Autoinconsciência grupal causa sérios danos a sanidade

Uma nova rede social divide o trabalho de falar sobre a sua vida com você... mas até quando isso não se torna um abuso? Clique e leia!

Da série Contos de uma São Paulo Privada.

digitalizar0038“Meu, como você me engana a semana inteira falando que iria ficar comigo e agora tu me dá um não na cara??”

“Foi o Subcó seu animal! Eu nem loguei nessa merda, a semana toda!”

Marino viu o momento exato em que Lucy deu um chute nas bolas de Brandão, quando ele tentou novamente lhe dar um beijo. O resto do pessoal da sala tentou separar a confusão, puxando cada um para uma ponta.

Já era talvez a quarta confusão que ela via por causa da rede social SubCons, lançada há uma semana. Todo mundo do seu curso já havia feito o cadastro e a maioria se deliciou por um dia e depois voltou para as que já faziam parte desde o nascimento. Mas outras pessoas ficaram usando por mais um tempo, e foram zoadas pelos SubCos dos perfis de outros usuários.

O que se fazia quando entrava no SubCons era realizar alguns testes psicológicos de personalidade e preencher formulários com informações pessoais, e algumas questões referentes a pessoas que também estavam na rede social, como “Marque pessoas que você esta a fim” ou “que você não gosta”. Com esses dados, os SubCos, inteligências artificiais desenvolvidas pelos criadores da rede social, começavam a reproduzir a personalidade da pessoa, com base na informação disponível. Mas o que fazia o SubCons estar sendo tão falado era que não havia como saber quando era o SubCo que estava falando ou a própria pessoa. A rede social havia sido banida em países como Estados Unidos e Noruega, onde as leis sobre esse tipo de emulação pessoal eram bem mais rígidas.

Mas Marino só sabia disso pelo boca-a-boca, pois não havia feito o cadastro no SubCons. Para ela, indo contra as conversas que tinha com seu psicólogo online, o Doutor [email protected] Redes Sociais muito “ousadas” como estas, a deixavam muito tensa e agravavam a sua Depressão Ansiolítica leve, problema que pesava um pouco mais agora que tinha 16 anos. Os sintomas começaram a aparecer há uns dois anos, em consequência de pequenos lapsos de memória. Mas seu doutor insistia que tentasse ações como essa, para se socializar mais; ele ainda conversa com seus pais, dando conselhos e sugestões para deixar sua vida melhor.

Havia conseguido uma matrícula no curso de profissionalização dado por uma empresa contratada pela Repartição, sendo destinado aos jovens que moravam na região que administrava. Mas ela estava percebendo que não havia muito de bagagem que a preparasse para o mercado de trabalho.

A maioria dos professores, mesmo esforçados, tinha apenas como conteúdo vídeos motivacionais que poderiam ser simplesmente mandados para que os alunos assistissem em casa. O professor que estava cuidando da sala no dia, um homem pálido e alto que parecia um cadáver, chamado Philip, destinava olhares feios para ela e quando Marino pediu para ir ao banheiro ele a ignorou, olhando mais feio depois.

Para entrar na instituição, localizada em uma casa velha próxima à Praça da Sé, era necessário usar o uniforme, que depois de algumas semanas de aula não era mais cobrado pelos inspetores. Mas, mesmo assim, seus pais gastaram para conseguir comprar o conjunto verde claro, que agora usava apenas na quarta e sexta, dias em que o curso era dado.

A sirene secular anunciou o intervalo, que  era de quase uma hora, período no qual Marino ficaria sentada em algum canto do pátio do edifício, observando as conversas alheias, enquanto ouvia música.

Saindo da sala, que dava para o corredor do segundo andar cor de creme com mais algumas turmas, Marino avistou Lauro. Estava indo em sua direção, e os dois iriam descer a escada que dava para o pátio juntos.

