Línguas que ninguém se lembra, contam histórias que ninguém recorda

Como um corpo de um idoso falecido, que ninguém lhe perguntou nada a respeito antes de morrer.

Da Série Contos de uma São Paulo Privada

barfunda-spr_mbb_100201Foi necessário Elisângela esperar três anos para conseguir a aprovação do projeto pelo governo federal, que depois transferiu o financiamento para a Reorganização Particular de Títulos para Privatização, conhecida como Repartição, a empresa que era um conglomerado de empresas privadas que administrava a região de São Paulo, aonde iria realizar sua pesquisa. Formou uma equipe composta por outros dois linguistas e um arqueólogo urbano.

O interesse pela pichação, ou “pixação”, começou ainda pequena, vendo os muros pelo caminho da Linha de trem Diadema-Jabaquara, quando ia ao centro com sua Tia Tânia. Tentava procurar os mais antigos, e tirava uma foto da janela do trem. No início da adolescência perdia as horas vendo os prédios do centro velho, que eram abarrotados de Tags em todos os cantos.

Aos 17, entrou na faculdade de letras e descobriu na filologia um meio de estudar aquele tipo de arte que tanto gostava. Começou a ler todos os artigos, acadêmico ou jornalístico, que encontrava, a respeito dos diferentes tipos de grafias.

Descobriu que era muito complicado conseguir que aquele tipo de registro fosse preservado, pois havia se distanciado do Grafite, que se tornara uma manifestação artística reconhecida mundialmente, para apenas algo com o intuito de poluir visualmente. Apesar de que outras pessoas antes dele já terem tentado explicar a importância daquelas manifestações, fora sempre difícil conseguir um reconhecimento.

Só que analisando mais a fundo, começou a perceber que lá pela década de 2020, ela se tornara uma espécie de literatura de cordel Urbana, usada para retratar acontecimentos do dia a dia popular. Uma forma de se desprender do mundo digital.

Elisângela ganhou uma bolsa para realizar seu mestrado na Bélgica sobre os estudos das “folinhas”, pedaços de papel aonde havia varias assinaturas de pichação, que relatavam um complicado caso de greve trabalhista em uma metalúrgica na Avenida Presidente Wilson em 2032, ainda na gestão publica. Os manifestantes conseguiram se defender da repressão da tropa de choque da Policia Militar com o uso de coquetéis Molotovs e bombas de fumaça caseira. A sua tese recebeu nota máxima, o que lhe deu força para conseguir que seus futuros projetos tivesse reconhecimento internacional.

Os Campos de Estudo

Elisângela achou na São Paulo Privatizada um ótimo lugar para a catalogação das pichações. Já tinha uma extensa enciclopédia digital, com várias assinaturas dos pichadores da região, das quais apenas 10% havia conseguido descobrir quem eram os indivíduos. O mais triste daquela forma de expressão era que se deteriorava muito rápido, e conforme os anos poucas pessoas passaram a se importar, fazendo com que seus autores fossem apenas os muros e construções que elas se encontravam. Além dos atropelos e pichações em cima das outras, o que dificultava muito o seu trabalho e do resto da equipe.

Quando a Repartição tomou conta da região, que se estendia da Baixa Augusta até o Parque da Luz, pegando a Republica, o Centro velho e o Brás, os mandatos públicos de demolição aos edifícios condenados foram congelados, então Elisângela viu naquilo uma boa oportunidade para continuar seus estudos.

Podia analisar os prédios que tanto a encantavam na juventude, além das escritas em si, o tipo de tinta usada, se era no spray ou rolinho.

045

Quando a Recon assumiu a segurança da região, conseguiu ter acesso as fichas criminais de alguns pichadores. Descobriu que muitos “Desapareceram” após o governo do Estado impor duras leis contra poluição visual.

O que mais revoltava Elisângela foi que a pichação era uma das poucas coisas que haviam sobrevivido à internet, mas sofreram com a repressão publica. Para a maioria daquela época, a pichação foi algo já extinto, que quando as pessoas viam tinham tão pouco sentido como tatuagens em um corpo de um idoso falecido, que ninguém lhe perguntou nada a respeito antes de morrer.

