Sexo e dinheiro, tem como lidar com isso?

Prostituição é trabalho? Vamos raciocinar sobre a possibilidade de sexo ser muito mais do que item sagrado, mas também parte do corpo vulgar. Clique e veja.

Na foto: Amara Moira. Puta Dei na assembleia legislativa do RGS, com defesa à regulamentação. Foto: Guilherme Santos/Sul21

Tenho algumas reflexões em processo de produção, em trabalho de parto.

São linhas de raciocínio que talvez seja interessante deixar abertas para me certificar de algum erro e conseguir alguns conselhos.

O tema é árido e ao mesmo tempo não é: prostituição é trabalho? Transar é trabalho?

Acredito que é necessário seguir uma progressão que vai do mais óbvio ao menos óbvio para resolver este problema (que eu assumo ser um problema, claro).

Do corpo

1. O corpo é necessário para qualquer tipo de produção.

2. Sem o corpo, nenhum trabalho é feito, nenhuma tarefa é executada.

3. Prostitutas vendem um serviço que precisa do corpo para ser feito.

4. Prostitutas não vendem o corpo porque, terminado o serviço, sua utilidade [do serviço] acaba e relação comercial tem seu fim.

5. A diferença do corpo entre uma prostituta e um operador de call center é o domínio de técnicas e a prática dessas técnicas que podem fazer para produzir.

6. Quando falamos que o corpo é vendido, esquecemos que existe uma relação de trabalho.

7. Sendo relação de trabalho, também é uma relação de poder.

8. Sendo relação de poder, o dominado não se põe nela como vítima absoluta ou sujeito livre para fazer suas escolhas. Este não é o jeito certo de se pautar a discussão sobre o trabalho, já que trabalho não depende da vontade livre (ou da vontade manipulada).

Da vontade

1. Trabalhadores e trabalhadoras não vendem sua força de trabalho ou seu trabalho porque querem. Vendem porque, em uma sociedade capitalista, essa é a única opção para aqueles que não são proprietários de meios de produção.

2. Trabalhadores e trabalhadoras podem, superficialmente, querer trabalhar em algum lugar ou em alguma profissão, mas esse desejo não nasce no sujeito, assim como nenhum desejo.

3. Este desejo nasce em uma sociedade de classes. O sujeito é constituído em uma sociedade de classes e desejos diferentes são distribuídos diferentemente na sociedade. É por isso que o sonho do peão é ser líder de produção, não banqueiro.

4. Por isso, é possível desejar um emprego específico, um cargo específico e uma vida específica, mas este desejo não é livre, pois não nasceu no sujeito (e nunca nascerá).

5. Sendo assim, NENHUM trabalhador ou trabalhadora deseja seu trabalho. Não porque em uma mundo ideal as pessoas desejariam trabalhar: o ponto não é o desejo, mas sim a necessidade objetiva.

6. Trabalhadores e trabalhadoras trabalham porque é somente assim que se vive. Não há outra opção.

7. Prostitutas, assim como atendentes de call center, peões de fábrica e assistentes contábil, não desejam trabalhar como prostitutas, na medida em que o desejo de que eu estou falando não existe da maneira como é dito no senso comum, não é fundado no sujeito.

8. O desejo de trabalhar, desta forma, não é tópico relevante, porque trabalhar não depende do desejo, mas de determinação objetiva. Trabalhe ou morra.

Da aceitação

1. Uma relação social é feita de duas pontas que se seguram. Relações de trabalho são relações sociais de poder.

2. Essas duas pontas não se seguram na mesma proporção. Um lado é mais fraco, o outro menos fraco.

3. Chamaremos o lado mais fraco de dominado e o outro lado de dominante.

4. Dominados se mantém nessa relação social, ao trabalharem para dominantes.

5. Dominados não podem sair desta relação de poder a não ser por meio da revolução.

6. Dominados, portanto, objetivamente, aceitam trabalhar para dominantes.

7. Aceitam porque precisam, não porque querem. Querer não é nem mesmo relevante. O “não porque querem” significa que querer não faz parte de uma análise assim.

8. Esta aceitação é fruto da ideologia da classe dominante, não por enganar os trabalhadores e trabalhadoras, mas ao dar sentido (ao mundo) que tenda a deixar o trabalhador ou trabalhadora em posição de dominado, sustentando o dominante.