Sua respiração pareceu pesada, era como se naquele momento os pulmões estivessem ligados às órbitas e cada vez que ela olhava para Lauro, ficava mais difícil puxar o ar. Ele era um pouco mais alto que Marino, negro e com um grande cabelo que era perfeitamente redondo como um biscoito. Tinha covinhas nas bochechas que, quando sorria, ficavam um pouco mais abertas, igual estava fazendo para ela ago…

Marino tomou um susto! Olhou para trás, na intenção de ver alguma outra pessoa para qual Lauro poderia estar olhando, mas atrás dela havia apenas um dos professores, distraído com o seu aparelho celular e ao seu lado um grupo de garotos discutindo euforicamente algo em que não prestou atenção.

Era mesmo para Marino, seus olhos ainda estavam estacionados aos dela, esperando uma resposta. Dois metros começavam a se tornar um e meio, um, e sentiu todo seu corpo tremer, teve impulso de voltar para a sala, mas a meio metro de distancia, retribuiu o sorriso.

Já começaram a conversar na escada. Apesar da timidez, Marino seguiu o “E aê?” dado por Lauro e o papo se desenrolou por quase meia hora, antes de se beijarem, ao lado da cantina.

Sem permissão

Depois de algum tempo, os dois ficaram abraçados, conversando sobre o que cada um fazia durante a semana. Marino, desde que entrou no cursinho, havia sentido algo por Lauro. Mas nunca teve coragem de olhar por mais de alguns segundos para ele, ou mesmo encará-lo. Estava subindo para conhecer a sala de aula, quando o viu pela primeira vez. Ele estava  um pouco a sua frente, conversando com uma garota.

Havia comentado sobre ele em uma das seções online que teve com seu psicólogo/psiquiatra. O Doutor [email protected] a havia incentivado a tentar puxar assunto com Lauro, porque era necessário que ela superasse sua timidez com pequenas ações que a fariam se sentir mais à vontade na sua vida social.

Mas, como na maioria das coisas que discutia nas seções, não dava muita atenção para as coisas que dizia. A ideia do psicólogo havia sido de seu pai, que quando descobriu a sua depressão ansiolítica havia “ se sentido culpado de ter dado a ela um nome masculino.”, o que não era um fator tão incomum.

Lauro lhe disse que iria tentar o vestibular para algo relacionado a exatas, ainda estava em dúvida. Quando não estava procurando emprego, passava as horas assistindo campeonatos de E Sport ou resumos comentados dos filmes que estreavam na semana.

Marino gostava de desenhar em seu tablet; tentava reproduzir os cantos de sua casa, talvez prestasse algo relacionado a arquitetura, pois era o mais próximo que havia a respeito de artes nas faculdades de São Paulo.

 – Nossa, arquitetura? Like; é algo que se faz casa, não é? – Questionou Lauro, impressionado.

– Like, isso mesmo! – Ela lhe respondeu, apertando-se  mais no seu corpo.

 – Meu, como você é inteligente! Uma artista!

Continuaram abraçados, até que Marino sentiu vontade de ir ao banheiro, que era há alguns metros de onde estavam. Quando havia acabado de entrar na cabine, recebeu uma mensagem de Lauro.

“Poço T fazr 1 Prgunta? Like, naum precisa rspondr c vc naum kiSr.”

Espremeu os olhos involuntariamente, relendo a pergunta para ter certeza. O que seria? Ficou alegre quando veio a breve ideia de um pedido de namoro. Assim como se espantou com a ideia de ser de algo que reparou nela. “Porque o seu nariz é grande desse jeito?”, “Você nasceu com o cabelo branco ou tomou um susto muito grande?” Se sentou no vaso. Percebeu que suas mãos estavam suando, seus dedões deixaram a tela do celular oleosa.

Urinou primeiro, o que pareceu levar meia hora. Sentindo-se  um pouco mais calma, limpou a tela do celular no braço do uniforme. Lauro já havia mandando sete pontos de interrogação, esperando a resposta de Marino.

“Pod si J” – O sinal de que Lauro estava escrevendo fez gelar todo o seu corpo. Os três pontos que representavam o ato de escrever pareciam levar a um caminho que não terminaria naquela vida, algo intenso e de longa dura… A pergunta surgiu, levando todas as angustias de ansiedade embora, mas fazendo algumas piores surgirem.

