Poder e troca: a filosofia do chefe indígena – A sociedade contra o Estado

Da série “A Sociedade Contra o Estado“.

guarani_kaiowa_2Este é o capitulo que Clastres inicia a sua jornada dentro do conceito principal da Sociedade contra o Estado. Dado suas colocações a respeito do poder e do etnocentrismo na antropologia europeia em seu primeiro capitulo, agora ele faz uma análise da figura do chefe dos povos primitivos da América do Sul, e como os membros dessas sociedades se relacionam com ele de uma maneira não- submissa.

Para as teorias etnológicas, existem duas formas de poder político:

1- Sociedades primitivas carecem de uma noção de poder real. Ele não é nem mesmo considerada como um órgão que desfrute de algum tipo de poder caso não haja um órgão político efetivo. São com isso isoladas em um cenário pré-político.

2- Algumas poucas sociedades primitivas passaram de um estágio primitivo para obter “a única forma de grupo humano autenticamente existente: a instituição política” [1]

Mas com essas considerações, a etnologia acaba por condenar o indivíduo primitivo a dois extremos, pois caso ocorra o segundo caso, a sociedade se transfigura em um modelo baseado na tirania. Sendo assim existe apenas uma condição de desordem total, ou um cenário aonde o despotismo e tirania se instauram.

Fora dessa visão, Clastres aponta que as sociedades da América do Sul demonstram características que fogem dessa bipolaridade de modelo político. Diferente do modelo imperial dos Incas, Maias e Astecas, esses povos se formam em grupos anárquicos dos quais existe um senso grande de igualdade e teor democrático. Essas características tem como principal base a a total falta de autoridade do líder desses grupos.

É a falta de estratificação social e a autoridade contida no poder que deve ser observado como o fator distinto da organização política na maioria das sociedades indígenas. Algumas delas, como os Ona e os Yahgan da Tierra del Fuego, nem possuem a instituição de liderança; e é dito que não existe um termo para Chefe na língua dos Jivaros.[2]

Nos conceitos do pensamento criado em volta da estrutura de que o verdadeiro poder vem da autoridade política, o conceito de chefe primitivo é algo que se torna um pouco difícil de se compreender.

Os conceitos dentro das lideranças indígenas

Então se a figura chamada de “chefe” não é um indivíduo que detém o poder primordial de uma sociedade, qual seria então sua função? Em quais pontos da vida indígena ele surge?

Clastres comenta que na lógica do evolucionismo, o poder nessas sociedades é um elemento efêmero, que a dinâmica de um grupo arcaico afasta qualquer esboço de uma condição política significante. Mas o autor direciona a análise a outro ponto critico, o de que deve se observar como esse “poder sem poder” o chefe como “uma função operando no vácuo”.[3]

Se baseando em um conceito do antropólogo Austro-Americano Robert Lowie (1883-1957) realizou para analisar os povos indígenas da América do Norte, Clastres descreve o chefe indígena em três características distintas

(1.) O chefe é um “pacificador”; Ele é o moderador do grupo, um fato nascido fora da divisão frequente de poder entre civil e militar.

(2.) Ele deve ser generoso com as suas posses, e não deve se permitir, sem trair sua função, de rejeitar as demandas incessantes daqueles sob sua “administração”.

(3.) Apenas um bom orador pode se tornar chefe.[4]

Esses elementos também devem ser levados em conta em casos que o poder do chefe varia durante o tempo de paz e de guerra. É muito comum que a função de chefe seja fragmentada em um líder civil e um militar. Esse ultimo é designado temporariamente frente a uma ameaça externa, nesse cenário, é possível encontrar traços de violência e coerção, que são logo dissolvidos quando o problema em questão é resolvido, junto com a autoridade do indivíduo.

O chefe militar em grupos como os Cubeos e os Orinocos é basicamente um instrumento criado para servir ao seu povo em épocas de conflito e crises, nada mais do que isso. Sua função é apenas para servir o povo.

