O fanatismo: ideias transformadas em deuses

“Breviário de decomposição”, primeira obra em francês do filósofo romeno publicada em 1949, inicia-se com os ensaios “Genealogia do fanatismo” e “O antiprofeta”, nos quais Cioran denuncia uma necessidade de ficção inerente ao homem e que alcança todos os âmbitos de sua vida, para além do religioso, assim como a necessidade do homem de tornar-se fonte de acontecimentos.

Emil Cioran
Emil Cioran

Em sua obra, Emil Cioran aborda temas como Deus, existência humana e sua condição no tempo, morte, religião, suicídio, Verdade, ceticismo, entre outros, todos relacionados entre si e perpassados por uma dose de melancolia, pessimismo e lirismo.

“Breviário de decomposição”, primeira obra em francês do filósofo romeno publicada em 1949, inicia-se com os ensaios “Genealogia do fanatismo” e “O antiprofeta”, nos quais Cioran denuncia uma necessidade de ficção inerente ao homem e que alcança todos os âmbitos de sua vida, para além do religioso, assim como a necessidade do homem de tornar-se fonte de acontecimentos. Tudo isso, dirá ele, resulta em consequências incalculáveis.

Quem, com a visão exata de sua nulidade, tentaria ser eficaz e erigir-se em salvador? (…) Mas não poderíamos existir um instante sem enganar-nos: o profeta em cada um de nós é o grão de loucura que nos faz prosperar em nosso vazio. (Emil Cioran em “Breviário de decomposição”)

 Somos todos fanáticos

Somos “idólatras por instinto”, diz Cioran em um tom fatalista, e nossa capacidade de adorar é responsável por todos os nossos crimes. Mesmo quando nos afastamos da religião (entendida aqui como fé no sobrenatural), permanecemos submetidos a ela, pois esforçamo-nos sempre em “forjar simulacros de deuses”, isto é, criar objetos de adoração e pelos quais vale a pena sacrificar-se e aos outros. Se o homem perde sua capacidade de ser indiferente e transforma sua ideia em deus, as consequências são infindas e atrozes, diz o autor.

Esta necessidade de ficção , que resulta em seus objetos de adoração, é nada além do produto de nossa urgência de dar significação à vida, urgência esta caracterizada por uma abstração em relação a nossas próprias dimensões. Ou seja, só agimos porque inconscientemente nos consideramos “o centro, a razão e o resultado do tempo”. Se tivéssemos, a todo momento, a noção de nossa nulidade; “se comparar fosse inseparável de viver, a revelação de nossa ínfima presença nos esmagaria”, diz Cioran.

O princípio do mal reside na tensão da vontade, na inaptidão para o quietismo, na megalomaníaca prometeica de uma raça que se arrebenta de tanto ideal, que explode sobre suas convicções e que, por haver-se comprazido em depreciar a dúvida e a preguiça – vício mais nobre do que todas as suas virtudes -, embrenhou-se em uma via de perdição, na história, nesta mescla indecente de banalidade e apocalipse… Nela as certezas abundam: suprima-as e suprimirá sobretudo suas consequências.”

O “eu” convertido em religião

É importante notar que, para Cioran, uma vida animada por uma ideia (e todas as são) é necessariamente vil. Ao fanatismo só escapam “os céticos (ou os preguiçosos e os estetas) porque não propõem nada, porque – verdadeiros benfeitores da humanidade – destroem os preconceitos e analisam o delírio”. Devemos desconfiar daqueles que se pretendem “profetas”, que veem em seus atos o estopim para a Salvação. São estes cuja fala se inicia por “nós”, pretendendo ser universal ou intérprete dos outros.

No entanto, mesmo quando não se intenta ser a voz da razão e não se intervém nos assuntos dos outros, “se está tão inquieto com os próprios que se converte o ‘eu’ em religião ou, apóstolo às avessas, se o nega: somos vítima do jogo universal.” Trazemos em nós dogmas inconscientes, crenças inveteradas, e mesmo aqueles que se esforçam por se livrar delas permanecem a elas sujeitos:

“Mesmo quem consegue desembaraçar-se delas e vencê-las permanece – no deserto de sua lucidez – ainda fanático: de si mesmo, de sua própria existência; humilhou todas as suas obsessões, salvo o terreno em que afloram; perdeu todos os seus pontos fixos, salvo a fixidez da qual provém.

É, também, uma ilusão tentarmos nos desapegar de nosso “eu” em vida, pois esta é a própria condição para ela existir. Afirmarmos nosso “eu” é um ato instintivo, diz Cioran, embora esteja longe de ser o mais sensato. Não conseguimos conceber nossa inexistência por tempo prolongado pois ela mesma apresenta-se como apenas uma ideia vaga em contraste com nosso sentimento de eternidade, e tudo nos indica a importância que inconscientemente estabelecemos para nossa própria existência.

“Cada um é para si mesmo um dogma supremo; nenhuma teologia protege seu deus como nós protegemos nosso eu; e este eu, se o assediamos com dúvidas e o colocamos em questão, é apenas por uma falsa elegância de nosso orgulho: a causa está ganha de antemão.(…) Está ainda por nascer quem não adore a si mesmo. Tudo o que vive se aprecia; de outro modo, de onde viria o pavor que faz estragos nas profundidades e nas superfícies da vida? Cada um é para si o único ponto fixo no universo. E se alguém morre por uma ideia, é porque é sua ideia, e sua ideia é sua vida.”

O homem enquanto “ser dogmático por excelência”

A vida de cada um está arraigada em inúmeras crenças e, tendo em vista que este “fanatismo” se inicia na própria existência de cada um, isto é, em seu “eu” convertido em dogma, trata-se de uma condição inalterável. As crenças mais vis, diz Cioran, são as imperceptíveis. Por fim, é interessante dizer que, para o filósofo, o homem que Diógenes de Sínope dizia procurar com sua lanterna era, em realidade, um indiferente: alguém desprovido deste espírito religioso e, sobretudo, messiânico.

Diógenes sentado em seu barril cercado por cães. Pintura de Jean-Léon Gérôme de 1860.

5 Comments

  1. Agradeço a oportunidade de participar deste site. Gostei muito do artigo e compactuo com as ideias nele desenvolvidas. Como nunca é tarde para se aprender, tenho 81 anos e posso ainda desfrutar dos grandes pensadores da história.
    Thereza Martins

  2. Na real o mundo está na mente e não fora de nós. É um sonho, fruto de uma auto-hipnose coletiva chamada egocentrismo. O fato de o mundo parecer mudar com a descoberta de novas tecnologias e novos conhecimentos, não quer dizer que esteja ficando bom ou melhor. É apenas uma troca de ilusão por outra. Fala-se emocionadamente em salvar a humanidade, mas raros sabem que não é preciso nada para se auto-realizar. O homem tem apenas que salvar a si mesmo da hipnose e não é trocando de ilusão que se chega à verdade. Essa realidade simples apavora as auto-arrogadas importâncias pessoais. Por isso inventa-se tanta teoria esperançosa de evolução e ascensão. Mas, para onde se deve subir se o reino dos céus está dentro de vós agora, antes de acharmos que pensamos certo ou que vemos qualquer verdade fora de nós?
    Não há para onde ir se não for para uma ilusão que a mente colocou lá.
    Sois deuses, mas, infelizmente, deuses ainda brincando de demônios de si mesmos. Abraço!

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