Avon e a cibermilitância: não caia no conto do vigário

A exploração capitalista também pode se transformar em apoiadora de causas social. Mas não se engane. Clique aqui e entenda os perigos de ser bocó.

Cena do comercial da Avon, com Lineker.
Cena do comercial da Avon, com Lineker.

Pretendo escrever um texto sobre a Avon. Isso mesmo, você não leu errado, irei falar sobre a multinacional estadunidense Avon.

Você deve saber que está rolando uma campanha da empresa com o nome Para TodEs!, com a participação de Elke Maravilha, Liniker, Tássia Reis e As Bahias e a Cozinha Mineira. O mote da campanha é o apoio à diversidade e à quebra de padrões de gênero, já que o “E” substitui o “a”, retirando a indicação de gênero da palavra. A campanha seria uma homenagem ao público LGBT.

A Avon, inclusive, é aquela empresa que – como a Jequiti – é “parceira” de consultoras de vendas, que colocam o anúncio da marca em suas casas e saem vendendo seus itens para amigas, amigos, parentes e etc. Com certeza você já viu uma consultora de vendas da Avon perto de sua casa.

A Avon, aliás, mantém um quadro de consultoras de vendas porque assim não precisa lidar com direitos trabalhistas. Isso tanto é verdade que, em 2015, foi necessário a intervenção do TRT para que a empresa reconhecesse o vínculo empregatício junta à consultora.

Consultoras de venda realizam a comercialização das mercadorias da marca e fazem propaganda gratuita, quando vão de casa em casa negociar cada produto ou quando colocam em suas casas uma placa para sinalizar que são vendedoras da marca.

Enfim, isso não deveria me tomar muito tempo, afinal, o que importa é você saber que a Avon é uma empresa como qualquer outra. Ela pretende lucrar mais, seja lá como for. Uma das maneiras de não precisar contratar vendedores foi se utilizar da brecha que a função de “consultora de vendas” permite, evitando o vínculo empregatício.

A Avon, como qualquer empresa, lucra diminuindo os salários de seus empregados (no Brasil, o salário mínimo) e aumentando a carga de trabalho ao máximo (no Brasil, 44 horas semanais); terceirizando partes da produção ou da administração em que a empresa não é especializada; e não há limitações para isso.

É necessário entender: uma empresa capitalista quer lucrar. Só isso. Se for necessário parecer legal e socialmente responsável para lucrar, então a empresa assim fará.

Agora vem o motivo desta coluna!

Veja a foto abaixo:

Avon empoderada.

Está lendo? Ok, eu espero você terminar de ler. Já leu? Agora você pode rir. Isso mesmo, pode rir à vontade.

Empoderamento, tombamento! Tudo isso sem ocupar lugar de fala!

Vamos ser sinceros?

Não há dúvida de que a marca entendeu que parte de seu público consumidor faz parte da juventude que aprendeu a ser gente pela internet. Que, portanto, considera como o suprassumo da militância política ~não roubar local de fala~ e chorar pelos sofrimentos da vida (mudando essa vida sofrida através do empoderamento).

São cybermilitantes que acreditam numa política de consumo, que não vivem a vida cotidiana, mas sim a fantasia das regras de discurso (como esse “E” no lugar do “a” que a marca coloca). Eu já falei disso aqui.

Aliás, é essa militância que insiste na bobagem da apropriação cultural, conceito que eu já tratei aqui.

Pois então, dito isso, venho mostrar um exemplo de típica manifestação cibermilitante:

O fato da Avon ter um analista de mídias sociais negro, gordo e gay, ou uma diretora de marketing negra não muda o fato de que é uma empresa capitalista sendo motivada pelo lucro. Isso é simples de ver, certo? Qualquer um sabe, né?

Mas e sobre o racismo, o que muda? Aumenta a representatividade de negros?

