Quando a internet vai à TV

Primeiramente, o clipe de Mallu Magalhães para
Primeiramente, o clipe de Mallu Magalhães para “Você não presta” foi acusado de racismo.

O episódio de Mallu Magalhães com seu clipe de Você não presta, demonstra uma expansão territorial do discurso da internet: como eu já falava em meus artigos anteriores, este discurso não está preso à internet, não se limita a ela, ele constitui seus sujeitos e fornece enunciados que podem e devem ser ditos.

Sua coerência está nas regras que permitem a emergência dos enunciados, ou seja, está no fato de que não se fala qualquer coisa. No entanto, não há um lugar físico ou virtual que prenda o discurso. Se o discurso é hegemônico na internet, é só porque ainda não teve tempo nem abertura em outros locais, apesar de eu já ter observado que sua eficiência também se dá nas universidades e em movimentos estudantis (que são os locais que os cybermilitantes se deslocam).

Assim, entendemos que o clipe de Mallu Magalhães foi problematizado, ou como eu já tratei a respeito da carta de Gregório Duvivier para Clarice Falcão, se transformou em objeto do discurso na medida em que foram produzidos enunciados para fazer do objeto, que poderia ser qualquer coisa, em um clipe racista. Especificamente, um clipe racista e nada mais.

O trabalho de problematização do discurso da internet é justamente aquilo que o termo nos entrega de imediato: é uma atividade de criar o problema. Não podemos ser ingênuos e achar que o problema sempre está lá, basta olhar corretamente, temos que entender que os problemas aparecem em relação à perspectiva específica jogada sobre o objeto, ao discurso específico que transforma o objeto real em objeto do conhecimento.

Estamos tratando do discurso da internet, que se ancora mais na fabricação dos problemas do que em sua resolução. Daí ser muito mais interessante determinar o significado de um clipe como racista do que comparar os diferentes conceitos que aqueles significantes poderiam abarcar.

Dentro do programa Encontro com Fátima Bernardes, quando Mallu foi uma das convidadas juntamente com Maíra, a Tia Má, que se define em seu canal no YouTube como “Jornalista, conselhereira amorosa, preta, gorda e nordestina”, a cantora dedicou sua música aos preconceituosos “que acham que branco não pode tocar samba”. Veja abaixo.

O infeliz comentário de Mallu Magalhães não serve simplesmente para nos mostrar como ela é racista. Não funciona como a prova de que a mente racista que maquinou o clipe racista é a mesma que elaborou a frase sem a menor coerência acima mencionada. O comentário da artista mostra um choque de confusões, de problemas. Não é através do modus operandi do discurso da internet que Mallu Magalhães age, por isso seu clipe não lhe pareceu racista da mesma maneira que a internet disse que era; por isso ela não sabia de cor e salteado o quão ruim seria falar sobre racismo sobre brancos, seja lá qual fosse a situação.

Se ela soubesse que sua atitude seria “acusada” de racismo reverso (vou usar o termo que li em matérias jornalísticas: Mallu Magalhães foi “acusada”, como se isso fosse crime previsto em lei – pior, como se o racismo reverso fosse algo dela e não da atitude), não teria dito e, se ela fosse parte do grande ativismo da internet, saberia muito bem disso. Entretanto, insisto em dizer que não foi essa frase que lhe causou problemas: ela já seria o problema, falando ou não sobre brancos e samba.

A técnica de problematização do discurso da internet não precisa de sinais muito claros e grandes para dar conta do recado, a frase de Mallu Magalhães seria dispensável.

Acredito que a presença deste discurso e de pessoas dispostas a falar através dele (e de ficarem em silêncio através dele), mostra que, pelo menos naquilo que pôde ser dito no programa, o discurso da internet é inócuo em relação ao senso comum: ele não gera nenhum conflito que não possa ser administrado com simplicidade.

Quando o discurso da internet vai pra televisão, é isso que ele faz: cria um clima de ativismo, de que problemas estão sendo discutidos, quando, através do próprio funcionamento do discurso, sabemos que os problemas estão sendo somente produzidos, sem perspectiva nenhuma de resolução, já que, no discurso da internet, é o sofrimento que funciona como capital simbólico fundamental para as diferentes práticas que os sujeitos do discurso podem praticar.

Por que, então, um programa de televisão deu lugar para isso?

Acredito que a resposta se relaciona com a preocupação (crocodiliana) das empresas com questões sociais. Já falamos sobre a Avon, um programa da Globo trazer tais problemas não foge do mesmo princípio: a suposta preocupação que devem ter com problemas sociais, não só econômicos, na medida em que seus consumidores jovens também se preocupam com tais temáticas.

Isso é tão declarado que, depois de ouvir a frase polêmica de Mallu Magalhães, Maíra comentou em seu perfil no Facebook que “não iria transformar o palco do programa em uma batalha… Sabia que a internet daria conta“. O programa se transformou no palco do discurso da internet e talvez agracie seus consumidores de 20 e poucos anos com um pouco de conteúdo supostamente polítizado.

 

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