Livro da Semana: Teses sobre Feuerbach – Karl Marx

Marx, nessa curta obra, analisa a filosofia de Feuerbach com as suas noções que fizeram nascer o materialismo-dialético, além da práxis revolucionária.

Marx (1818-1883) foi um dos filósofos e sociólogos de maior e mais duradoura influência na filosofia mundial, um dos idealizadores do comunismo e um dos fundadores da tradição materialista-dialética de análise histórica da realidade. O desenvolvimento desse método passou pela desconstrução do que existia em metafísica e dialética à época. Houve um processo de absorção e desconstrução de Hegel e também de Feuerbach, e as notas marxianas sobre ele foram escritas em Bruxelas. Sobre estas, Engels escreveu: “trata-se de notas para posterior elaboração, registradas rapidamente, em absoluto destinadas à impressão, mas inestimáveis como o primeiro documento em que foi depositado o germe genial da nova visão de mundo”.

Sobre a obra em si, é um dos registros em que Marx começa a elaborar o conceito de práxis.

A perspectiva materialista vê os seres a partir das circunstâncias socio-econômicas em que estão inseridas, e o idealismo os vê a partir de uma soma do zeitgeist da época com os ímpetos pessoais. Dessa forma, existiriam duas práticas revolucionárias: mudar as circunstâncias materiais para alterar os homens ou mudar seu ideário. Nesse contexto, Marx critica o materialismo clássico por não considerar que os humanos, a partir de seu ímpeto, podem alterar a circunstâncias, e critica o idealismo por “esquecer que o educador também deve ser educado”, num argumento na mesma linha de “quem governa os governadores?”. Neste ponto, Marx introduz o seu conceito de práxis revolucionária: “a coincidência da transformação das circunstâncias com a atividade humana”.[1]

Dessa forma, a práxis revolucionária é o misto de teoria e prática retroalimentando-se. Consultemos parte da definição no verbete “praxis” do Dicionário do Pensamento Marxista organizado por Tom Bottomore:

A expressão práxis refere-se, em geral, a ação, a atividade, e, no sentido que lhe atribui Marx, à atividade livre, universal, criativa e auto-criativa, por meio da qual o homem cria (faz, produz), e transforma (conforma) seu mundo humano e histórico e a si mesmo; atividade específica ao homem, que o torna basicamente diferente de todos os outros seres. Nesse sentido, o homem pode ser considerado como um ser da práxis, entendida a a expressão como o conceito central do marxismo, e este como a “filosofia” (ou melhor, o “pensamento”) da “práxis”. […] A palavra é de origem grega e, de acordo com Lobkowicz, “refere-se a quase todos os tipos de atividade que o homem livre tem possibilidade de realizar; em particular, a todos os tipos de empreendimentos e de atividades políticas”.
[…]
Em Marx, o conceito da práxis torna-se o conceito central de uma nova filosofia, que não quer permanecer como filosofia, mas transcender-se tanto em um novo pensamento metafilosófico como na transformação revolucionária do mundo. Marx desenvolveu seu conceito de maneira mais completa nos Manuscritos econômicos e filosóficos e o expressou de maneira mais vigorosa nas Teses sobre Feuerbach, embora já o tivesse antecipado em seus escritos anteriores.
[…]
Nos Manuscritos econômicos e filosóficos, Marx desenvolveu sua concepção do homem como um criativo e livre ser da práxis de forma tanto “positiva” como “negativa”, essa última por meio da crítica da auto-alienação humana. No que diz respeito à […] forma positiva, Marx afirma que “a atividade consciente, livre, é o caráter da espécie do ser humano” e que “a construção prática de um mundo objetivo, o trabalho, que se exerce sobre a natureza inorgânica, é a confirmação do homem como um ser de espécie consciente” (Primeiro manuscrito, “Trabalho alienado”). O significado de produção prática do homem encontra sua explicação no confronto entre a produção humana e a produção dos animais.
[…]
“Eles (os animais) produzem apenas com um objetivo imediato, enquanto o homem produz de um modo universal. Os animais produzem movidos apenas por suas necessidades físicas, enquanto o homem produz mesmo quando está livre das necessidades físicas e só produz verdadeiramente quando libertado destas necessidades. O animal só se produz a si próprio, enquanto o homem reproduz toda a natureza. O produto do animal é parte integrante de seu corpo físico, enquanto o homem faz face livremente ao seu produto. Os animais só laboram de acordo com os padrões e as necessidades da espécie à qual pertencem, enqujanto o homem sabe produzir de acordo com os padrões de todas as espécies e sabe aplicar o padrão adequado à natureza do objeto. e assim o homem labora, também, de acordo com as leis do belo.”[2]