Aqui, eu preciso contar um segredo do sistema capitalista: ele fabrica excluídos. São os excluídos que ocupam os subempregos. São eles que funcionam como o “contra” da civilização. O fato da Avon produzir uma propaganda com negros, com mulheres, usar uma palavra diferente no título da campanha e ter empregados negros (!) não muda este fato e nem nunca vai mudar.

A esfera do consumo não vai retirar uma característica estrutural do capitalismo (e, desta vez, entendam o que significa o conceito de estrutura) que é a produção de corpos exploráveis. Que é a produção da indignidade, para que ela possa ser explorada nos trabalhos indignos.

A Avon não aborda os temas que aborda porque tem empregados negros. Ela aborda os temas que aborda porque quer vender mais. Porque vê alí uma chance de aumentar seu público, de construir uma imagem de marca socialmente responsável (por sua vez, esta imagem vende mais). Não há coração bondoso no capitalismo.

Segunda a cibermilitante acima, criticar a Avon “não vai mudar a droga das estruturas que inclusive só colocam negros e trans nesses espaços”. Segundo a citada, este tipo de campanha é a chance que negros e trans têm de fazer uma escolha e “por o cheque na mesa”.

Eu começaria minha análise comparando o conceito de estrutura com o “poder de escolha”. Se a estrutura te coloca em algum lugar e você não sai dele, então você é o problema, seguindo o raciocínio de Stephanie, que considera existente o “poder de escolha”.

Se você pode escolher, você pode, então, anular a estrutura. Mas se a estrutura te coloca em algum lugar, de onde vem esse poder de escolha? Poderíamos dizer que o poder de escolher é, na verdade, a possibilidade de exercer poder.

Quanto poder mais a população negra e trans poderá exercer após a propaganda da Avon? Suponho que você sabe a resposta.

Existe um erro de concepção fundamental nesta noção de estrutura. A estrutura seria algo que impõe configurações sociais ao todo (aos negros como um todo, aos trans como um todo, por exemplo), como a participação de um negro ou uma trans num comercial de tv, como o fato de uma negra ser diretora de arte de uma empresa, pode mudar UMA GOTA desta estrutura?

As estruturas são o que são não só porque nos colocam em diferentes posições e fixam relações entre nós. Elas são o que são porque delimitam uma gama de possibilidades e constituem a nós mesmos enquanto sujeitos. Se existe um certo poder de escolha negro ao participar do comercial, então a estrutura foi retirada de cena, ela deixa de ser imperiosa.

Se ela deixa de ser imperiosa, então somente o fato de alguém ser negro não faz dessa pessoa estruturalmente oprimida, porque a opressão – que depende da estrutura – passa a ser tão frágil quanto a própria estrutura.

Desta forma, é necessário escolher:

  1. ou as manifestações individuais representam alguma liberdade, alguma vitória, alguma representatividade, e as estruturas não são tão imperiosas quanto pensa-se que são, as estruturas simplesmente não valem de nada rigoroso para análise e o que importa é a possibilidade de agir comandada pela consciência intencional, pelo sujeito psicológico;
  2. ou as estruturas tem seu papel constituinte e o fato de um comercial de tv mostrar negros e trans não faz a menor diferença por si, já que a constituição do sujeito independe da superficialidade dos estímulo de um comercial de tv (ou de uma campanha de marketing) de uma empresa capitalista dentro da indústria cultural.

São dois caminhos. São duas formas diferentes de ver o mundo.

A cibermilitância vê da primeira forma. Eu acho que é por descuido, não por conhecimento de causa. Afinal, pegando o combo de exemplos que eu posso escolher de Stephanie, veja:

De fato, quando se é acostumado a ver o mundo sob lentes de “opressão estrutural” que na verdade essa opressão é exemplificada sempre com uma opressão individual (“duvido que você nunca teve privilégios em cima da exploração de mão de obra negra, mesmo que isso seja comer no pf onde a cozinheira é explorada e tem seu trabalho sucateado”), não é possível perceber que as críticas à Avon são exatamente por seu oportunismo que encobre algo que de fato é estrutural: a exploração de mais-valia.

