Argumento do academicismo é licença pra ser burro

O conceito de academicismo é parte do aspecto da internet da ideologia vigente: ele é emburrecedor e aprisionador. Clique aqui e entenda porque.

Ilustração: Pawel Kuczynski.

É necessário ter propriedade sobre o que se fala, eu acredito que não há melhor jeito para se conversar. Basicamente, você precisa saber direitinho aquilo que está comentando, discutindo, discorrendo e etc.

Eu vejo uma coisa interessante no aspecto específico da ideologia dominante dentro da internet: o uso de um conceito distorcido de academicismo para anular a necessidade e a importância do estudo (ou da prática daquilo que é estudado).

É sobre isso que vou falar a partir de agora.

O argumento do academicismo é o elogio à burrice. É quase como um incentivo ao senso comum.

O academicismo seria a crença fiel nos títulos acadêmicos, na autoridade da erudição. Não é algo muito complexo, mas a militância da internet o distorceu de maneira surreal.

Eu posso explicar, mas antes, vou mostrar alguns exemplos do argumento do academicismo.

Exemplos do argumento do academicismo em uso

Este é do site Festival Marginal. O nome do post é “This is squerda”, vejamos:

academicismo na esquerda
Detalhe para matéria da direita. Quer dizer que o problema dos trabalhadores é a depressão, não a exploração? Imagem: Festival Marginal.

O ponto chave aqui é a parte do “vai debater, usa referências literárias para deslegitimar a vivência dos outros”. O que isso significa? Significa que se eu embasar aquilo que eu digo a partir de um livro, eu sou academicista.

Mas só por isso? Claro que não.

A questão do academicismo não é isolada e o especto próprio da internet da ideologia vigente tem suas sistematizações. A vivência entra em oposição ao academicismo.

Eu já falei sobre a vivência aqui, você pode dar uma olhada e entender a função aglutinadora e selecionadora que ela exerce. O interessante sobre essa relação entre academicismo e vivência é sua localização: está na superfície dos significantes.

Como o exemplo mostra, citar um autor e contrariar o interlocutor é algo ruim. É o academicismo. É rejeitar a visão genuína do interlocutor.

Vejam o post abaixo, do Canal das Bee. É sobre um vídeo em que uma professora universitária comenta a possibilidade de homens serem feministas. Reparem no quarto ponto da nota de “escurecimento”.

É alí, alí mesmo, você viu certo. A página pede desculpas pelo academicismo da professora universitária. Mas como esse academicismo apareceu? “é inevitável, é de onde ela fala”. É o local de fala! Claro, ela não está na universidade, mas carrega consigo as regras do local de fala da universidade, já que, essencialmente, ela é professora universitária. Percebem como os conceitos da internet se entrecruzam?

Sabem o pior? O vídeo é superdidático. O vídeo é realmente didático. Você pode concordar ou não com seu conteúdo, não é problema meu, mas precisa concordar que é simples.

Foi necessário pedir desculpas por alguém não falar o senso comum. Por alguém citar autores. Por citar de quando é essa discussão (do protagonismo e etc). Vejam o vídeo depois, podem confiar em mim.

O exemplo abaixo também é clássico. Repete a oposição entre vivência e academicismo.

academicismo militância
Não peça fonte. Just believe. Imagem: Facebook.

Pedir fonte é academicismo, porque é obrigação do interlocutor acreditar. Acreditar. Igual um religioso. É claro que ninguém acredita, o ponto não é esse: o ponto é fazer a pessoa se negar a pedir as fontes, esse é o grande lance. Fazer o interlocutor se castrar.

O próximo exemplo é do texto A Militância Dementadora, que eu publiquei aqui no Colunas Tortas. A comentarista me chama de academicista por usar conceitos de autores para compreender o fenômeno da internet (aposto que usar numa frase as palavras “conceito”, “compreender” e “fenômeno” também me faria academicista, pra comentarista).

academicismo
Esta foi pra mim. Uma honra. Imagem: Colunas Tortas.

Eu analisei a militância da internet – bem por cima, afinal, é uma coluna – com autores que estudei e fui taxado de academicista. Eu deveria ter usado o senso comum, então?

