A esquerda crítica e a crítica da esquerda

A esquerda tem uma doença crônica que foi identificada, catalogada e descrita pela primeira vez por Lênin no seu ensaio "Esquerdismo a Doença Infantil do Comunismo" há 96 anos. Pois bem, mesmo depois de tantos e tantos teóricos da esquerda pós-Lênin (Adorno, Lukacs, Gramsci, Rosa Luxeburgo, Simone Buvoir, Focault, pra citar alguns) , a esquerda continua sofrer desse mal e com a internet ele fica cada vez mais e mais visível.

A esquerda tem uma doença crônica que foi identificada, catalogada e descrita pela primeira vez por Lênin no seu ensaio “Esquerdismo a Doença Infantil do Comunismo” há 96 anos. Pois bem, mesmo depois de tantos e tantos teóricos da esquerda pós-Lênin (Adorno, Lukacs, Gramsci, Rosa Luxeburgo, Simone de Beauvoir, Focault, pra citar alguns) , a esquerda continua sofrer desse mal e com a internet ele fica cada vez mais e mais visível.

Apenas uma singela clicada e pronto: uma cachoeira verborrágica de adjetivações inócuas e moralistas cai diante de seus olhos cansados, devido a tela do computador; esse jato propulsor de ódio esquerdista sempre tem endereço certo: algum partido, ou teórico, ou politico, ou até o argumentador que participa do debate. O léxico escolhido é sempre agressivo, carregado de valores abrangentes e/ou subjetivos, carece, portanto, de objetividade teórica e argumentativa; os exemplos são vários, mas os meus preferidos são: pós-moderno, traidor de classe, pelego. Uma outra clicada e voilà: um monte de truísmos – expressões que soam como musica aos ouvidos de alguém mais passional e menos crítico – que são jogados ao debate sem qualquer responsabilidade intelectual, há vários, mas o meu preferido (e acredito que de fato seja o maior truísmo de todos mesmo, a ponto de beirar a pura demagogia) é “Temos que CONSCIENTIZAR os trabalhadores, as mulheres, a comunidade LGBTT*, os negros, os índios, as crianças (e por aí vai)”.

esquerda crítica e crítica da esquerda

Ou seja, parece-me bem evidente que a crítica da esquerda hoje deve se atentar a falta de uma esquerda crítica dentro do movimento e ao crescimento de uma esquerda passional, adjetivadora, negligente em salientar as condições objetivas na hora de fazer uma análise séria a um partido, político, teórico ou as próprias ideias de um argumentador qualquer.

Entre o truísmo e os léxicos adjetivadores que exemplifiquei, critico primeiro essa ideia de que “é necessário conscientizar”.  Ora, não há nada mais prepotente do que falar isso de que alguma classe ou grupo oprimido precisa ser conscientizado. Graciliano Ramos já nos ensinou por meio do livro “Vidas Secas” que o oprimido tem CONSCIÊNCIA sim de sua condição de opressão, basta lembrar do personagem ícone do romance: Fabiano, o sertanejo que, junto com a sua família, vive as custas da fome e da seca, sem quaisquer condições objetivas para se ter uma vida digna.

Durante todo o romance, Graciliano faz questão de deixar claro que o problema do oprimido não é a sua falta de consciência social – até porque não há falta de consciência alguma -, mas o  silenciamento que é imposto materialmente a esses grupos de forma cruel por toda estrutura e superestrutura opressoras do meio que social em que vive.  Então, caros amigos adeptos da religião do esquerdismo, parem com essa palhaçada! O dever do militante de esquerda não é conscientizar, é organizar, instrumentar a classe ou grupo oprimido e dar condições CONCRETAS para que este consiga ter voz dentro da sociedade e, mais importante que voz, consiga ser ouvido! Além de tudo, é dever do militante também fazer o possível para que o grupo ou classe oprimida consiga assimilar a linguagem do opressor e mudá-la, segundo os próprios padrões estéticos dessa classe ou grupo, democratizando assim a língua falada, escrita e simbólica dentro da sociedade.