A questão da generosidade talvez seja uma das mais peculiares entre os chefes indígenas das Américas. Um bom chefe é aquele que doa seus bens, ou é aquele que não se manifesta quando os indivíduos da tribo pegam seus bens para si.  Uma das características do chefe indígena em alguns povos é de ser um dos mais simples tanto em vestimentas como em possessões. A ganancia não tem relação nenhuma com o conceito de poder nesses povos. Por isso,ser simples seja talvez a característica fundamental.

Cabe ao líder sobretudo ser o orador da tribo. Ele é o indivíduo que possui o dom da palavra, a sua mais importante ferramenta de poder. Mas diferente dos lideres ocidentais, seu discurso é usado para pacificar a vida de sua sociedade. Sua fala tem como objetivo confortar todos, por isso é necessário o máximo de sua habilidade como orador e sua total paixão pela função. Em algumas tribos, como os Tobas ou os Trumai, a total indiferença do líder na hora de seus discursos faz com que seja totalmente ignorado por algumas pessoas. É um elemento necessário de um esmero tão grande, que se torna um oficio peculiar. “um Chiriguano explica a ascensão de uma mulher para o oficio chefe dizendo: ” seu pai lhe ensinou a arte do discurso.”‘[5]

Clastes comenta sobre um outro fator essencial que compõe as características do líder de uma tribo:

A literatura da etnografia raciocina em cima dessas três características essenciais da liderança. Entretanto,na área da América do Sul (excluindo as culturas dos Andes, que não serão discutidas aqui) oferecem uma característica suplementar as três enfatizadas por Lowie: quase todas essas sociedades, quais sejam os seus tipos de unidade socio-política e o tamanho demográfico, reconhecem a poligamia, e quase todas delas reconhecem como um privilegio exclusivo do chefe.[6]

Essa característica não tem efeito diferenciado por causa da densidade demográfica de uma sociedade indígena. Um conceito presente em uma grande quantidade de povos que se tenha registro. Porém, Clastres mostra que a poligamia é algo restrito a um determinado grupo de indivíduos, sendo o chefe, em sua maioria, o que a exerce.

Em casos específicos, como os Achagua e os Chibcha, a questão de poligamia envolve uma fator cultural diferente dos outros povos. São sociedades belicosas, que acabam por ter uma grande deficiência em sua população masculina, fazendo da poligamia um método de compensar essa falta, ou são sociedades que estão a se estratificar, subjugando assim seus vizinhos mais fracos e tomando as mulheres como esposas.

Tirando esses dois exemplos, a poligamia generalizada é quase inexistente na América do Sul. O que, analisando o contexto social, para Clastres torna esses casos isolados mais democráticos, já que toda o indivíduo tem acesso a mais de um matrimônio. Isso acontece porque o conceito de poder entre os próprios povos é extremamente distinto, para alguns é a força e a guerra que determina o acesso a poligamia, uma base de avaliação muito similar a da sociedade ocidental, e para outros existem outros feitios que dão mérito ao indivíduo, como a caça, que faz com que o mérito do caçador o pode torná-lo líder, assim como praticante da poligamia.

Para Clastres, estas categorias dialogam entre sim de maneiras diferentes para estabelecer um sistema de relação direta entre o chefe e o restante do povo:

Uma distinção é feita entretanto entre o primeiro desses critérios (o de ser um pacificador) e os outros três  O ultimo define uma série de desprestações e contra-prestações que mantém o balanço entre a estrutura social e a instituição política: o líder exerce o direto sobre um numero anormal de mulheres; em retorno, fica justificado o requerimento do grupo pela generosidade do chefe e seu talento como orador.[7]

Contudo, é necessário esclarecer segundo Clastres, as esferas sociais do chefe indígena, pois em nossa concepção de poder, é muito fácil confundir a natureza da liderança com a sua atividade, “o transcendental com o aspecto empírico da instituição”.[8]

A vontade da população: o maior peso social

O chefe indígena depende totalmente da vontade de seu povo para conseguir exercer as suas obrigações. Sua vontade tem significância nula na função de liderança. Para ele, como um bom orador e pacificador, é necessário que ele consiga satisfazer cada indivíduo, pois qualquer descontentamento, coloca em risco seu futuro de líder.

