos ver como a diferência é presente e o que a possibilita.

Baroque at Dawn (1995) conta a história de Cybil Noland, uma escritora inglesa que planeja escrever um romance de ficção. Logo no início da narração o leitor se depara com uma cena de sexo entre duas mulheres, Cybil  e uma jovem cujo sobrenome é Sixtine. A diferência aparece nas primeiras linhas do romance: “Dé, vaste-moi. M’ange moi”. “M’ange moi”, ao invés de “mange-moi (me coma)”  trás a palavra “ange (anjo)”, o que introduz um tom mais doce e celestial no imperativo sexual. Dessa forma, causando uma mudança nos significado da frase. O mesmo se aplica para “vaste-moi (vasto eu, tradução livre)”  que conota espaço, conquista, uma expansão que se estende longamente e desvia o significado de “dévaster (devastar)” e, de acordo com Le Robert, significa assolar (um país, por exemplo), destruir sistematicamente, tendo como sinônimos “désoler, détruire, raser, ravager, ruiner (desolado, destruir, devastar, assolar, arruinar)”

Precipuamente uma característica diegética ocorre no interím entre o Hotel Rafale e Buenois Aires, onde, primeiro, ela aparece ocasionalmente como “tu” e depois como “je”, um totalizador na realidade virtual, quando “realidade sobrepõe a própria realidade”. No entanto, Cybil parece ter dificuldades em se definir, e é nessa ocasião que a diferência entra em jogo: enquanto seu nome quando falado soa como “Nolan”, um nome um tanto quanto comum, “Noland (no land – sem terra)” é o que está por trás disso. Logo, uma leitura onomástica mostra que Cybil é uma mulher sem fundações, sem terras e sem raízes. Essa ideia é ainda mais reforçada pelo fato de que, exceto no mundo da ficção (mundo da escrita), a personagem se torna um ‘’eu’’ que se encarrega da narrativa nas páginas onde a “realidade virtual” aparece sem nenhuma âncora no mundo real. Esse processo é também diretamente ligado à ideia de que não há nada como proporcionar à mulher um caminho para fora da ficção. Algo que foi engendrado por homens durante vários anos, onde as mulheres são vistas como seres impenetráveis.

Por fim, é relevante visar que uma abordagem desconstrucionista pode estabelecer uma tensão constante entre realidade e ficção (outro dualismo). As palavras onde a diferência é perceptível somente na escrita “(m’ange moi”, “vaste-moi”, etc.) tornam-se intraduzíveis e inclassificáveis, conceitos que vão muito além do pensamento binário.

[1]Diferência:  Em francês, ‘’différance’’ (com ‘’a’’) é um jogo entre ‘’différence (com ‘’e’’, que significa diferir) e ‘’deférrer’’ (que signfica‘’adiar’’).

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