Então parem, por favor, parem com essa ladainha de 171 de falar que é essencial a conscientização, o que é essencial é a organização, apoderamento e autonomização do grupo social oprimido para que este se torne uma força social relevante e consiga se fazer ouvir!

Agora vamos falar das adjetivações raivosas e moralistas. Ora, entendo que dentro do arcabouço léxico-teórico da esquerda exista espaço para termos como “traidor de classe” e “pelego”, mas definir alguma liderança dessa maneira é algo extremamente difícil, seria necessário analisar uma série de variáveis concretas para enquadrar alguém dentro dessa conceituação. Ademais, essa taxação é muito mais útil em um contexto onde se faça necessário usar esse termo, como em um processo revolucionário, onde a luta de classes e suas contradições ficam BEM mais evidentes.

Certa vez li algum infectado pela doença do esquerdismo falar que o Stédile é um traidor de classe – O que é que é isso, companheiro? Mesmo? Vai deslegitimar uma VIDA de militância em um dos maiores, se não o maior movimento social do mundo, chamando o Stédile de pelego ou traidor de classe? Sem usar de qualquer embasamento em fatos e teorias para comprovar tal acusação? – , além de ter rotulado um dos líderes do MST, a justificativa do companheiro de esquerda para chamar o Stédile dessa forma foi simplória :”ele enganou e engana o campesinato!”.  Como se a relação entre direção e base em um movimento social fosse de tutela, como se fosse possível  algum ser do mal enganar toda uma classe que é passível de ser enganada, sem levar em consideração que, talvez só talvez, a maior parte da classe concorda, por questões BEM MATERIAIS, com as avaliações conjunturais e politicas do companheiro Stédile.

No fim toda essa rotulação só serve para desgastar o capital politico de alguém ou de algum partido, ou seja, é uma tática retorica bem politica, sem compromisso algum com uma crítica materialista e dialética.  Não queria cometer um AD HOMINEN aqui, mas ele se faz necessário: não é incomum que toda essa galera que curte rotular os companheiros em adjetivações negativas dentro da esquerda seja parte de uma elite intelectual que desde pequena come três refeições por dia e agora, por que tem dinheiro e capital cultural, tem o PRIVILÉGIO de fazer uma faculdade no instituto de humanas de alguma universidade pública. Vale lembrar que não são todos que fazem esses curso que agem dessa maneira, mas quem faz/fez algum desses cursos (ou é amigo do pessoal que estuda lá) conhece MUITO BEM esse tipo de revolucionário (brancos, classe média/média alta).

Um dado interessantíssimo, na UNICAMP, o IFCH (Instituto de Filosofia e Ciências Humanas) tem a segunda maior renda per capta entre os alunos da universidade, isto é: a renda média de um aluno do IFCH é a segunda maior da UNICAMP. Faço questão de destacar isso não pra ficar apenas na questão moral da pessoa ter conforto financeiro, é a questão objetiva mesmo: esse pessoal tende a querer falar pelos trabalhadores, da mesma forma que homem tende a querer falar pelas mulheres na questão do feminismo, da mesma forma que branco tende a querer falar pelos negros na questão do racismo, ou seja, ao invés de tentar a entender a realidade objetiva da classe e ajudá-la se organizar e ter voz própria, esses revolucionários preferem ficar desgastando a imagem de militantes que de fato estão fazendo isso.

Antes que atirem a primeira pedra, sim, também sou muito bem nascido, obrigado, sou burguês traidor da minha classe, mas eu NUNCA tento pautar o movimento trabalhador, sempre ajo no sentido de entender ao máximo suas condições objetivas contemporâneas, eu ouço, não pauto. Argumento, não xingo, nem rotulo. Aliás, não só eu faço isso, conheço uma gama enorme de gente com mesma atitude, reais militantes de esquerda, que estão sempre mais preocupados em ajudar a organizar a classe e grupos oprimidos ao invés de ficar cornetando adjetivações inócuas em ouvidos alheios.