Pode ser encontrado um diferencial dentro na noção de poder dos povos da América do Sul. Visto pelo conceito de poder ocidental, seria uma espécie de vácuo dentro da função do poder. Clastes diz que é a “intenção de contestar”  que irá faltar no chefe indígena na hora de um momento de tensão na sociedade indígena, que ira pedir por essa “intenção” e ao mesmo tempo  levantar a falta desta.

Analisando o esqueleto das obrigações e das características dos chefes nas sociedades indígenas, Clastres indica que essa posição se da na mesma esfera que o sistema de troca,  implicando diretamente em como a relação pessoa comum/líder se exerce.

Na verdade, é extraordinário descobrir que essa trindade de atributos – talento oratório, generosidade e poligamia – ligado a personalidade do líder, tem no seu interesse os mesmos elementos dos quais a troca e a circulação culminam na transição da natureza para a cultura. A sociedade é definida primariamente pelos três níveis fundamentais de troca de bens, mulheres e palavras; e é igualmente referido diretamente para estes três tipos de “signos” que a esfera política das sociedades indígenas são constituídas.[9]

O conceito mais simples da produção dos bens materiais na sociedade indígena, se comparados com os padrões industriais da sociedade capitalista, faz com que a escassez dos itens infrinjam na generosidade de chefe, que mesmo sem os modos para a manufaturamento, é cobrado pelo demais, sendo ele o encarregado de produzi-los,

. Em algumas situações, as suas mulheres conseguem auxilio na produção dessas demandas, só que existem itens  mais limitados, dado a exclusividade de produção do chefe, como arcos, flechas e ornamentos masculinos, o que “limita o alcance de bens do chefe para o grupo.”[10] 

E nesse quesito, é possível encontrar um certo status do chefe, pois dado o valor de troca que a mulher possuo nessas sociedades, Clastres comenta a balança se torna desigual. Mas mesmo assim, com a liderança indígena dispondo desse diferencial, ele não agrega nenhum grau de poder a mais em sua posição social, demonstrando o vácuo de autoridade existente.

Voltando as esferas que caracterizam-no, a questão da poligamia implica em um fator muito interessante para a nivelação do poder entre o chefe e o indivíduo comum. Sendo todas as outras características via únicas vindas da população para o chefe, a reprodução do chefe suas esposas, acaba por gerar um ciclo estrutural, que a cada geração faz com que um novo líder, filho do chefe ou de seu irmão, assuma e tenha acesso a poligamia.

Nesta ação, qualquer nível de diferencial sanguíneo entre o chefe e todos os outros é dissolvido. Sempre tendo como chefe alguém vindo de uma das famílias da sociedade.

Mas o dever é hereditário: aqui não é um caso de troca, mas, portanto, um simples e puro presente do grupo para o líder, um presente sem reciprocidade, aparentemente significa sancionar o status social do que guarda a responsabilidade estabelecida para o propósito de não ser exercida.[11]

Segundo Clastres, o chefe indígena é um dos que mais trabalha na tribo, devido a falta de regalias. Na economia do grupo, dados raras exceções, ele tem de plantar e caçar, precisa de meios para conseguir algum tipo de escambo com resultados positivos, e muito disso é alcançado com a troca de sua mão de obra.

A questão da fala acaba sendo o fator do qual a necessidade do chefe aparece mais presente nas análise de Clastres. O líder indígena necessita ter o controle sobre a língua. Esse é o único fator do qual a população não considera desigual ou injusto: é necessário ao chefe que ele seja a voz, mesmo que ele não seja como instrumento de controle.