O contrário do academicismo

 Agora o assunto fica bem academicista.

Nos exemplos indicados, o que é o contrário do academicismo? É a vivência. E o que é a vivência? É o operador lógico do local de fala. O local de fala, por sua vez, tem função epistemológica, é aquilo que garante o pronunciamento da verdade. Isso tudo você pode entender melhor aqui.

O academicismo, como o quote do Canal das Bee mostra, é parte do local da academia. O local não é geográfico, mas é “de fala”.

Mas de que é feito o local de fala dos grupos da internet? É necessário lembrar que eu estou falando de um conceito exclusivo do aspecto da ideologia dominante que emergiu na internet, que é próprio da internet.

Os grupos da internet tem seu local de fala baseado em características físicas, em etiquetas verbais e em uma gama de leituras específicas, que introduzem o leitor aos conceitos das internet, à ideologia.

São punhados de textos de blogs, Tumblr’s, são páginas do Facebook que devem ser seguidas, são canais do Youtube que devem ser vistos e memes que devem ser entendidos. Além, é claro, de popstar’s nacionais e internacionais que devem ser seguidas e seguidos por sua suposta atitude contra-hegemônica (como a M.I.A., a Beyoncé ou a MC Carol).

Mas, no geral, o que esses textos de blog, memes, postagens de Facebook e canais do Youtube são? São a superfície. Não se aprofundam – tanto que o vídeo didático do Canal das Bee foi chamado de academicista, imagine se fosse uma palestra? Não seria nem vista.

É característica das redes sociais manter um certo grau de superficialidade, de ser um diretório de memes e manchetes (já que ninguém clica na matéria, a não ser que seja uma lista do BuzzFeed). Também é normal dos blogs manter um padrão raso de análises: você pode se estender mais, mas não se aprofunda. Você fala mais, mas não fala melhor.

O contrário do academicismo, sendo assim, é a superficialidade da comunicação na web 2.0. Você não deve ser academicista, deve continuar a usar os termos, conceitos, linhas de pensamento e cânones da própria internet.

O problema, como eu já disse, é que a internet é rasa. As redes sociais são rasas. A maioria dos blogs são rasos. E quando há um canal que não é raso, ele é taxado de academicista. Mas por quê? Porque o argumento do academicismo é parte integrante da relação que a militância dementadora tem com o mundo, mediado por locais de fala, por vivências e privilégios.

É por isso que o argumento do academicismo é uma ode à burrice. Ele te força a ficar no limite dos textos de blog e postagens de Facebook. Quando você sai desses limites, você precisa tomar cuidado para não usar aquilo que aprendeu e “atropelar vivências”.

Vejam isso,

academicismo facebook
A esquerda deve facilitar, afinal, não existe trabalho de base, certo? Imagem: Facebook.

Isto é parte de uma postagem do Facebook de uma pessoa que dizia ter dificuldades em estudar os livros da faculdade por ter feito ensino básico de má qualidade e termina por dizer que a esquerda deve maneirar na caneta pra que ele e todas as pessoas com dificuldades entendam.

As pessoas não precisam dedicar um tempo lendo, passo-a-passo, para depois chegar em livros difíceis. Os livros difíceis que devem ser facilitados.

O autor ainda faz parecer que a esquerda faz livros difíceis por demonstração fútil de erudição. O problema é: para sair do senso comum é necessário quebrar padrões de linguagem também. Conceitos vão ser criados e eles não serão fáceis de se entender.

Essa reivindicação por uma esquerda café-com-leite também tem relação com a leitura baseada no Facebook e em blogs. São leituras rápidas, não aguentam esperar. Da mesma maneira, pedir pra um livro difícil se tornar fácil é pedir para que o processo de aprendizagem seja excluído.

Na prática, é pedir para que marxistas deixem de falar a respeito da exploração do trabalhador e comecem a falar sobre local de fala e vivência do trabalhador.

Não tem nada de “pelo bem dos oprimidos”, é uma característica de época: não se lê profundamente porque o paradigma da leitura é o post de Facebook com 200 caracteres. Só que o mundo todo foi feito com base em documentos de 200 páginas, aí fode de vez a situação do estudante. Ele, obrigado a ler 50 páginas de um livro, não consegue se concentrar direito nem pra ler a primeira.

