Sheherazade e Silvio Santos: qual a função da polêmica?

De que é feito o embate social?

Silvio Santos e Sheherazade foram personagens de um caso polêmico nas redes sociais.

Eu não sei muito bem como vou escrever este texto, mas preciso dizer que a polêmica tem valor ideológico.

Isso é evidente. A polêmica, em geral, tem valor ideológico, serve como um guia, uma coleira que puxa o focinho do sujeito para o lado que deve ser cheirado. Ela não manipula, como se o sujeito fosse um boneco burro e cego para seus desígnios, a polêmica é parte integrante da constituição do sujeito, pois é ela que indica em qual lugar a atenção deve ser concentrada. Ela não influencia, ela indica o local em que isso deve e vai acontecer.

Porque estou dizendo isso?

A polêmica específica em torno de Silvio Santos e Rachel Sheherazade, que deveria ser entendida como uma briga de um burguês e seu cão de guarda, foi compreendida como a expressão particular de uma luta universal do sexo feminino contra o sexo masculino.

É óbvio que a ascensão de um Silvio Santos como multimilionário tem relação direta com o fato de ser homem e, de fato, a sociedade é construída de maneira que homens possam exercer poder sobre mulheres. O ponto é: em qual nível este embate particular de um multimilionário burguês e sua rica (e fascista) funcionária faz diferença?

Em minha opinião, talvez apressada, a diferença está na grade de interpretação que esta polêmica se enfiou. A narrativa popular a considerou como uma demonstração do assédio (universal) de homens sobre mulheres, mas não do assédio universal de patrão sobre funcionária.

Ou seja, a realidade do exercício de poder de Silvio Santos, patrão, em simplesmente dizer “quem manda aqui sou eu” foi deixada para trás em detrimento da realidade supostamente universal entre os gêneros. O assédio moral no ambiente de trabalho foi deixado de lado, pois o assédio moral em referência ao gênero foi levantado.

Eu uso o artigo da Socialista Morena para levantar esses pontos que estou falando. Segundo a jornalista,

Não suporto Rachel Sheherazade. Ideologicamente, estamos em campos opostos. Para mim, ela é uma das mais legítimas representantes da direita que mais desprezo: a que vocifera, baba de raiva, principalmente contra minorias, contra feministas e a esquerda em geral. Mas não posso me calar diante do que o apresentador Silvio Santos fez com ela no domingo, diante de milhões de espectadores do seu Troféu Imprensa. Mexeu com uma, mexeu com todas, mesmo. Não só com quem a gente gosta.

“Mexeu com uma, mexeu com todas”. Essa frase traduz a suposta universalidade da relação em homens e mulheres. Essa universalidade não leva em conta as variações existentes dentro dos próprios gêneros, afinal, se a jornalista Cynara Menezes considera que “todas” envolve a presença dela e de Sheherazade no mesmo grupo, eu duvido que essa presença seria bem aceita, por exemplo, por feministas comunistas.

Cynara continua,

Não satisfeito, e aproveitando-se do fato de estar acima dela em termos hierárquicos, Silvio apelou para o assédio moral descarado: “Se quiser falar sobre política, compre uma estação de TV e faça por sua própria conta”. Ou seja, claramente ameaçou a moça de colocá-la no olho da rua se não se comportar como ele manda.

Neste ponto, a minha pergunta é: em qual relação entre patrão e empregado não há ameaças constantes? Isso acontece não porque Silvio Santos é homem, mas sim porque é patrão e a existência do patrão enquanto patrão envolve a exploração da mão-de-obra que ele tem alí disponível, seja por meio de ameaças explícitas, como neste caso, ou com ameaças implícitas, como quando o Descanso Semanal Remunerado é retirado do pagamento de um funcionário que se atrasa durante uma hora na semana.

O estágio final dessa relação é a demissão. Mas a demissão é o fim da relação de poder, é necessário que o empregado seja empregado para que ela se mantenha, então a demissão só acontece quando há possibilidade de substituição, é por isso que as classes dominantes precisam ceder, às vezes, pois percebem que não terão substitutos, como nas primeiras décadas do século XX, com o espectro das revoluções socialistas rondando a Europa. Qual funcionário ocuparia um posto de trabalho na fábrica do patrão se todos estivessem engajados politicamente?

Seu artigo termina com,

Me parece absurdamente contraditório que gente de esquerda aplauda o que aconteceu ali por representar um “revide” pelos tantos ataques que sofremos dela. Está errado. Uma pessoa de esquerda nunca pode aplaudir que uma mulher seja “colocada em seu lugar” e julgada pelas aparências, nenhuma mulher.

O problema neste caso específico está na oposição determinante para o comportamento de ambos: não é o gênero, mas sim a posição em relação ao modo de produção. Quem manda é Silvio não por ser homem, mas por ser patrão.

Mas isso não é de suma importância para Cynara. O socialismo da jornalista é escancarado para a entrada de “empresas éticas” e iniciativas “respeitosas”, ela própria já declarou ser uma socialista “do século XXI”, afinal,

No socialismo moderno, não enxergo a necessidade de se “eliminar” os ricos ou de “reeducá-los”, como se defendia nos primórdios. O que tem que ser feito com os ricos é fazê-los pagar os impostos que nos devem, proporcionalmente à fortuna que acumularam.