Clastres chega a conclusão que todas as ações que envolvem o líder indígena, a poligamia, os seus bens econômicos e a língua, são elementos que se manifestam fora do circulo de relevância social. A necessidade da estrutura do poder em sempre estar por cima dos outros níveis da sociedade aqui encontra um sério problema, pois esta isolada nesse conjunto de ações sem significância. Os próprios indivíduos rejeitam o poder na sociedade.

Mesmo sendo um pouco contraditório pensar em uma exclusão do poder nessa maneira, é necessário observar que esse isolamento acontece de maneira natural para as populações indígenas.

O modo de análise em questão a esse desinteresse pelo poder, que foi ligado a sua ruptura, causa esse ciclo de trocas do que seria a figura central do poder. Mas porque esse fenômeno se desenvolve? Seria inocência ou mesmo o conceito de arcaico já discutido no primeiro capitulo? Para Clastres, seria arbitrário pensar em uma dinâmica tão complexa como sendo apenas objeto de uma ingenuidade indígena.

Desafiando o ponto de vista acidental nos leva a assumir uma certa necessidade inerente do próprio processo, e procurar pela razão suprema para o resultado a um nível de intencionalidade sociológica, sendo este o ponto de partido de onde o modelo toma forma. Para garantir que o resultado conforme a intenção que presidiu sobre sua produção, deve somente significar que o resultado fora implicado na intenção original: poder é exatamente o que essas sociedades tinham vontade que fosse. E como o poder é – para colocar esquematizado – nada, o grupo assim revela a sua rejeição radical da autoridade, uma negação expressiva de poder.[12]

O conceito de poder, portanto, é uma iniciativa das quais essas sociedades coloca como o mais baixo. Tão profundo, que sua assimilação com o conceito da natureza, do qual a cultura tende a se afastar em uma atitude de proteger sua civilidade. Sendo assim, ela nega os dois, o poder e a natureza.

Os povos da América do Sul descobriram desde o inicio o caráter coercivo do poder, fazendo com que sempre fosse de alguma maneira depreciado em uma forma negativa de submissão. Por isso, o chefe se torna tão dependente da população, e não a ação contrária.

Mesmo em casos aonde todos colocam as decisão e julgo ao chefe, para Clastres existe um fator de chantagem, do qual caso ele não faça sua obrigação nesse momento, é abandonado ou substituído por outro indivíduo que se encaixe no padrão esperado pelo povo. Tanto a poligamia como o discurso são exercidos dentro de ações de controle geral.

O culto ao chefe é uma grande sátira ao poder que os povos indígenas a muito tempo conseguiram se afastar de seus males, pois “este poder, paradoxal por natureza, é venerado em sua impotência.”[13]

Referências

[1] CLASTRES, PIERRE. Society Against the State. Urizen Books, Nova Iorque. 1977, p. 19.(Tradução nossa)

[2] CLASTRES, PIERRE. Society Against the State… p. 20.(Tradução nossa)

[3] CLASTRES, PIERRE. Society Against the State… p 21.(Tradução nossa)

[4] CLASTRES, PIERRE. Society Against the State… p 21.(Tradução nossa)

[5] CLASTRES, PIERRE. Society Against the State… p 23.(Tradução nossa)

[6] CLASTRES, PIERRE. Society Against the State… p 23.(Tradução nossa)

[7] CLASTRES, PIERRE. Society Against the State…p 27 .(Tradução nossa)

[8]CLASTRES, PIERRE. Society Against the State… p 28 .(Tradução nossa)

[9] CLASTRES, PIERRE. Society Against the State…p 28.(Tradução nossa)

[10]CLASTRES, PIERRE. Society Against the State…p 29. (Tradução nossa)

[11]CLASTRES, PIERRE. Society Against the State…p 31. (Tradução nossa)

[12]CLASTRES, PIERRE. Society Against the State…p 34. (Tradução nossa)

[13]CLASTRES, PIERRE. Society Against the State…p 37. (Tradução nossa)

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