Ninguém está alheio ao sistema e ninguém se acha assim. Todos consumimos. O problema é a falsa imagem de que uma empresa capitalista pode ser inclusiva, sendo que o capitalismo inteiro é montado sobre exclusão. O discurso de Stephanie é fundamentado no senso comum: é necessário culpar o sujeito que come no boteco da esquina por “ter privilégios” ao pedir um bife à parmegiana de uma cozinheira negra.

A culpa é individual porque a responsabilidade é individual. Desta forma, segundo esta lógica capenga, seria necessário parar de ir ao boteco para ajudar o fim da exploração de cozinheiras negras. Sinto dizer, mas o boicote não é uma forma de acabar com qualquer exploração no capitalismo. A solução é tomar para si a própria produção.

Inclusive, é necessário perceber que o problema para a cibermilitância representada no status acima está nos trabalhadores que gostariam de receber o dinheiro pago para quem trabalhou na campanha. Afinal, vender a força de trabalho é errado, não é mesmo?

E aquele negócio de não culpar a vítima? Pra onde foi? Ou trabalhadores não são vítimas no sistema capitalista?

Essa militância não tem nenhum compromisso com o fim do capitalismo, nem com a classe trabalhadora. Sua preocupação está com a performance. Performance, aliás, aliada ao consumo.

Não há preocupação com o fim da exploração da mais-valia. A preocupação é haver aumento da inclusão dentro do sistema capitalista, desta forma, possibilitando mais consumo e, sendo assim, realizando o objetivo do ser no século XXI: consumir.

A única preocupação da cibermilitância é poder consumir. Tudo gira em torno do consumo, da preocupação com o consumo, da possibilidade de consumo, da viabilidade do consumo, tudo. Até mesmo o sofrimento é parte do consumo: o sofrimento é parte dos signos de distinção que esta camada utiliza para manter o grupo coeso. É por isso que vivência é um conceito aglutinador: ele obriga os indivíduos a se enquadrarem nele ou, ao menos, a mostrarem submissão.

Não há saída. É necessário dispensar ídolos de papel machê. Para isso, é necessário dispensar o culto ao consumo, o culto à performance.

Eu sinto ter que dizer isso, mas empresas capitalistas não estão preocupadas com representatividade: estão preocupadas com lucro. Se precisarem te esmagar, te esmagarão (como ainda nos esmagam).

4 Comments

  1. Valter, gostaria que explicasse melhor o trecho:

    [i]”Inclusive, é necessário perceber que o problema para a cibermilitância representada no status acima está nos trabalhadores que gostariam de receber o dinheiro pago para quem trabalhou na campanha. Afinal, vender a força de trabalho é errado, não é mesmo?[/i]

    Pois não entendi muito bem o que você quis dizer. Mas o texto está bom, bem explicativo. A conclusão sobre a questão do consumo é acertadíssima.

    Obrigado.

    1. Não tirei print, não dá pra botar tarja. Eu embedei o post.

      E mesmo se fosse print, o post é público, não há necessidade de colocar tarja e nem problemas legais em relação ao uso dessas postagens.

  2. A Avon incluir negros e trans em suas campanhas é puramente uma questão de mercado, concordo. E acho também que não proporciona qualquer avanço que desmonte a estrutura de exclusão capitalista. Mas, no mínimo, é sinal de que as lutas anteriores nos trouxeram, senão a um novo lugar, ao menos a um novo cenário.
    Representatividade é conseguir enxergar que sua existência é possível, mesmo que capturada pelo sistema.
    Se a lógica opera através do consumo, ao menos, hoje, eu sou um negro que pode consumir. Antes era mais terrível, não? Mesmo que não prática cotidiana nada mude. A estima é fundamental. Nossa geração busca também resgatar estima.

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