Ao invés de tentar olhar para a própria vida dentro do capitalismo, que é feita para ser apressada e superficial, prefere-se dizer que os livros são desnecessariamente difíceis.

É emburrecedor.

O academicismo, da maneira como é usado na internet, é um conceito dentro do sistema formado por este aspecto particular da ideologia dominante: ele funciona junto com o local de fala e com a vivência. Assim como o conceito de apropriação cultural, o conceito de academicismo é uma maneira direta de castrar o interlocutor, de fazer o outro pedir desculpas por não ser aquilo que deveria ser.

É um conceito que delimita o rol de leituras da militância dementadora e a mantém! Afinal, é objetivo de um grupo saudável se manter, se reproduzir.

É isso:

  • Quando castra o outro, o conceito de academicismo se alia ao conceito de local de fala – e o interlocutor precisa se desconstruir.
  • Quando anula a palavra do outro, o conceito de academicismo se alia ao conceito de vivência – novamente, o interlocutor precisa rever seus privilégios e se desconstruir.

***

Leituras obrigatórias

A apropriação cultural é uma mentira: clique aqui e entenda porque eu digo isso.

Entenda a crítica ao local de fala, que mais parece um conceito essencialista, clique aqui

O conceito de “desconstrução” (sabe, quando alguém fala “você precisa se desconstruir”) não faz o menor sentido. Entenda aqui o por quê.

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19 Comments

  1. Hei de discordar de você (pelo menos de partes do que você disse) de uma forma bem academicista:
    “É possível ensinar qualquer assunto, de uma maneira intelectualmente honesta, a qualquer criança em qualquer estágio de desenvolvimento”. BRUNER, Jerome. (risos)

    Tá certo que ninguém é obrigado a saber ensinar ninguém. Eu estudo a 3 anos pra tentar aprender a ensinar, e ainda não sei. Mas, querer dizer que todo mundo é obrigado a ler livros extremamente difíceis para aprender sobre marxismo ou feminismo é falacioso. Poderiam sim existir livros simplificados (e eu não estou nem falando de “200 caracteres” nem de “local de fala”), com imagens, e uma linguagem não tão erudita. Dar esta oportunidade de aprendizado as pessoas não tão intelectuais é o que poderia inclusive tirá-las do mundo exclusivo das vivencias pessoais.

    1. Acredito que não. Você pode ensinar uma cadeia de significantes para qualquer um, mas um significado específico não é tão simples de ser transferido.

      Você pode dizer repetidas vezes que a mais-valia é fruto da exploração do trabalho, qualquer um entenderá. Mas para explicar o conceito de mais-valia, será necessário pegar os economistas clássicos e pra isso, você vai precisar de tempo e dedicação.

    2. Concordo com a Carolina. Adorei demais o texto do Blog, identifiquei-me muito com as ressalvas que tenho com essa militância de internet e a superficialidade que a gente vê por aí. Mas concordo com ela que dá pra facilitar também. Acho que tem que se buscar um equilíbrio. mas lembrando-me de quando eu era militante em universidade (apesar de sempre me esforçar muito com os estudos) noto que era notal uma certa prepotência como vejo na juventude hoje. Parece até que é algo “estrutural” desses movimentos. Talvez seja uma cultura política ou acadêmica (um conjunto de práticas que herdamos nas próprias instituições e suas sociabilidades) que deveríamos rever. Ninguém precisa concordar com tudo e ninguém precisa ser agredido pelas suas posições. Eu acho a forma muito ofensiva como a galera se posiciona, inclusive tratando quem é simpático ou até da luta da mesma maneira como atacariam um machista ou homofóbico por exemplo. Acho uma pena. Mas não há só lado negativo, tem coisas positivas também. Na verdade, acho boa a ideia de cultivar fontes e se basear em dados comuns (sejam de internet ou de livros, acho ambos válidos) e que esse fetiche da experiência é mesmo muito falso. A experiência é importante sim, mas não é a única forma de conhecer; e lembremos que a experiência também pode nos enganar, basta (se tiver interesse) ler os autores que defenderam e problematizaram a experiência ou o próprio legado da psicanálise com conceitos como projeção, inconsciente, etc. Enfim! Adorei o texto! Bom saber que tem gente ponderando legal essas questões.