É a partir dessa perspectiva que ele cunha suas teses sobre a filosofia feuerbachiana. Ludwig Feuerbach[3] foi um filósofo alemão adepto do hegelianismo (foi aluno do próprio). Sua filosofia é uma etapa de transição entre o idealismo alemão e o materialismo histórico. A situação material em que o homem vive é que o cria. Feuerbach nega o conceito de que exista primeiro a ideia e depois a matéria. Para ele a maçã real precede a ideia da maçã. Afirma que deveríamos entender Hegel de cabeça para baixo. Para Feuerbach, Hegel descreve o homem de ponta-cabeça. É desse materialismo puro que Marx parte na afirmação de sua primeira tese: a principal insuficiência de todo o materialismo até aos nossos dias – o de Feuerbach incluído – é que as coisas [der Gegenstand], a realidade, o mundo sensível são tomados apenas sobre a forma do objeto [des Objekts] ou da contemplação [Anschauung]; mas não como atividade sensível humana, práxis, não subjetivamente. Por isso aconteceu que o lado ativo foi desenvolvido, em oposição ao materialismo, pelo idealismo – mas apenas abstratamente, pois que o idealismo naturalmente não conhece a atividade sensível, real, como tal. Feuerbach quer objetos [Objekte] sensíveis realmente distintos dos objectos do pensamento; mas não toma a própria actividade humana como atividade objectiva [gegenständliche Tätigkeit]. Ele considera, por isso, na Essência do Cristianismo, apenas a atitude teórica como a genuinamente humana, ao passo que a práxis é tomada e fixada apenas na sua forma de manifestação sórdida e judaica. Não compreende, por isso, o significado da atividade “revolucionária”, de crítica prática.

Apesar de curta, é uma obra que rende uma nova percepção de mundo e uma das mais importantes para a compreensão do ideário marxiano dentro de seu contexto mais filosófico, que é o que pauta as suas visões políticas. Leitura recomendada para adeptos e críticos, mas principalmente para os interessados em filosofia pura.

Você pode fazer o download das teses aqui.

Referências e leituras complementares:

[1] Leitura complementar sobre práxis: http://www.ifch.unicamp.br/formulario_cemarx/selecao/2012/trabalhos/6633_Denisar_Paulo.pdf

[2] PETROVIC, Gajo. 2001. Práxis. In: Tom Bottomore (Ed.). Dicionário do Pensamento Marxista. (Trad. Waltensir Dutra) Rio de Janeiro: Zahar, pp.292-6. [1983]

[3] Obras complementares de Feuerbach: (1828); Pensamentos sobre morte e imortalidade (1830); Sobre a crítica da filosofia positiva (1838); Crítica da filosofia hegeliana (1839); A essência do cristianismo (1841); Sobre a apreciação do escrito “A essência do cristianismo” (1842); Princípios da filosofia do futuro (1843); Teses provisórias para a reforma da filosofia (1843); Lutero como árbitro entre Strauss e Feuerbach (1843); A essência da religião (1846); Fragmentos para a caracterização de meu Curriculum vitae (1846); Preleções sobre a essência da religião (1851) e Teogonia (1857).

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