Diz no artigo Uma Visão Holística do Socialismo. Ou: zen socialismo de seu site.

A oposição entre patrão e empregado não é importante para Cynara na medida em que derrotar o capitalismo não é um grande objetivo. Cynara não acredita em “revolução, mas em revoluções”. Ou seja, o que lhe interessa é a fragmentação do todo, daí, não ser evidente que o que Silvio fez é a expressão perfeita de como um patrão trata um funcionário.

Neste momento, posso trazer o conceito de polêmica que estava comentando no início da coluna: o caso específico de Silvio Santos e Sheherazade emerge como uma polêmica que tem, me parece, dois efeitos, sendo que 1) colocar em evidência o conflito homem vs mulher e 2) esconder o conflito de patrão vs empregado.

Assim, no ponto 1, devemos entender que a evidência do conflito homem vs mulher colocada pela polêmica fortalece o senso fragmentado e burguês do feminismo liberal, do discurso da internet, reinsere o sujeito mulher como um sujeito universal, portanto, sem declives, diferenças, enganos, desencontros. O sujeito universal é a mulher ou o homem, seja proletário, burguês, comerciante, não interessa.

No ponto 2 temos a completa derrocada do senso trabalhador. A oposição não está entre empregados e patrões, já que estes dois podem viver em harmonia, respeitosamente, o que os atrapalha são outros fatores, no caso de Rachel e Silvio, o gênero.

A polêmica não tem este objetivo, mas tem este efeito. Seu objetivo não é de manipular a mente dos sujeitos, mas a própria polêmica é concebida como uma forma de hegemonizar uma visão economicamente neutra, de um mundo que é, no fundo, harmônico, e só não entra em estágio de perfeição porque existem conflitos morais entre alguns indivíduos.

2 Comments

  1. Concordo com seu ponto central, esse episódio foi mais um exemplo de poder do dono sobre o funcionário, apesar de permeado pelo machismo uma vez que ele é componente estruturante dá sociedade.

    Mas fico em dúvida, você é a favor da revolução ?

  2. Concordo que o objetivo seja criar polêmica, mas discordo dos objetivos, o objetivos não são colocar em evidência o conflito homem vs mulher, tampouco esconder o conflito patrão vs empregado, quem cumpriu esses dois objetivos de forma magistral foi a socialista morena por trazer uma visão míope e contaminada sobre a questão. A cena em questão, na realidade foi uma grande encenação, que é típico de Silvio Santos. Em momento nenhum ele realizou uma crítica verdadeira as colocações políticas da Rachel, tampouco uma ameaça real de demissão uma vez que o próprio já saiu em sua defesa num passado próximo quando alguns setores da sociedade tentaram tirá-la do ar pelo teor de suas colocações políticas, Silvio a defendeu e garantiu que ela continuaria fazendo suas colocações políticas, simplesmente por que isso é interessante para ele, por ser mais uma forma da criar polêmica e aumentar a audiência.
    Silvio não discorda das colocações de Rachel, pelo contrário, há pouco tempo a emissora veiculou pequenas chamadas em apoio a reforma da previdência de Temer, se bem me lembro. O circo que eles armaram no palco pelo visto surtiu o efeito esperado, Silvio é um grande mestre do jogo midiático, como diz o velho ditado ele não um ponto sem nó, tudo o que ele fez de fato foi utilizar elementos que ele sabia que seriam problematizados para atrair a atenção da população, e conseguiu, como sempre. Silvio não reproduziu naturalmente (no sentido de um comportamento naturalizado) um comportamento comum a um homem (sexo masculino) em sua posição de poder (patrão milionário), ele fez isso de forma planejada e com um objetivo específico em mente, ou seja, teatro, armação, ele joga com um funcionamento social estabelecido e com aqueles lutam contra a naturalização desse funcionamento social, de bobo e desavisado Silvio Santos não tem nada.
    Os objetivos da polêmica não foram os citados no texto, simplesmente por que esse objetivos não rendem ao Silvio dividendos, tampouco é do seu feitio utilizar de sutileza na hora de influenciar as massas com suas convicções ideológicas, quando o faz, faz de forma direta e escancarada, no entanto, parece que infelizmente os objetivos citados no texto foram alguns dos efeitos provocados mas não pela polêmica em si e sim pela reação torta de alguma pessoas, foi a jornalista Cynara que produziu esses dois efeitos especificamente com sua “análise” do caso.
    A meu ver os objetivos de Silvio são lançar mais holofotes e aumentar o foco sobre sua jornalista para aumentar a audiência e consequentemente ganhar mais dinheiro, e reforçar os olhares para o espectro ideológico que a emissora defende.
    Com relação a colocação da socialista morena, um bom exemplo de como há de fato uma tendência a transformar qualquer coisa em luta de gênero pode ser encontrado no próprio Silvio, que já fez essa mesma “brincadeira” de demissão com o Ratinho várias e várias vezes, ele transformou isso em um meme particular, não me lembro ter visto alguém problematizar a questão do abuso de poder nessa situação.

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