Ou seja

Se isso faz sentido, qual é a diferença entre o trabalho do operador de call center, de um bombeiro, de um sapateiro, de um afiador de facas itinerante, de um peão de fábrica, de um assistente contábil e de uma prostituta?

O uso da genitália. Talvez mais uma coisa: a possibilidade de prazer de ambas as partes. Este prazer, claro, é uma carnal, qual eu falo.

Por que isso faria sentido? Qual é a distinção entre o uso do sexo e dos braços na hora do trabalho? O cristianismo carrega a resposta.

É de lá que o sexo como moeda de troca, como trabalho, como possibilidade de uso vulgar foi descartado. O sexo, agora, é sagrado.

1. O sexo sagrado nem mesmo deve ser comentado.

2. Sexo deve ser imaculado. Imaculado de qualquer relação com o diabo, com o prazer carnal, animal.

3. Todos transam, é o pecado original. Temos que pagar isso durante nossas vidas.

4. Na modernidade, um ponto muda: o que deve ter o sexo válido? Amor.

5. Se antes havia uma pancada de jeitos de falar o que o sexo era de ruim, hoje há um jeito de dar aspecto positivo àquilo que não pode mais ser negado como fonte de prazer na modernidade.

6. O amor é o que torna o sexo imaculado. Imaculado do vulgar.

7. Sexo com amor é sexo sagrado.

E o sexo sem amor, o que acontece? Deve ser banido. A prostituição não é exatamente isso? Claro que sim. É o sexo que deve ser banido.

A fria relação de troca que acontece na prostituição não carrega nem um pouco da justificação cristã que ainda atua subrepticiamente na ideologia dominante. Não há amor, há puro comércio.

Os corpos, no capitalismo, são objetos por excelência. São produzidos para exercer suas funções na sociedade. Não há nenhuma liberdade com o corpo que fizesse de sua venda uma legitimação da objetificação do corpo.

Pelo contrário, se formos pensar em uma liberdade prática, que envolve alguma possibilidade de exercício de poder, seja ele qual for, com o mínimo de proteção dentro de uma sociedade capitalista, esta liberdade pediria proteção legal (pois vivemos uma sociedade de direito) para o exercício de suas profissões.

É necessário entender que o status religioso de negar que prostituição é trabalho, muito ruim nas vozes religiosas e pior ainda sob uma manta progressista, é uma maneira de exatamente não regulamentar uma profissão há muito exercida.

Não regulamentar trabalho favorece somente ao capitalista.

Como regulamentar? Não sei. Mas posso dizer que o debate que estava rolando pode ser lido aqui. Tem a ver com o projeto de lei de Jean Willys, o Gabriela Leite, que regulamenta a profissão mas deixa até 50% do dinheiro para empresários, cabendo ao sindicato lutar por taxas menores.

Recapitulando

A prostituição é trabalho porque envolve a venda de um serviço por uma profissional que precisa de dinheiro para viver, porque essa é sua única opção no mundo enquanto trabalhadora. O único jeito de viver em uma sociedade que exige seu trabalho de alguma forma.

As formas são distribuídas pela divisão social do trabalho. Por isso há mais mulheres prostitutas do que homens e mais homens pedreiros do que mulheres. Não há essência nenhuma que faça dos homens melhores pedreiros ou das mulheres melhores prostitutas.

A divisão social do trabalho é aquilo que, a partir de regras machistas, cria a depreciação do valor do sexo dentre todas as profissões possíveis. Essa depreciação tem como uma de suas principais veias, o cristianismo e seus vestígios.

4 Comments

  1. Visão míope de quem só aprendeu a raciocinar dentro da anacrônica análise marxista. Pobre e lamentável diagnóstico de um tema que poderia ser mais inteligentemente abordado. VALTER MAGNAROLI é um retrato da mediocridade que impera nos blogs deste país. A tecnologia avançou muito mais do que a educação no Brasil.

  2. Outro problema que não foi abordado é geralmente a relação do poder de um homem, que já tem poder dentro de nossa sociedade machista, e submissão de uma mulher (a prostituta), não raras vezes esta apanha e é humilhada nesta relação de poder. Temos ainda a figura do cafetão, um homem, que protege a prostituta destas violências ao mesmo tempo que explora a mesma. Existe uma relação machista bem forte na prostituição. É preciso levar também em consideração tais análises.

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