“Foi vc ou ceu Subcó q Pdiu p Fikar comigo?”

Matemática: você tem um banheiro com uma pessoa aflita dentro…

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A pequena bateria de seu aparelho celular, muito parecida com as usadas pela maioria dos relógios do século XX,  havia ido parar na última cabine do banheiro. Alguém havia trancado-a por dentro e saído por baixo, e Marino, desesperadamente, esticava seu braço, tateando o chão azul claro grudento, pois iria tentar alcançar a bateria antes de se enfiar dentro da cabine. Por sorte, o cheiro da água sanitária a confortava pela limpeza do banheiro já ter ocorrido naquele dia.

Puxou a bateria, que veio deslizando até parar em seus joelhos. Marino, toda atrapalhada, tentava encaixá-la no aparelho. Suas mãos ainda estavam suadas e quase fizeram a pequena peça cair no chão. Precisava ligar logo aquela porcaria de celular! Queria ter certeza se o que havia lido tinha sido o que a fez derrubar o aparelho, apavorada.

– Marino? – Uma voz surgiu ecoando na acústica boa do banheiro – Tá tudo bem ai?

Pode ver um pedaço da perna de Lauro ao lado da porta. Questionou-se quanto tempo estava lá dentro. Não queria sair antes de ter certeza da pergunta.

– Eu… eu já vou sair! – Precisava de uma desculpa, ou duas, três, quatro – Eu perdi meu alargador! Não achando, mas logo ele aparece. Haha!

 – Você quer ajuda? Não tem ninguém por aqui, posso entrar ai – Lauro falou baixinho, mas qualquer um ali perto poderia ter ouvido.

– Não! Eu já acho aqui, não precisa se preocupar… Haha! – Marino percebera como a risada estava soando forçada.

Viu as pernas ficarem alguns segundos paradas ao lado da porta, um pouco sem reação.

 – bem… qualquer coisa me chama!

Pode voltar a perceber que respirava, quando ele saiu. Segurou bem seu celular, para que a confirmação da pergunta não a fizesse derrubar o aparelho novamente.

“Foi vc ou ceu Subcó q Pdiu p Fikar comigo?”

Mas como aquilo era possível? Marino nem havia baixado o aplicativo do SubCons, talvez Lauro havia se confundido, só que quem mais poderia ser?

Levantou-se e colocou o aplicativo da rede social para baixar. O sinal ali era um pouco fraco, mas não queria ir mais próxima à entrada do banheiro. Piscava freneticamente, numa boba mania que tinha, achando que, assim, a barra de download iria mais rápido.

A sirene veio como o anúncio de um terremoto. Começou a ver as sombras passando pela porta. Logo uma ficou parada por mais tempo.

– Lauro, pode subir! Não achei ainda; na saída conversamos!

Não precisou se preocupar se era ele ou não, o vulto respondeu com um fraco “Tá bem…” e sumiu da porta, aliviando um pouco a angústia de Marino.

Um empurrãozinho que te fez bater com a cara na parede

99%
Marino havia se trancado na cabine do banheiro novamente. Haviam se passado apenas cinco minutos do que pareciam ser dois anos. Parou com o piscar frenético, quando a mensagem avisando o fim do download surgiu.

Quando abriu o aplicativo, depois da breve instalação, foi automaticamente para a sua página principal do SubCons. Começou a verificar as postagens do perfil.

Além das postagens para Lauro, mensagens diretas a respeito de seus sentimentos por ele, haviam algumas outras para um monte de pessoas, entre elas uma moça chamada Cristina, da qual Marino não havia ido muito com a cara. A moça havia se mudado para o mesmo prédio que ela recentemente.
“Qual eh a çua ein eskrota? Fika M olhando feio pq?????”

Descobriu o motivo pelo qual o seu professor a olhava tão feio, ultimamente

“Pfvr M fala o Cgredo p ter eça cara d sem vida! Eh a alma q vc dIxa em Kaza?? ”
Havia mandado a mesma mensagem várias vezes, durante os últimos três dias.