  2. Não sejamos maniqueístas! Não há só vivência e nem só academicismo. Quando se critica um, não se deve eliminá-lo em proveito do outro. Há nuances. Como em tudo na vida. Não se deve eliminar o processo normal de educação, às vezes doloroso e difícil. No entanto, são muito bem-vindas as iniciativas que visem a facilitar o aprendizado, torná-lo atraente e mais próximo da realidade dos educandos. Não se quer dizer que se devam eliminar etapas do processo educacional, mas construí-lo para que seja cada vez mais efetivo.

    1. Sim, concordo, sem maniqueísmo.

      A experiência vivida é muito boa, assim como o aprendizado por meio de livros, palestras, filmes e etc.

  3. Só gostaria de fazer uma observação quanto a legenda da primeira imagem do artigo, que diz: “Detalhe para matéria da direita. Quer dizer que o problema dos trabalhadores é a depressão, não a exploração? Imagem: Festival Marginal.”

    Eu mesmo compartilhei esse texto no Facebook e ele não tem absolutamente nada a ver com Academicismo, esse texto fala justamente sobre a exploração dos trabalhadores de shoppings centers. Vamos tentar não distorcer as coisas, né? Fica feio.

  4. Bizarra. Tu quer criticar o senso comum usando de senso comum? Vou usar de só dois pra entrar na brincadeira também, porque não sou de ferro: Freire e Foucault. Bem, todo saber pode produzir poder e, ao jurar pela garantia de qualidade da academia, ignorar a vaidade dos escritores (Voltaire explica isso bem, Nietzsche explica do jeito dele), e abastecer-se do declinante positivismo cientificista, só está gerando outros limites (limites novos, mas dentro do velho senso comum) para a expansão do pensamento.
    É possível explicar conceitos complexos de maneira simples, desde que a relação entre quem explica e quem aprende esteja afinada. Neste caso, concordo contigo: não tem como um autor do sec 13 projetar uma leitura didática pra nós. Porém, alguém que tenha noção do conceito e habilidade de educação popular, pode transmiti-lo de maneira legível sem nem tocar em seu nome.
    Agora, a maior apelação foi: academicismo plus burrice. Qual é? É sério isso? Sério, menino, que tu quer discutir totalitarismo retórico com autoridade intelectual? Poxa, tem que ter “propriedade” pra ter argumento? Sei que não foi tua intenção, mas levando no extremo, não é possível haver dialogia ou dialética tendo uma verdade como objeto.
    Pelo que pareceu, tu diz que uma epistemologia é pior que outra porque usa de senso comum, usando o senso comum como fundamento? A academia é apenas uma das formas de apreensão e compreensão do real (e do virtual, metafísico, bla bla)…
    Eeeee pra finalizar: mano, não leva o facebook a sério. É só uma brincadeirinha… Lembra o pessoal brincando de revolução nos centros acadêmicos? Então… A molecada tá bem perdidinha, brigando pelos pedestais, que hoje são muitos. Pouco piorou, a diferença é que as paredes dos novos centros acadêmicos são de vidro. Para com isso, vai te fazer mal

    1. Esse texto foi focado na maneira como o conceito de academicismo é usado no facebook e, como extrapolação, vai pras universidades e pros movimentos sociais.

      Então, eu preciso levar à sério.

    2. Parabéns, a dicotomia intelectual adoece bastante, acredito que virão outras brincadeirinhas piores que as do Facebook.
      […] Eeeee pra finalizar: mano, não leva o facebook a sério. É só uma brincadeirinha… Lembra o pessoal brincando de revolução nos centros acadêmicos? Então… A molecada tá bem perdidinha, brigando pelos pedestais, que hoje são muitos. Pouco piorou, a diferença é que as paredes dos novos centros acadêmicos são de vidro. Para com isso, vai te fazer mal

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