Nietzsche: compaixão como corrupção – O Anticristo

Da série “O Anticristo“.

anticristo-editadoTidas como “virtudes” no cristianismo, a fé, a fraqueza, a compaixão – argumenta Nietzsche – não são mais do que mecanismos pelos quais operam a religião cristã para espalhar a doença e amarrar o homem à religião; aqui, trataremos da compaixão.

A compaixão se dá quando, ao visualizar a dor alheia, vemos algum perigo que também nos ameaça; nisso, nos imaginamos na situação do sujeito desgraçado; nos sentimentos ameaçados, compartilhamos de sua dor participando dela, e desejamos, assim, como que num impulso, diminuir a dor do outro, tendo ternura para com ele.

Nietzsche busca medir a virtude da compaixão “com as reações que se costuma produzir”;  para o filósofo, ela possui consequências não só para o sujeito compassivo, mas também para o alvo da compaixão e para a própria dinâmica da vida.

I – Consequências ao sujeito compassivo

Para ele, quando sentimos compaixão e compartilhamos da dor do outro, estamos nada menos do que multiplicando a dor do mundo – dor que não é desejada se buscamos um corpo saudável.

Através da compaixão, aumenta e se multiplica ainda mais a perda da força que, em si, o sofrimento já traz à vida. O próprio sofrimento se torna contagioso através da compaixão; sob determinadas circunstâncias, pode-se alcançar com ela uma perda total de vida e de energia vital que está numa proporção absurda com o quantum [a quantidade] da causa (o caso da morte do nazareno). [1]

Cristo, assim, é vítima da compaixão: sua morte na crucificação é símbolo do seu amor e compaixão por todos. Isso também nos torna mais fracos na medida em que a) toleramos menos a dor do outro: buscamos apenas apaziguá-la, mas não eliminá-la por completo b) a Igreja se torna detentora do monopólio da compaixão: pregando a compaixão de Cristo e exigindo dos fiéis a compaixão, a Igreja pode manter os sujeitos doentes, fracos, e vivos; valoriza uma lei antinatural – pior: fazendo uso dela – em detrimento da possibilidade da elevação do homem, agravando ainda mais a décadence.

II – Consequências à dinâmica da vida

Nietzsche argumenta em O Anticristo que a compaixão

se opõe de modo geral à lei da evolução, que é a lei da seleção. Ela conserva o que está maduro para o soçobro, ela luta em favor dos deserdados e condenados pela vida, ela dá à própria vida um aspecto sombrio e questionável através da abundância e malogrados de todo o tipo que conserva vivos. [2]

Assim, ao invés da compaixão no cristianismo ser um instrumento de manutenção da vida, ele se torna uma forma de negá-la ao manter vivo a desgraça que deve perecer – a raiz dessa compaixão não é a luta pela vida, mas um sentimento niilista que visa preservar a dor e a desgraça do outro. Dessa forma, não se trata de uma compaixão que eleva e torna nobre, mas que visa manter o desgraçado na sua condição para que melhor possa dominá-lo. Se trata, aqui, de uma compaixão hostil à vida.

Para ultrapassar esse tipo de compaixão, Nietzsche propõe uma purgação da compaixão; nos momentos trágicos do teatro grego, o público caía em catarse pelo herói desgraçado; a arena da apresentação derramava-se em lágrimas e as almas eram “lavadas”. Essa representação da “queda” do homem forte (e não de um sujeito desgraçado) levava os espectadores a “estourarem” as tensões acumuladas e a recuperarem a vitalidade e a saúde.

Nietzsche usa a metáfora da sangria e da medicina quando se refere ao procedimento catártico, como forma de fazer oposição à metafísica cristã:

a partir do instinto de vida, seria realmente necessário procurar um meio de dar uma agulhada nessa acumulação doentia e perigosa da compaixão (…) para que ela estoure… (…) Ser médico aí,  ser impiedoso aí,  manejar aí o bisturi – é o que cabe a nós, é a nossa espécie de amor à humanidade, assim nós somos filósofos, nós, os hiperbóreos! [3]

III – Consequências ao alvo da compaixão

Esse terceiro ponto não foi desenvolvido em Nietzsche em seu Anticristo, mas em outros livros, como a Gaia Ciência e Aurora. Na medida em que ajudamos o desgraçado, dando auxílio e assistência, multiplicamos os mecanismos de coerção, docilização e submissão: geramos e promovemos estados de dependência e de submissão através do débito moral que o sujeito alvo da compaixão mantém conosco. Diminuímos o valor do outro e sua vontade ao nos tornarmos compassivos, porque tiramos dele a responsabilidade por levantar-se daquela situação e o despojamos de uma dor que é absolutamente pessoal. Tudo isso ao acreditar estarmos fazendo algo “positivo” – nada mais inverso do que isso, diz Nietzsche:

na maior parte dos benefícios aos necessitados existe algo que indigna, pela indiferença intelectual com que o compassivo julga o destino, sem saber nada das conseqüências e complicações interiores que para mim e para você se chamam infortúnio. [4]

Assim, como pontua Caponi:

a piedade e a compaixão se revelam como uma perigosa e temível tecnologia de poder que, no entanto, insiste em aparecer com a máscara de um desapaixonado e necessário “humanismo” [5]

Referências

[1] NIETZSCHE, Friedrich. O Anticristo: maldição contra o cristianismo. Porto Alegre: L&PM, 2012. p.29.

[2] NIETZSCHE, Friedrich. O Anticristo: maldição contra o cristianismo. p.29.

[3] NIETZSCHE, Friedrich. O Anticristo: maldição contra o cristianismo. p.30.

[4] NIETZSCHE, Friedrich. La Gaya Ciencia. Madrid: Sarpe, 1984. p.338

[5] CAPONI, Sandra. A Lógica da Compaixão, Trans/Form/Ação, São Paulo, 21/22: 91-117, 1998/1999.

banner-mercadolivre1

Deixe uma resposta