“três dias?” Pensou em pânico. Há quanto tempo será que esse perfil estava ativado? Não conseguiu parar de tremer dentro da cabine e se lembrou dos lapsos de memória, já havia quase um ano que não os tinha, talvez estivessem voltando. Seus braços começaram a formigar e tremer. Pareceu que todo o mantra que desenvolveu para escapar daquilo havia sido em vão.

Acordou sentindo o corpo exausto, como se estivesse sido esticada, igual a uma massa. Estava deitada em cima de duas carteiras feitas de papelão grosso e reciclado, em um corredor que dava para a secretaria. Uma moça da secretaria do cursinho havia visto seus braços moles vazando pelo vão da cabine.

Um senhor que trabalhava como inspetor estava sentado ao seu lado, quando viu que Marino havia acordado, lhe deu um copo com água. – Até que enfim você acordou – disse com um sorriso murcho no rosto verde, em consequências das várias tatuagens desbotadas – seus pais já foram avisados, logo eles estarão aqui.

– Ah, sim… Nossa, obrigada! – deu um gole na água – Eu mal lembro o que aconteceu.

– A Dona Dirce te encontrou desmaiada no banheiro, há umas duas horas. Um moço com um cabelo afro te viu aqui e ficou todo desesperado. Ficou com você até mais ou menos uma meia hora atrás. A gente havia ligado para a emergência, mas eles estavam com falta de ambulâncias.

Seus pais chegaram e foram para o hospital. Durante o caminho e com as perguntas dos médicos quando chegou, foi remontando o que havia acontecido e, junto com isso, tentou puxar algo remetente à criação de seu perfil no Subcons, mas nada veio. Foi medicada com uma injeção mista de antidepressivos e ansiolíticos indicada por seu médico, o Doutor [email protected], questionado online pelo sistema da Clinica, e se sentiu mais calma: os pensamentos preocupantes com um futuro em que não se lembraria de nada que fizera, outra personalidade escondida, estavam inundados em uma dormência farmacêutica.

Lauro havia mandando mais de trinta mensagens, perguntando como estava, que lhe enviasse algo quando acordasse, pois estava muito preocupado. Pelo menos houve algo que passou os calmantes e lhe trouxe alegria, pois temeu que Lauro achasse que ela estivesse com diarreia ou disenteria, pelo tempo que demorara naquele banheiro. E a última coisa de que precisava era ficar com fama de “cagona” na escola.

Passando pelo corredor de seu apartamento, Cristina veio em sua direção. Se não estivesse dopada, com certeza se desmontaria de medo. Mas a moça, quando a viu, olhou assustada, voltando de onde veio apressada.

A primeira coisa que fez quando entrou em casa foi correr para o quarto e chamar o seu psicólogo. Viu uma necessidade louca de falar com ele, relatar tudo o que acontecera e receber um resultado, algo que a ajudasse a compreender o que estava acontecendo, ou mesmo a se conformar.

Após alguns minutos depois que o chamou no chat da clinica online, o Doutor [email protected] apareceu.

Explicou-lhe toda a situação, a ficada com Lauro, o seu Subcon desconhecido, o que aquilo iria lhe agravar, dadas as consequências. Mas não sabia se o apagava ou deixava ativo para tentar consertar o que o Subco havia feito.

O Doutor rapidamente respondeu:

“Claro que deixa! Ele te fez tomar algumas decisões por conta própria, não foi? Principalmente com o Lauro. E além do mais, para onde iria o meu esforço de preencher o seu perfil no Subcons?”

Marino ficou em parada por quase um minuto. Naquele momento não era a Inteligência Artificial que a incomodava, mas quanto aquele homem, que ela achava mal conhecer, a havia emulado seus pensamentos. Talvez (com certeza) seus pais haviam incentivado a ação, ajudando-o a preencher os formulários, usando as coisas das quais falava para sua mãe e as reclamações do dia a dia.

[email protected] mandou um Smile, que continha uma perversidade que nem um Subco muito bem programado conseguiria emitir.

“:)”

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