A ilíada da São Bento

coração

Analisando junto com sua equipe vários papéis que conseguiu nos arquivos da policia e também pesquisando pelo centro velho, Elisângela começou a descobrir uma história. Foi se formando ao poucos, sendo recorrentes nas folinhas e pichações dos anos de 2035 a 2040 presentes nos prédios e construções históricas das proximidades do largo São Bento.

Era sobre o triangulo amoroso de três Tags: Carlos “Siri”, Raissa e Tônia [email protected]

Carlos “Siri” era casado com Raissa, moravam em Itaquera. Os dois se conheceram quando fugiam da policia após invadir um edifício antigo na Rua Florencio de Abreu, um mega role de pixação envolvendo quase cinquenta pessoas de todas as zonas de São Paulo.

Achou varias mensagens de Carlos “Siri” exaltando seu amor por Raissa, assim como algumas dela também.  Sempre nos pontos mais altos e com destaque dos edifícios. Também descobriu dois boletins de ocorrência de quando foram presos juntos.

Após dois anos de relacionamento, Elisângela começou a encontrar muitas mensagens escondidas nos banheiros ou paredes mais ocultas de Carlos desrespeitando alguém chamado de Zé Roça, que havia “ido tarde” como costumava colocar nas pichações.

Descobriu que Zé Roça era, na verdade, José Everaldo Mariano. Havia passado quatro anos preso por tráfico de drogas e cumpriu três por tentativa de assassinato, sendo morto em uma briga no presídio Geraldo Alckmin localizado em um antigo colégio na região do Ipiranga.A vitima da tentativa de assassinato era Antônia Souza, mulher de José.

Raissa havia se afastado das pichações depois que teve seu primeiro filho, Glauber, do qual Carlos fez uma mega obra na parede do prédio dos correios em sua homenagem. Com isso, Elias começou a descobrir que ele e Antônia Souza, que tinha a tag Tônia [email protected], começaram trocar homenagens pelas pontes e postes da cidade.

Elisângela encontrou um pedido de divórcio de Raissa Amaral Nogueira, residente na Rua Colombo, numero 330, em Itaquera para Carlos Albuquerque Nogueira. No documento, havia também um pedido de pagamento de pensão para Glauber Amaral Nogueira. O pedido não fora assinado, e Carlos não compareceu a três intimações jurídicas em seu nome.

Em 2039, Carlos “Siri” e Tônia [email protected] foram encontrados mortos no Pátio do Colégio, ele com um tiro na cabeça, e ela com dois no abdômen, enquanto fazia uma uma pichação juntos. O assassino nunca foi encontrado pela policia.

Mas analisando o local, Elisângela e sua equipe encontraram resquícios de outra pichação do contorno do corpo no local aonde os dois foram assassinados com “Ninguém se esquece”, feita um ano depois do crime.

Elisângela estava pensando seriamente em escrever um livro a respeito daquela e outras histórias que as pichações contavam. Em uma língua que, infelizmente, não seria esquecida pelo preconceito. Pois a pichação se tornou reflexo daquele mundo quase transparente, aonde quase nada resiste ao teste do tempo.

***

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4 Comments

    1. Olá Chrys!
      Tudo bem?
      Então a ideia dessa coluna de contos é retratar uma São Paulo futura, aonde algumas partes dela foram totalmente privatizadas. Ai para isso eu avancei um pouco no tempos e o período presente que as histórias se situam eu não acho legal colocar, porque posso acabar datando demais. Mas como era preciso colocar um passado para representar a questão de como a pichação, nesse futuro, ira desaparecer, por causa do caráter de total protesto e anti-establishment, eu coloquei algumas datas para situar o leitor na profissão da personagem principal, que é a de decifrar esses signos espalhados por São Paulo.
      Espero ter respondido sua duvida, qualquer outra não hesite em perguntar!
      Abraço!!

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