O que nos diferencia não é o ateísmo – O Anticristo

Não basta ser ateu para "matar" deus. Nietzsche tem outra perspectiva sobre a demolição de ídolos.

Da série “O Anticristo“.

anticristo-editadoUma diferença sutil que Nietzsche quer deixar claro em O Anticristo é em respeito ao que homem crê (crença, aqui, em seu sentido religioso) e ao que o homem combate (num sentido moral). O autor não está procurando converter alguém para um ateísmo simples ou para uma nova religião – o combate que Nietzsche trava em seu livro não é contra alguma crença em específico ou contra um homem, mas contra um sistema moral que conduz o homem para o caminho inverso dos seus instintos vitais (a vida, a vontade, a vitalidade) e torna os homens com um bom instinto vital impedidos de se tornarem mais fortes ao elevar a fraqueza como algo bom e os fracos ao controle.

Dessa forma, de nada vale um cristão converter-se ateu se ele não superar a moral cristã e os valores que dela acompanham – isso seria equivalente a superar quase nada ou mesmo coisa alguma: uma moral pode mudar suas formas, mas seu sistema continuar intacto. O próprio cristianismo, para Nietzsche, é uma reconfiguração do platonismo para as massas. Assim, aquilo que diferencia o homem superior não é seu ateísmo, mas sua luta contra a valoração do danoso contra a vida, figurado na religião cristã:

O que nos distingue não é o fato de não encontrarmos nenhum deus na história, nem na natureza, nem atrás da natureza – mas que não consideramos “divino” aquilo que foi venerado como deus, e sim como deplorável, absurdo, danoso, não apenas como erro, mas como crime contra a vida… [1]

O fato de não ser o ateísmo aquilo que destaca os homens, mas sim suas ações morais, Nietzsche dá como exemplo Otto von Bismarck e Guilherme II, dois homens “grandes”, que superaram a moral dos fracos, e que ainda se dizem cristãos.

Onde foi parar o último sentimento de decência, de respeito por si mesmo, se até nossos estadistas, usualmente homens de uma espécie muito desenvolta e anticristão resolutos da cabeça aos pés, ainda hoje se denominam cristãos e tomam parte na Santa Ceia? …Um jovem príncipe, à frente de seus regimentos, magnífico como expressão do egoísmo e da petulância de seu povo – mas, sem qualquer vergonha, confessando-se cristão!… [2]

Da mesma forma, é possível traçar o caminho inverso:

Não é uma “fé” que distingue o cristão: o cristão age, ele se distingue por agir de um outro modo. Ele não opõe resistência, nem com palavras nem em seu coração, a qual lhe quer mal [3]

Nietzsche está tratando de condutas, e não de fé. Da mesma forma com que o cristianismo – uma “rebelião dos escravos” – só se converteu em instrumento de dominação (Igreja) a partir do momento em que inverteu os valores – aquilo que era forte (a moral aristocrática dos gregos e dos romanos) virou algo pecaminoso e aquilo que era fraco (o cristianismo, que possuía forte presença entre os povos dominados e das classes baixas) foi tornado algo elevado, Nietzsche está buscando uma des-valoração, e isso não é possível fazer apenas declarando-se ateu: é preciso superar a moral dos fracos – e nisso, de nada adianta ser um “ateu cristão”, mas um guerreiro dos valores.

Não subestimemos o seguinte: nós próprios, nós, espíritos livres, já somos uma “transvaloração de todos os valores”, uma declaração: em pessoa, de guerra e de vitória a todos os velhos conceitos de “verdadeiro” e “falso” [4]

Nietzsche é a negação da negação da vida: é o oposto dos teólogos e de “tudo que tem teólogo no corpo”[5] – Nietzsche é “anti” por essência: é necessário negar o cristianismo, mas também a Platão e aquilo que foi escanteado pela filosofia socrática, buscando – posteriormente – criar o novo.

Referências

[1] NIETZSCHE, Friedrich. O Anticristo: maldição contra o cristianismo. Porto Alegre: L&PM, 2012. p. 88.

[2] NIETZSCHE, Friedrich. O Anticristo: maldição contra o cristianismo. p. 70.

[3] NIETZSCHE, Friedrich. O Anticristo: maldição contra o cristianismo. p. 62

[4] NIETZSCHE, Friedrich. O Anticristo: maldição contra o cristianismo. p. 27

[5] NIETZSCHE, Friedrich. O Anticristo: maldição contra o cristianismo. p. 21

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