A figura de Sócrates em “O nascimento da tragédia”, de Nietzsche

A cultura apolínea, evidente no mundo grego especialmente a partir do momento em que, ao mesmo tempo em que a tragédia passa a ser criticada e racionalizada e perde sua característica primordial, surge a figura de Sócrates e a busca da Verdade em detrimento das aparências, é, em realidade, um véu que oculta a magnificência e importância vital do mundo dionisíaco.

Da série Friedrich Nietzsche.

Em “O nascimento da tragédia”, Nietzsche procura explicitar a importância da música na tragédia grega tendo como base sua origem no coro, assim como a primazia deste último. A reação desejada do público ao assistir uma peça trágica deve ser análoga a nossa relação com o mundo, pois, como ele concluirá, o mundo e a existência só são possíveis e justificáveis enquanto fenômeno estético.

Vaso grego em cuja figura central está representado o deus Dioniso.
Vaso grego em cuja figura central está representado o deus Dioniso.

Em um primeiro momento, são descritos dois aspectos da arte, tendo como base os deuses gregos Apolo e Dionísio: o apolíneo, associado às artes plásticas, à Homero, à forma e ao sonho, e o dionisíaco, associado à arte não plástica da música, à embriaguez, ao êxtase, e responsável por um certo tipo de libertação mística. Para Nietzsche, estas são potências artísticas naturais, que independem do ser humano.

Camisa Nietzsche

A cultura apolínea, evidente no mundo grego especialmente a partir do momento em que, ao mesmo tempo em que a tragédia passa a ser criticada e racionalizada e perde sua característica primordial, surge a figura de Sócrates e a busca da Verdade em detrimento das aparências, é, em realidade, um véu que oculta a magnificência e importância vital do mundo dionisíaco. Os próprios mitos basilares da sociedade grega seriam uma expressão disso:

“Esse mesmo instinto, que reclama a arte na vida, como o ornamento, o coroamento da existência, como o encanto que nos leva a continuar a viver, gerou também o mundo olímpico que foi, para a “vontade” helênica, o espelho em que sua própria imagem se refletia transfigurada. Assim os deuses, vivendo-a eles próprios, justificam a vida humana – única teodiceia satisfatória!” [1].

De fato, esta é a função essencial da arte dionisíaca: a transfiguração de nossa vontade e, deste modo, a justificação da vida. O que acontecia no espírito dos espectadores da tragédia grega não era uma catarse, a purificação dita por Aristóteles, mas uma completa identificação com o que é suscitado, impossível de ser racionalizada. A contemplação apolínea, isto é, racional, da existência, nos revela, contudo, uma completa privação de sentido. O que Nietzsche propõe é uma despudorada preferência às aparências em detrimento da realidade, uma admissão da ilusão enquanto princípio vital. E cabe à música, expressão por excelência de nossa vontade, esta contraposição ao niilismo resultante.

“O êxtase do estado dionisíaco, abolindo as barreiras e os limites comuns da existência, contém, com efeito, um momento letárgico, em que se esvai toda lembrança pessoal do passado. Entre o mundo da realidade dionisíaca e o mundo da realidade diária se cava esse abismo do esquecimento que os separa um do outro. Logo, porém, que reaparece na consciência essa realidade cotidiana, é sentida como tal com desgosto e uma disposição ascética, negadora da vontade, e esse é o resultado desse estado. (…) O conhecimento mata a ação, à ação pertence a miragem da ilusão.” [2].

Isso, no que se refere à tragédia grega, fica evidente na própria estrutura do teatro grego, em que os espectadores ficavam literalmente de costas para o mundo e totalmente entregues aos acontecimentos embriagantes que se passavam em cena.

Exemplo de teatro grego

Sendo a arte compreendida desta forma, “o sublime, como dominação artística do horrível, e o cômico, como consolo do desgosto do absurdo”, e tendo ela o papel que tem, Nietzsche reconhece como os precursores da decadência grega Sócrates, já que é a partir dele que o ser passa a ser mais edificante que o parecer, e Eurípedes e sua tragédia, cuja “tendência dionisíaca se transformou antes num naturalismo anti-artístico”, num “socratismo estético: tudo deve ser conforme à razão para ser belo”[3].

Há, portanto, certo otimismo na busca pelas relações de causalidade e, em suma, da Verdade. Com Sócrates, homem teórico, o conhecimento passa a ter uma nova dimensão de valor: é ele que deverá corrigir a existência. “Aqui o pensamento filosófico se sobrepõe à arte e obriga a esta a se enlaçar estreitamente no tronco da dialética. A tendência apolínea se transformou em esquematização lógica” [4].

Sócrates encarna o espírito crítico e racionalizador em contraposição ao espírito estético e contemplador. Tendo isso em vista, Nietzsche ironiza a possibilidade de um “Sócrates artista”, como este tentou ser em seus últimos dias antes de tomar a cicuta, dedicando-se ao aprendizado da flauta após haver tido repetidos sonhos em que certo personagem o incentivava a cultivar a música.

Com essa percepção socrática da arte, o coro e seu papel fundamental são absolutamente negligenciados, e à influência de Sócrates no que viria a ser a cultura ocidental é atribuído o pessimismo que, por sua vez, clama por uma renovação da arte.  Em oposição às aspirações do homem racional moderno, que teve Sócrates como seu ancestral, faz-se necessária uma arte que nos permita um consolo metafísico como aos antigos gregos, pois a lógica possui seus limites que acabam por encerrar este otimismo latente, de modo que não se pode realmente encontrar a serenidade que indiretamente se visa alcançar por meio  da ciência.

“Aqui se põe a questão de saber se a potência antagonista, cuja ação causou a perdição da tragédia, terá forças suficientes para impedir o despertar artístico da tragédia e da concepção trágica do mundo. Se a tragédia antiga foi desviada de seu caminho por uma tendência dialética orientada para o saber e o otimismo da ciência, desse fato se deveria concluir por uma luta eterna entre a concepção teórica e a concepção trágica  do mundo; e somente depois que o espírito científico, chegando até seus próprios limites extremos, tivesse reconhecido, pela constatação desses limites, o nada de sua pretensão para uma aptidão universal, seria permitido esperar um renascimento da tragédia; à guisa de símbolo dessa forma de cultura teríamos que erigir Sócrates estudando música, no sentido descrito anteriormente. Nessa comparação entendo por espírito científico essa fé na possibilidade de penetrar as leis da natureza e na virtude curativa universal conferida ao saber, pela primeira vez encarnada na pessoa de Sócrates.” [5]

Referências

[1] NIETZSCHE, Friedrich. O nascimento da Tragédia. Tradução: Antônio Carlos Braga, São Paulo: Escala, 2011. p. 39.

[2] NIETZSCHE, Friedrich. O nascimento da Tragédia… p. 61.

[3] NIETZSCHE, Friedrich. O nascimento da Tragédia… p. 92.

[4] NIETZSCHE, Friedrich. O nascimento da Tragédia… p. 101.

[5] NIETZSCHE, Friedrich. O nascimento da Tragédia… p. 121.

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