Cortes

Meu cachorro, um pequeno vira lata marronzinho de nome Cutícula, late cada vez com menos frequência. Tenho esperança que uma hora não escute mais seu latido, do qual consigo entender a solidão e fome que transmite para mim, e eu nada tenho o que fazer. Essa esperança é que ele simplesmente fuja, pule o muro e consiga sobreviver nas ruas, pois o outro motivo que possa gerar seu silencio não quero nem imaginar.

São três dias aqui dentro ouvindo seu latido, sem saber como e o que fazer, mas antes disso a relatividade já me acanhava com o suingue sem sincronia do tempo.

Era, a um determinado período, visto dali, uma eternidade, da qual eu fiquei observando aquilo. Fez-me ver um pouco de minha casa nas bordas embaçadas dos olhos, no esforço que eu fazia para contempla lo.

Muito velha isso é verdade, mas seu conforto valia cada mofo em suas dobras. No quintal pequeno, o concreto dos muros já havia ganhado uma pele de musgos fétida e viva na altura de meus joelhos. Brilhava verde, dando a bizarra impressão de que respirava convicta de sua posição como um ser vivo.

Recolhendo as fezes de Cutícula, uma vontade tímida surgia repentinamente. Sentia um desejo mórbido de arrancar um lasco daquela cobertura esverdeada com a pá de aço, e do concreto nu, escorresse o sangue, vazando pelas pequenas crateras cinza.

Eu tinha por um breve momento esperança de que aquilo fosse possível. Na borda pontuda da pá, a lasca de musgo se recolhesse sem vida, como a pele que se soltava do corpo.

Mas voltando para aonde estava, observando aquilo, me lembrei de que esse desejo surgia exatamente por causa do objeto.

Era uma lamina velha de estilete, mas podia ser uma tesoura pontuda, alfinete… qualquer coisa que me fizesse destacar uma parte minha, por mais pequena que fosse.

Pelas dobras dos membros eu colecionava pequenas marcas, sem um padrão ou alinhamento. Eram formas perdidas, que em um vislumbre remetiam as gaivotas voando no horizonte, mas nem de longe continham a mesma organização.

Não sabia muito bem no começo como explicar aos olhos atentos a origem das marcas, me atrapalhava em histórias muito bem detalhadas que geravam desconfiança. Após um tempo, decidi apenas dizer que foram acidentes.

Pois não deixavam de ser pequenos acidentes que me ocorreram. Mesmo me levando para uma libertação momentânea, havia uma parcela de tragédia após um tempo. Não tinha uma explicação tão certa para o por quê, por isso talvez a empatia de outras pessoas era tão escassa para essa questão.

Perdi as vezes que tive que me conformar com o discurso de autossuficiência de preservação do corpo, enquanto o filtro do cigarro se amarelava na boca do palestrante, ou o copo de bebida se esvaziava tão depressa.

Qual era a diferença de apagar a bituca no peito ou tragar a fumaça para os pulmões? Cortar o braço com a lata de cerveja ao invés de engolir todo o liquido? O avesso de depreciações similares tem como diferença apenas que o mal feito dentro do corpo está escondido a longo prazo, e seus efeitos no exterior podem ser facilmente ofuscados.

A lamina na minha mão começou a ficar escorregadia, percebi que a apertava um pouco mais forte que o comum.

Vamos, só mais um pouco, deslize o dedo no fio, faça mais uma para a coleção. Só não vai poder usar uns óculos escuros para disfarçar as olheiras da ressaca desse corte amanhã…

Vejo a parede cheia de musgo do lado de fora, quase pulo da cadeira no frenesi momentâneo. Casa desgraçada! Nunca sente nada, nem reage as marcações do tempo, me faz ter todo o tormento para mim, mas não liga de recolher as latas e restos de cigarro, armazenar as cartelas de remédios!

Cravo a lamina na parede antes de pensar nos objetos de meu flagelo que ela esconde, das manchas que são como cicatrizes e que o tempo a derruba da mesma maneira, no fim de tudo.

Do verde começa a escorrer um vermelho, ela recua um pouco, não parecendo uma parede sólida.

Escuto um rugido que quase me ensurdece. O gutural me faz correr para dentro, sem dar conta que era de lá mesmo que ele surgia. O sangue faz uma poça agora. A porta se fecha violentamente. Minha ultima visão é de Cutícula encolhendo-se do sangue que alastra pelo chão.

Tento abrir a porta mas nada acontece, parece fixada, soldada na parede, tão pouco consigo subir as janelas, tudo parece uma coisa só. Tenho a impressão que estou pisando em uma textura fria e mole, como o interior de uma boca cheia de saliva. Procuro uma cadeira, me sento sem colocar os pés no chão.

Escuto uma respiração que treme tudo, vem do fundo, de um porão que nunca soube de sua existência, que talvez surgira nesse tempo que estou aqui confinado.

O pouco que consigo enxergar durante o dia, vejo que as paredes viraram brilhosas e avermelhadas, consegui avistar uma fileira de algo que parece ser dentes enormes, quase de meu tamanho, circulando o interior. Tenho medo de sair da cadeira, pois a respiração me persegue como um rugido. Me alimento do que havia em cima da mesa ao meu lado, mas ela sumiu, se dissolveu no chão mole, escuto o borbulhar de sua degeneração, um som efervescente.

 

No quarto dia, ou algo parecido, perdi o calculo, não escuto mais Cutícula. Sinto minha cadeira descendo lentamente. A casa, apesar de suas marcas, também optara por consumir os males do mundo, talvez todo esse tempo me observou com o mesmo desdém que todos. Logo ela vai me absorver.

Penso em quanto tempo demorará, para que os males de minha pessoa surjam em seu exterior.

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