Falta uma adjetivação pra ser devidamente descontruída aqui, e reservei um parágrafo pra ela, pois, de fato, é a mais banal e sem sentido de todas. Chamar o companheiro de esquerda de “pós-moderno” ou “pós-modernista”. Camarada, isso é um absurdo. VIVEMOS NA ERA PÓS-MODERNA, querendo ou não, conscientemente ou não, nós reproduzimos e repercutimos em alguma instancia a ideologia pós-moderna, por que AS CONDIÇÕES OBJETIVAS de hoje em dia caracterizam todo um cotidiano que os estudiosos (Zizek, Bauman, Sennet) resolveram chamar de pós-moderno. Logo não faz sentido ALGUM chamar alguém de pós-moderno, haja vista que, como todos somos contemporâneos desta era, somos TODOS PÓS-MODERNOS, em algum espectro, de alguma forma, repercutimos a pós-modernidades em nossas atitudes e discursos.

Por isso é imperativa a autocritica constante, para que possamos estar sempre em processo de desconstrução e reestruturação de nossas impressões e percepções. Outro dia li alguém chamando Foucault de pós-modernista. Quase enfiei meus dois punhos direto nas minhas cavidades oculares. Perdão do palavrão, mas, PORRA!!! MESMO? Você, jovem intelectual cujo arcabouço teórico deve ser apenas leituras de blogs de esquerda com artigos de OPINIÃO e do Manifesto Comunista, vai reduzir um dos maiores filósofos/historiadores/epistemólogos da segunda metade do século XX à simples rotulação de pós-moderno? Um cara que estudou a vida inteira de maneira rigorosa a temática do poder e suas manifestações na sociedade complexa e que mostrou via estudos concretos que a problemática da opressão vai muito além do fato de qual modo de produção estamos inseridos? Como o patriarcado que data antes do capitalismo? Ou a sexualidade, cuja manifestação não está diretamente a serviço do capital, mas tem uma economia própria de poder e de discurso da verdade? Você vai deslegitimar um cara que deixou todo um arcabouço teórico extremamente ligado a pratica cotidiana que ajudou na emancipação e no discurso de vários movimentos sociais de minorias sociais? Sério? Não me parece muito comedida essa acusação de que Foucault seja apenas um pós-moderno.

A esquerda precisa ser crítica consigo, levando em consideração que a esquerda é formada por diversos setores, todos esses setores devem ser críticos, sim, e a crítica é SEMPRE BEM VINDA. Agora, rotulações rasas e levianas não são críticas e, como eu já disse aqui, servem apenas para desgastar a imagem de algum setor, ou pessoa, e enaltecer moralmente a imagem de quem está emitindo tal opinião taxativa. Isto é, rotulações rasas e levianas servem apenas para tentar fazer com que sua patota seja única dentro da esquerda, que é um movimento plural, de inúmeras racionalidades. Digo mais, essa ideia de se tornar único nem de Stalinista é, é uma afronta a uma parte da esquerda dizer isso, mas de LIBERAL! É o liberal que diz que existe apenas UMA RAZÃO, a esquerda, companheiro, não trabalha com RAZÃO, trabalha com RACIONALIDADES, o que é muito mais democrático e horizontal. Para finalizar, cito Foucault:

“O que frequentemente me incomoda hoje – em última análise, o que me dói – é que todo este trabalho feito durante quinze anos, muitas vezes com dificuldades e às vezes na solidão, só funciona para alguns como sinal de pertencimento: estar do “lado correto”, do lado da loucura, das crianças, da delinquência, do sexo. […] É preciso passar para o outro lado – o “lado correto” – mas para procurar se desprender destes mecanismos que fazem aparecer dois lados, para dissolver esta falsa unidade, a “natureza” ilusória deste outro lado de que tomamos o partido. É aí que começa o verdadeiro trabalho.”  Traduzindo pro bom português “Eu não criei todo um arcabouçou teórico para auxiliar na luta COTIDIANA contra os mecanismos de poder para você esquerda café com leite ficar se autoafirmando como a única que está correta”

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